quinta-feira, junho 20, 2024

Já terei escrito parecido

Lembro-me de ser um puto e ir cortar o cabelo.
Ia sempre ao mesmo sitio - o Chico - um autêntico palácio melenar, onde já sabia a primeira pergunta que me faziam e o rumo da conversa: 1) então e o nosso benfica? e 2) Não sendo benfiquista, o resto da prosa fazia-se a trocar ideias sobre planteis e estado da arte futebolística.
Era uma meia hora onde se defendia ferreamente o Figo, mas sobretudo o Rui Costa e João Pinto, artífices das faças luso-encarnadas.
Os tempos mudaram. Por razões previsíveis, fui aparar a trunfa e, no caminho, começava um fogo num automóvel, em pleno centro sul. O povo juntava-se e havia a esperança de o apagar. Nao fiquei para ver.
Chegado ao barbeiro, sento-me, encomendo visual e a conversa não versou sobre bola.
"Não tarda nada, temos guerra nuclear. O Putin está a ver a ajuda à Ucrânia e qualquer dia farta-se". A elocução prosseguiu: "Estes políticos é tudo máfia. Ninguém sabe o que conversam, nem o que pensam. Ajudam-se todos. Agora, é o outro que vai para o coiso da Europa".
 - Conselho Europeu  - Disse.
"Isso".
Paguei. Voltei por onde vim. O carro já tinha ardido

segunda-feira, fevereiro 13, 2023

Aparentemente, o fim

Desconheço como seja para os demais, ainda que aposte que é muito menor escala.

Sempre fui objecto de dislates, comentários, conselhos e até ordens.

- Estás gordo.

- Está magro (esta, confesso, tem anos)

- Quando é que cortas o cabelo?

- Quando é que deixas de fumar?

- Quando é que arranjas namorada?

- Quando é que vais estudar?

- Quando é que tens isso pronto.

A lista era maior, mas cortei-a para efeitos de concisão.

Coincidentemente, quem mais gostava de me fazer perguntas como as supra mencionadas era também quem achava que eu era "susceptível".

A razão pela qual introduzi o presente texto com as linhas com o qual começou deverá ser mais psiquiátrica do que propriamente auxiliativa à percepção do que aqui vai sendo escrito.

E o que vai ser aqui escrito é algo que me tirou uma noite de sono, ainda ontem.

Morreu uma amizade.

Não uma amiga, mas uma amizade.

Uma amizade de décadas da qual, ainda assim, recordo o seu início. Recordo o que foi o seu desenvolvimento. Sei porque chegou ao fim. 

Perdi muitas amizade ao longo dos anos. A sapiência da minha mãe sempre apontou as causas: "tu exiges demais das pessoas".

Maybe so.

Talvez seja o meu carácter de ermita. O gosto que tenho pelo silêncio da solidão. Ao contrário da maioria dos idosos, nunca me assustou ficar sozinho. 

Mas neste caso, não foi por aí.

Esqueci-me do que me fazia ser amigo dela. Era prestável? Não. Ajudou-me em momentos que precisei? Não. Conhecia-me? Não. Respeitava-me? Não. Respeitava quem estava à minha volta? Não. Solicitou a minha ajuda? Sim. Ajudei? Sim. Precisou de mim? Sim. Alguma vez agradeceu? Não.

O culminar de tudo foi associar-me a uma caricatura, a um ser perfeitamente detestável. Rematou tudo chamando-me pelo meu apelido, coisa que nunca na vida fez, pelo menos à minha frente.

Terá sido a pandemia e o que nela dissemos que terá provocado a distância, que terá cavado o fosso.

Terá sido a vida e as experiências que ela proporciona.

Terei sido eu e a minha mania de querer algo dos meus amigos, como seja respeito, capacidade de me ouvirem sem criticar, não ser reduzido.

Bom, mas a vida segue.

Acho que atingi uma idade em que não vale a pena fazer disto grande cavalo de batalha. Não vale a pena confrontar a pessoa. Isto, por uma razão simples: não quero provocar reforma no comportamento, quero mesmo distância, o fim daquilo na minha existência.

Também não vale a pena provocar um sismo. Há amigos comuns que quero que se mantenham e não se vejam forçados a tomar conhecimento do que penso, muito menos tenham que tomar lados.

Um dos grandes humoristas deste tempo terá dito qualquer coisa como: a morte é muito parecida à estupidez, uma vez que tem efeitos nos outros. O morto não tem consciência da morte e o estúpido idem.

Sendo a morte, aqui, metafórica, "estúpido" e "morto" coincidem. Pela minha parte, não há necessidade de que percebam este meu estado.

Para isso serve este texto.

 

 



terça-feira, dezembro 06, 2022

Há bocado

Típica manhã de Dezembro, no início de Dezembro. Ainda escrevo os meses com letra maiúscula.

No carro, aquela réstia de humidade que cobre as janelas. Estava a limpá-las.

"Perdoe-me a ousadia, mas vai para o Laranjeiro?"

Exibia-se um ser humano maior que eu, de voz grossa e vivida, vestido como podia e com um braço ao peito. Olhei-o.

"Por acaso, hoje não. Vou para Almada, centro sul"

Cogitou. 

"Deixe estar, obrigado"

Insisti

"Mas não quer que o deixe em Almada?"

"Centro sul? Sim, se calhar ainda consigo ir de metro, não sei é se terei dinheiro para o bilhete."

"Entre."

Apresentou-se. Era Engenheiro de comunicações

"Fui Colega do Guterres e do Mister da Selecção".

Explicou-me o Curriculum. 

"Trabalhei 16 anos na Inglaterra, era Engenheiro lá. Depois, tive uma doença rara, dois AVC e não me consegui levantar. Hoje, sou sem-abrigo por causa da filha da puta da minha irmã."

Ainda começou a introduzir o tópico "filha da puta da minha irmã", mas estava mais engajado no caminho que tinha tido antes.

"Fui a muitos médicos e só um me diagnosticou. Cá, em Portugal, já estive internado sem falar e sem ver".

O cenário era negro.

"Agora, dei uma queda, filha da puta".

Começámos a chegar ao destino. 

"Agora, vou para Cuba, casar-me com uma Cubana. É tal qual a Naomi Campbell. Se olhar para mim, veja lá se não sou tal qual o Morgan Freeman? Em Inglaterra, tenho histórias destas fabulosas."

Parámos, perguntou-me o nome, disse. 

"Não me vou esquecer de si".

Não me importava nada de ter ido beber um copo com aquele homem.


quinta-feira, setembro 15, 2022

O Segundo Dia

 ...Porque, no primeiro, não me coube a tarefa.

Desço a escada e, como se Deus existisse e a sua única missão fosse punir-me porque Nele não creio, abate-se uma monumental carga de água com uma pressão que só podia desejar que existisse no meu chuveiro domiciliar.

Sem casaco, sem chapéu de chuva, a muito custo tento acomodá-lo no carro e protegê-lo na intempérie. Sendo bem sucedido, não deixo de emitir um sonoro berro por razões fúteis, como é ter acabado de "desfrutar" de um novo duche.

O caminho faz-se sem sobressaltos. Uns quantos automóveis mas nada que obste ao percurso mais ou menos célere. Esperar por mais é ter a vã esperança que o trânsito está sujeito às regras de qualquer doutrina Marxista.

Ao chegar, o espírito dele está inquebrável. Bem disposto, brincalhão, tudo o que sempre foi e é.

Encaminho-o para o portão, onde é recebido por uma simpática funcionária. Mais meninos o acompanham.

Foi aqui que me perdi.

O volume de transeuntes impede-me de ficar naquele portão. Havia que dar lugar aos demais, iguais em direitos, para que tivessem o mesmo destino no meu.

Um pouco mais à frente, por uma nesga das grades que separam o estabelecimento da rua, vejo-o. Olhava para os lados, seguindo um carreiro que julgava ser o seu (e quem sabe seria) até à sala de aula.

Voltei a perder-me.

Aquele olhar em volta diminuiu-me. Encheu-me de problematizações, conjeturas, enfim, de uma tristeza que só me lembro de sentir em fases más da vida.

A verdade é que, com o passar dos anos, vejo ali muito de mim, verdadeiramente, uma parte de mim. Mas não uma parte qualquer: trata-se da melhor parte. O que gostaria de ter sido. 

Não me chegam os "vai correr bem", "todas as crianças andaram na escola" ou "todos os pais passam por isso".

De forma franca o escrevo: não me interessa.

Vejo a vida a correr, sempre com a pressa da existência e constato que a história me ultrapassa, sem que tenha hipótese de fazer mais por ele. O sentimento de fracasso é-me inevitável. 

Olhando para o lado, o sol está a tentar romper por um par de nuvens. Metáfora?

Obviamente que não.

quinta-feira, março 31, 2022

Escrito previamente não era melhor

quarta-feira, janeiro 26, 2022

A Sophie Ellis-Bextor ainda existe!

sexta-feira, janeiro 21, 2022

No caminho para uma noite complicada

"Costa está a governar para a história". 

A frase é de um comentador conhecido. É pesquisar. Foi dita poucos meses após o decreto de estado de emergência.

Durante um tempo, não acreditei. Contudo, o caminho que vamos seguindo, enquanto comunidade consumidora de opinião e meios de informação, começa a dar razão ao supra citado dito. Em conversa com velhos conhecidos, noto bastante resistência à imagem de António Costa. Em círculos mais alargados, posso ter testemunhado ódio.
 
Por seu lado, António Costa tem trilhado um caminho sinuoso, ora entre o arrogante e bonacheirão, entre o negociador e o obstinado. Dele se diz que está cansado. Que não serve. Que quer sair. Olho para o lado e não vejo quem desminta, quem critique isto, quem defenda o (agora) candidato.
 
É, portanto, para mim surpreendente que as sondagens lhe cheguem a dar o que dão. Porque não refletem o que vejo, o que leio. Não conheço 10 pessoas que votem no Partido Socialista. 

É para mim evidente que Rui Rio ganhará o país. Será Primeiro Ministro.

Como é tristemente visível no que deu o chumbo do orçamento.
 
 

terça-feira, maio 18, 2021

E por que razão postei eu isto aqui. Uma resposta sonica

quarta-feira, março 31, 2021

Problemas de colocação - Na primeira pessoa, o que dá um ar pouco interessante

Um magistral livro que li há poucos meses começava com a seguinte frase: "Só há um problema filosófico verdadeiramente sério: é o suicídio".

Embora poderoso, é um slogan que não acompanho.

Nas passadas semanas (e isto é em mim extremamente recorrente) dei por mim a questionar o meu papel na existência. Afinal, o que sou é o que deveria sempre ter sido? Existe esse determinismo? Poderia ser mais realizado, ou está atingido o máximo? Fico bem com a profissão que tenho, ou claramente não poderia exercer?

O olhar que deito em mim não terá um respaldo social, isto é, quando faço estas perguntas não respondo pela bitola de um leigo, mas por critérios objectivos.

E objectivamente só alcancei relativo sucesso (e relativo é hiperbólico) nas funções sociais básicas, como ser marido, eventualmente filho e ainda especulo sobre o meu papel de pai.

Respeito a minha mulher e nunca faria algo que a magoasse. Quanto aos meus pais, apesar do péssimo feitio e contradições insanáveis diárias que trago na mala, acredito mesmo que podiam ter um filho pior que eu. E não têm.

Mas, e tudo o resto?

Vejo gente saciada, capaz de viver bem na sua pele e esse não é, manifestamente, o meu caso. 

Creio que o meu lugar no mundo ainda não é conhecido. Pelo menos por mim. Pode ser que esteja errado e até ao dia de picar o ponto esteja na mesma, com esta problemática em boomerang, indo e vindo, vindo e indo.

Mas não me vejo competente. Não me tenho por capaz. Lamentavelmente, por falta de uma pluralidade de factores, nunca mudei o rumo. Por aqui segui.

Com esta interrogação, vem outra. Como serei capaz de lidar com a minha insignificância? 

Tenho constatado que a maioria da humanidade deixou de pensar no seu contributo e exposição. Subitamente, aparecem pessoas que pensam poder influenciar outras, seja no aspecto capitalista ou mercantilista do tema, seja por acções. Pessoas que convencem outras a agir de determinada forma. Quanto a essas, não há assunto, isto é, está tratada a questão. Não são insignificantes, pelo contrário, agem todos os dias na influência, na capacidade de mudar, coisas ou pessoas, realidades e por aí fora.

Fora de um núcleo que se pode resumir a pouco mais de uma dezena de pessoas, desapareço. Não deixo marca no mundo, serei esquecível. 

Será isto um problema? Pelos vistos, para mim, é. Nunca contei ser tão dispensável, tão desprezível.

Sonhei ser um profissional respeitado e competente. Falhei. Quis fazer a diferença na minha profissão. Só igual a tantos.

Sem ter algo que me distinga, algo que me traga, então, o respeito e competência, fiquei na mediania. E está aí um problema filosófico interessante: o que fazer com a mediania e a quem se situa abaixo dela?

quarta-feira, janeiro 20, 2021

Portugal e uma bica

 Voltámos ao confinamento.


Não havendo elemento volitivo para abordar o tema, há um aspecto que me mereceu reflexão e que se liga ao estado a que chegámos.

A partir de hoje (e sabe-se lá até quando) os estabelecimentos comerciais não podem vender bebidas ao postigo e, caso vendam comida, a mesma não pode ser consumida ali à porta.

Uma amiga minha levantava esta singularidade no whatsapp e razão tinha ela.

Habituados que estamos a ver, no cinema anglo-saxónico, aqueles baldes de café, que são sempre "to go", em Portugal consome-se uma espécie de cartuxo de caçadeira oco, recheado daquele ouro negro. E o café nunca é "to go". O Café é sempre o café e qualquer coisa. O Café e a conversa. O Café e a contemplação do redor. O Café e a sua degustação calma e tranquila. Beber café a andar é uma negação para nós.

O animal social que por estas bandas habita é curioso a níveis do impensável. Não tenho a certeza do que digo, mas se algum país remeteu as vendas de bebidas e comidas ao postigo, não sei se teve de as proibir mais tarde, pelos aglomerados que causavam. Acredito nisto em Espanha e Itália. Não acredito nisto na península nórdica.

Nada em nós é um fim em si mesmo. Os fenómenos de alcoolismo (que obviamente lamento) só em parte são solitários. Quem pesa mais do que deve raramente quer contribuir para a manutenção da pança centrado em si mesmo. 

A verdade é que fazemos das actividades algo comunitário. Há excepções, claro. Mas no que toca à alimentação, nas suas várias vertentes, somos gregários.

Somos mais Kantianos e Marxistas do que pensávamos.

terça-feira, janeiro 05, 2021

Mensagem de ano novo

Como (quase) sempre, naquela manhã de 1 de Janeiro, fiz café, excepcionalmente confeccionei ovos mexidos e sentei-me em frente à televisão. Perante uma sala vazia, a Orquestra de Viena aquecia os metais e preparava-se para mais um Concerto de Ano Novo. 

A performance foi a de sempre, ilidindo a presunção (agora certamente tida por errada) de que é com o público que aquele género de arte se eleva. Treta. Muito Strauss, muitas valsas. Pouca novidade para a perfeição costumeira.

Tive como inevitável, a cada solo, a cada imagem "típica" de gente a dançar, lembrar-me que estar ali sentado, àquela hora, com aquele programa, era um privilégio. 

A primeira imagem que se projectou na minha cabeça foi a de uma diligência em que fui acompanhar um grande Colega meu, já nem me recordo onde. Estávamos em Janeiro de 2020. Na rádio, noticiava-se que "uma pandemia chinesa já havia morto alguns milhares". O Colega, em jeito de brincadeira, comentava: "Epá, já matou 0,00000000000000000000000000000000000001% deles".

O vírus estava longe, na China. Alguma vez chegava cá? Tal crença era partilhada por autoridades de vária ordem.

À medida que os países iam conhecendo infectados por aquela nova ameaça, por cá, a Comunicação Social tinha a tesoura aberta para cortar aquela fita, a fita do primeiro malogrado, do primeiro desgraçado a tossir e a dar-se como febril.

Por outro lado, a minha actividade profissional parecia, finalmente, entrar naquele ciclo em que os profissionais experimentados chamam "os primeiros cinco anos", onde a clientela é regular, pagadora e se começa a perceber a razão de ter seguido a via do Direito prático. As contas públicas conheciam superavit, as empresas começavam a ter confiança.

No dia 12 de Março, em casa dos meus pais, assistíamos a um corajoso discurso do Primeiro Ministro. Adivinhava-se a ameaça.

O resto dos factos são públicos. A interpretação dos mesmos, contudo, fica a cargo de cada um.

Agora que escrevo estas linhas, tudo me parece ter tido lugar há dezenas de anos. Mas isso nem é o mais curioso. É que, não obstante ter a impressão supra descrita, também sinto que nunca havemos de sair disto. O júbilo que senti com as primeiras imagens de vacinação foi arrasado pelos eventos subsequentes, com o aumento do número de pessoas a morrer devido à doença, com hospitais insuficientes para dar resposta e por, no meio audiovisual, não haver esperança.

E essa falta de esperança trouxe-me aqui. Ainda que o aceite, o tenha por certo, ainda me custa constatar o absurdo, passar por ele. Mas é tão evidente, tão palpável.

Resigno-me. Há dois pensamentos que podem ficar aqui, enquanto mensagem de ano novo. O primeiro é meu e o outro não.

Ninguém morreu, até ver.

Toda a infelicidade dos homens nasce da esperança.

Prossigamos.


 

 

sexta-feira, outubro 30, 2020

Problemas femininos

Tenho andando enganado.

Nunca considerei possível um Homem sentir-se enganado. Este preconceito deve ser o último resto de neandertal que me arrendava um pedaço da mente. Acreditei sempre que um Homem se sentia desiludido, apunhalado, mas nunca enganado. Isto porque o engano era uma humilhação suprema, uma confissão de crime, o derradeiro gozo.

Cá estava a vida para me provar o contrário. 

Nas pequenas coisas, associadas ao fenómeno da espuma, mantenho: não há enganos, há desilusões, faltas de compreensão, desatenções. Comprar uma jóia bonita e ser falsa: ignorância. Escolher mal um carro: desilusão. 

O engano está nas grandes questões da vida. No amor, na guerra, na amizade. Pode haver desilusão no amor, claro. Pode haver ignorância quanto à necessidade de guerra., má informação.

Felizmente, quanto ao amor, não tenho de que me queixar.

terça-feira, setembro 22, 2020

Lido por aí

 "Mas quando só se dorme quatro horas não se é sentimental. Vêem-se as coisas como elas são, isto é, vêem-se segundo a justiça, a horrenda e irrisória justiça." 

Duas conclusões emergem.

1.ª: O sono faz falta. Faz-me falta.

2.ª "A vida é como uma corda de tristeza e alegria que saltamos a correr, pé em baixo, pé em cima, até morrer".


O que não vale é deixar de saltar.



quarta-feira, setembro 02, 2020

A lembrar-me de qualquer coisa

É normal ser custoso voltar ao trabalho após férias.

É usual, pelo menos tem sido em mim, estar meio entorpecido.

O que vejo de novo é alguma melancolia depressiva. As férias foram inusitadamente rápidas. Senti os dias a passar a passo de flecha. Via o tempo, quando antes só me lembro de o sentir, como vento. 

Mas senti-me tão bem. Foram, de facto, reparadoras, anti-stress. Talvez pelos locais visitados, talvez pela companhia, tão familiar, senti mínimos históricos de exigência. Consegui isolar o labor e só me lembrar dele agora, que lá voltei.

Mas há aqui uma tristeza com a qual não estou a saber lidar.

sexta-feira, agosto 07, 2020

Contabilidade possível

 Finalmente, as férias.


Independentemente da sua necessidade, do prazer que provocam, da ânsia que geram, as férias são, acima de tudo, uma grande mentira. De resto, das poucas mentiras que o ser humano admite e até roga por viver.

Não sei como são as férias de toda a gente, mas enquadrando-me eu numa faixa económico-social parecida à da classe média e admitindo que é geral, tenho longas horas de exposição reptilar ao sol, refeições com nomes compostos, esquecimento parcial (já lá vamos) do conceito de ordem pública e bons costumes ou mero direito subjectivo, dolce fare niente e, desde há uns anos a esta parte, vigiar com os olhos que tenho e que não tenho uma criança que, hellas, arranjará sempre situações capazes de vingar em romances.

E, então, onde está a mentira?

Meus caros, a vida não é isto. E, meus caros, nem as férias (as minhas, pelo menos) são isto.

Quanto à vida, não conheço os gebos filhos papá todos do mundo, mas até esses, às vezes, hão de contribuir para o PIB. A vida é, acima de tudo, sofrimento. Onde está sol, boa comida, paz e sossego não costuma haver sofrimento. A vida é sacrifício. Nunca vi disso numa praia, ainda que tenha ouvido a respeito de coisas com galinhas à noite e tal. A vida é um processo nada dialéctico, sem sentido ou propósito. Ora, onde há um objectivo de ganhar cor, descansar e passar tempo com a cria, não se pode falar na vida que conhecemos.

No que às férias concerne, uma vez mais digo que não conheço as férias de toda a gente, mas as minhas são passadas, mais vezes do que queria admitir, ao telefone. Curiosamente, todas as chamadas reúnem duas características: 1) começam sempre com "Então, Doutor, já está de férias?" e 2) servem para RIGOROSAMENTE NADA. Vou ser mais explícito: a minha maneira de trabalhar é a seguinte: tenho uma novidade e vou logo contá-la ao cliente. O que quer isto dizer? Que se não ligo...não há novidades. Ora, qual é a segunda pergunta que surge? "Sabe alguma coisa do meu processo?". Não, não sei.

Num verão, uma senhora ligou-me, estando eu em plena praia, a dizer que ia ser despejada. Disse que a Igreja dela ia pagar os meus honorários. Ligou-me umas seis vezes. Enviou mails. Nunca a vi.

Outra vez, ligou-me um fulano, cujo caso estava há muuuuuuiiiiiittoooo resolvido, mas queria saber coisas.... Nunca mais ligou. Deve estar para breve.

E é isto, sempre num mundo, sem sair de outro. A tentar descansar, sem o fazer completamente. A escrever textos com tópicos batidos, mas sem categoria para mais.

sexta-feira, julho 17, 2020

Monumento ao amigo desaparecido

Estava a ouvir a Common People no Spotify. Adoro.
Adiante.
O Spotify tem alguns aspectos que desprezo. Um deles é, estando reunidas algumas condições, escolhe músicas aleatórias, através do algoritmo das nossas preferências.
Quando a "escolha" começou a tocar, fui transportado para dois momentos, um deles com, pelo menos, uma década em cima.
O primeiro e mais velho teve lugar no Nova Tertúlia, ao içar uma caneca, numa noite de especial boa disposição.
O segundo foi passado na primeira casa que arrendei (arrendámos). Queríamos imitar o gesto do primeiro momento e procurávamos a banda sonora.
A tal que o Spotify "escolheu".
Brimful of asha.

O Sérgio Godinho lembra a frase batida. Eu tenho uma outra, igualmente batida, e inferior à dele: a vida acontece. E se, na maioria das vezes, isso é bom, aqui não foi. Como um soldado em campanha, perdeu-se um comparsa.

É errado só por vezes me lembrar dele. Talvez pelo lapso temporal o lamento seja mais efectivo.

Fiz o que deve fazer qualquer cidadão de bem: enviei-lhe mensagem a dizer que é ridícula a distância. Mandei-lhe um abraço.

Nada nunca será o que já foi. São os paliativos a que temos acesso.

quinta-feira, julho 16, 2020

É

Numa Quinta-Feira menos movimentada, tocam à porta. Estava marcada uma reunião para dali a quinze minutos. Antecipou-se.

Chegou.

Sentou-se.

E perguntou: Como é que eu lavo dinheiro?

terça-feira, julho 14, 2020

Maneiras, maneirismos e panegíricos

O calor. Sempre ele.

Ao contrário do que pensaram centenas de Russos (e se calhar bem, sei lá), não é o tempo frio o mais capaz de providenciar por bons raciocínios. O calor de ananases que o pós-pandemia está a trazer-nos tem-me feito pensar. Em coisas. Hoje, uma nova. Partilho. Como se houvesse interesse.

A vida ensina-nos, sobretudo através do erro, a tratar com terceiros. Como ser educado (ter maneiras). O conceito de "ser educado" é muito lato e até deve estar bem documentado. Ora, desse universo de latitude, ocorreu-me hoje como não ser "excessivo".

Ao ouvir a música Delilah, interpretada por Tom Jones, ocorreu-me que, ao conhecer-se um Dalila, a primeira coisa que devemos evitar é perguntar: "Dalila? Como a música do Tom Jones?"

Para os três leitores que aqui passam, isto pode ser evidente. Para mim não é. Ou não era.

A pergunta formulada é ridícula. É evidente que a senhora em causa (imaginei a Dalila Carmo, atriz, única Dalila que vi. A do Sansão só ouvi falar) deveria responder à letra. "Não, Dalila como a música Chupa Teresa do Quim Barreiros".

E com isto dei mais um exemplo: Não se pergunta a uma Teresa se é Teresa como a da música do Quim Barreiros.

Conclusão: canções com nome de gente existem "ao pontapé". Os visados conhecem-nas. Provavelmente estão fartos dela.

Não deixa de ser injusto para aqueles que, como eu, têm um nome pouco musical. Mas a educação é muito. É, mesmo, tudo.

quinta-feira, maio 14, 2020

Jornadas penitenciais a propósito da pandemia: uma delas vertida aqui

A pandemia vetou-me ao isolamento, ou melhor, ao confinamento.

Distantes do mundo, inevitavelmente, colocamos em causa ou confirmamos uma série de realidades que, ocupados devidamente, pouca atenção nos mereceriam.

As redes sociais têm-me proporcionado reflexões com conclusões tristes. Penitencio-me, portanto, por só agora perceber o que vos vou transmitir.

Antes de dizer algo mais, um ponto: não, não sou a favor do seu fim, maior regulação ou imposição de medidas. Está bom como está.

Isto porque as redes sociais são um produto humano, para os humanos e alimentadas pelos humanos.

Em tendo oportunidade, e esta é a primeira conclusão, a maioria dos mamíferos pensantes é um misto de Nuno Rogeiro, Freitas Lobo, Jorge Miranda e um utente da casa de saúde do Telhal.

Ou seja, num comentário é capaz de sintetizar o seguinte, com esta fórmula: "Esta malta (num claro apelo internacionalista, i.e, Nuno Rogeiro) andava a jogar à bola em latas de Canada Dry (Freitas Lobo) e agora querem subsídios de grátis (Jorge Miranda menos a sofisticação linguística)! Anda aqui um gajo a trabalhar que nem um camelo (montador de cozinhas/trolha/oficial de justiça) para virem estes gajos e roubarem-nos a mulheres. Cadeia com eles, pena de morte já! (Utente da casa de saúde do telhal)".

A segunda conclusão é que tudo piora conforme a rede escolhida, da mais para a menos mainstream. No Instagram está tudo bem. O mundo é bonito ali. Vinho, sol, boas formas.  No Facebook, temos a primeira amostragem da síntese supra exposta. Ainda dentro do Facebook, há um caminho descendente: os grupos. Os grupos concatenam gente que vive em caves e vê o sol quando está a chover. As forquilhas estão em promoção e todos têm piras em casa. O twitter é um inferno. Acumulam-se as contas falsas, os extremismos, as ameaças, as calúnias. É mau demais.

E isto são só três das redes existentes.

Passei a consumir mais daquele mundo virtual e sinto-me a mudar. Não quero deixar de conhecer as ideias de quem pensa coisas diferentes das minhas, mas há limites ultrapassados todos os segundos.

A pergunta é: é fraquejar se bloquear?



quinta-feira, maio 07, 2020

Da liquidação audiovisual do grande confinamento

Como referido há uns posts abaixo, estou em casa desde dia 14 de Março, tendo saído, contas actualizadas, cerca de 10 vezes, para três efeitos: trabalho, despejo de resíduos e abastecimento.

Ao contrário do que foi por mim esperado, não tive muito com o que ocupar o tempo, uma vez que sou Pai de um Vasco bem activo e que pede atenção.

Não obstante, consegui (nestes quase dois meses) visualizar duas peças antigas que faltavam ao meu CV audiovisual.

A primeira é o filme Era uma vez na América. Será escusado tecer grandes comentários. Praticamente toda a gente já teve oportunidade de se "degladiar" com a obra maior de Sérgio Leone. É absolutamente excelente. Tem o que, até agora, não vi noutros filmes de idêntico cartel: as personagens têm, todas elas, péssimo carácter. Não há moral, hipótese de redenção, nada: ali, ninguém presta. E, nem sendo essa a sua mais apelativa caracteristica, mesmo assim, é soberbo.

A segunda é a série Twin Peaks. Consegui, finalmente, assistir à série original, de 1990. Estou, agora, a ver a temporada mais recente, a qual apresenta um registo de ritmo, música e até narrativo, algo diferente, mas igualmente ímpar.

Estou, ainda, na recta final de dois livros: The man in the high castle e Dr. Sono. Não é Eça, mas a qualidade está lá. Conto terminá-los esta semana.

O triste de ser culturalmente diminuído é este: o que se perde.