sexta-feira, fevereiro 17, 2017

Catarina Eufémia

Não me esqueci.

Naquele dia, era sagrado. Um almoço "como deve ser", com "o único cheiro" de que gostavas: comida bem feita.

Mas não era só.

No final da refeição, o bolo em forma de coração.

Não me esqueci. Custa é lembrar-me.

quinta-feira, fevereiro 02, 2017

O interlocutor, ou como a vida é bonita

Há coisa de duas semanas, fui exercer o patrocínio forense para Lisboa. Tratava-se de um processo-crime, estando em causa factos enquadráveis nos tipos de condução sem habilitação e falsificação de documento. Como tantas vezes acontece, isto deu-se no âmbito do apoio judiciário.

Hoje teve lugar a continuação. Este que vos escreve habita na margem sul do Tejo. Sendo a audiência às 9.30h, teve que levantar-se às 6.30h. Até que chegou ao tribunal. É feita a chamada e aparece uma Colega.

"O Arguido é meu cliente. Contactou-me e vai passar procuração neste processo". O Arguido, que vinha do EPL, confirmou. A Colega pede desculpa, uma vez que tinha sido contactada ontem para o efeito.

"Muito obrigada, sotore, até à próxima." Juiza educada.

Desde então, fui duas vezes ao tribunal de Almada, por motivos diversos, tive uma reunião por Lisboa e a vida foi fluindo, como não podia deixar de ser.

Cheguei ao escritório e abro o Facebook. É uma coisa que faço. Mantém-me a par da actualidade.

O Facebook tem muitas coisas, mas a principal e que o distingue de todas as realidades próximas é algo peculiar: "indignação".

É um mar de indignação. "Querem eutanasia? Porcos!". "Não querem eutanasia? Porcos!".

A indignação de hoje é, de longe, a minha favorita: críticos de cinema do Público.

Que fizeram os "mininos"? Deram duas estrelas ao filme "Elementos Secretos".

Eis alguns comentários:

"Epá, mas vocês gostam de algum filme?!?!?"

"Dá 2 estrelas a este... mas 5 estrelas ao CAVALO DE TURIM, que é literalmente 2 horas a ver um casal idoso a tratar da sua horta e a descascar batatas...Por amor de deus..."

"ahaha o público acha que não existe mais cinema depois do "e tudo o vento levou""

Mais uma vez devo reflectir sobre a importância da crítica. Há dias, um amigo meu dizia-me que se podia perfeitamente comparar Bach com Quim Barreiros, concluindo que Quim Barreiros era, à falta de melhor expressão, azeiteiro, e pior, inferior.

Se tentarmos transpor o exercício para o cinema, estes comentários perdem toda a razão de ser. Ao fim e ao cabo, os críticos do Público estão certos na análise. O Cavalo de Turim (que tenho lá em casa para ver, juntamente com 3 filmes do mesmo cineasta) é, reconhecidamente, uma obra prima que seria o Bach do cinema. Ao pé dele, os Elementos Secretos é um Quim desta vida.

Só que não.

Por duas razões. 

A primeira de ordem sociológica: estes filmes de que vos falei (Cavalo e Elementos) são totalmente diferentes. Não podem concorrer entre si um Musical, uma Comédia, um Drama ou um filme do Van Damme. E porquê? Pela mesma razão que não podemos preferir o lombo à salada. São coisas diferentes que, em alguns casos, se podem complementar. Mas num certame gastronómico, o bolo de arroz concorre em categorias diferentes do Bucho à moda de Ceia.

A segunda é de ordem arbitrária: povo, cada um gosta do que gosta. É bom gostar de tudo, até do mau. Mas é mau só gostar do mau. 

Isto para concluir que gostava de ter acabado o julgamento do Arguido e para dizer que os críticos do Público dizem o que lhes apetece, que é para isso que lhes pagam.

Quem pensou que eu ia fazer uma ponte sobre ambos os eventos ou tópicos enganou-se. 

Recordo que eram 6.30 da manhã quando me levantei.

Obrigado, boa tarde. 

terça-feira, janeiro 24, 2017

Uma ilisão de presunção

Pertenço ao mundo jurídico e, no mundo jurídico, entre tantas outras realidades, existem presunções.
Também existe gente presunçosa, presuntos e presumíveis.

Centremo-nos: presunções são consequências deduzidas de um fato conhecido, não destinado a funcionar como prova, para chegar a um fato desconhecido.

Eis o facto conhecido (até agora, pelo menos) por mim: juiz nenhum desta terra abençoada por deus e pouco tropical ouve alegações de um causídico. Se ouve, não as leva em conta. Se as leva em conta, não leva.
Hoje fui defender um fulano que nunca vi. Que fez o cavalheiro? Pegou no passe social do amigo e foi andar de autocarro, usando o dito passe para possibilitar o seu trajecto.

Segundo uma lei bonita, a que se convencionou chamar Código Penal, parece que é crime, podendo dar cadeia.

Como nunca o vi, não sei qual a versão dele, se tem testemunhas, sequer. Tentou enviar-se missivas para o domicílio e nada. Se isto fosse uma série, era o Macgyver. Eu tenho o canivete suíço e uma linha de botão descosido e o M.P o arsenal do Pentágono.

Não desisto de resistir. O M.P, depois de ouvir um mui honrado agente da PSP, pede justiça. Assim. Nem "ai" nem "ui". Se fosse um advogado oficioso, era para queimar na fogueira marinho-pintista.

Calha estar um advogado oficioso na sala. Este que vos escreve. 

Apresenta os cumprimentos a todos. Debita uma teoria jurídica baseada no conceito material de crime, que vai desaguar numa falta de consciência da ilicitude que terá, como efeitos práticos, uma absolvição. Também disse qualquer coisa abonatória caso se entendesse o contrário.

Durante o meu breve excurso vi algo que jamais pensei existir: um sorriso de Mona Lisa e um olhar sobre uns óculos...da juíza.

A Procuradora olhava como se eu falasse de direito marciano. Também um misto entre alguém que acaba de descobrir que comeu fezes caninas e ouviu a Maria Leal a primeira vez. Havia nojo.

Assim que termino, o sorriso mantém-se e o olhar idem.

"Oh sótor, não concordo nada consigo!"

Por isso, meus amigos, não só uma coisa aconteceu hoje, mas sim duas.

Uma juiza "discutiu" o mérito das alegações com o causídico e...

Afinal estava a ouvir!

quinta-feira, janeiro 19, 2017

Hoje, é só isto.

quinta-feira, janeiro 05, 2017

Chá de cidreira

Circula, por aí, um "vídeo" onde se mostra um jovem a ser agredido por um bando de outros, possivelmente da mesma idade.
É perto de onde vivo.
Nada do que ali está tem apelo ou agravo. Mas o que me penaliza mais é querer que aconteça aos agressores aquilo que fizeram ao agredido. 
Não consegui, logo, calar o "bicho" que habita em mim.
 
Só vi ali o meu filho. 

quinta-feira, dezembro 29, 2016

A página da necrologia

Já não me recordo se foi no Quiosque do Sr. Vítor, ou mesmo na casa dos meus pais. Estava a ler o jornal em conjunto com o meu avô. Devia ter não mais que 10 anos. Era um jornal popular, um CM ou 24 Horas. Como é tradição nessas publicações, chegou-se à página onde se anunciam os óbitos. Fotografias de velhos, não-tão velhos, novos.
Perguntou-me o meu avô se sabia o que tinha acontecido àquelas almas. Respondi que não sabia.
"Deixaram de fumar".

Como é tão natural nesta altura do ano, quem escreve pedaços de sarjeta parecidos com este propõe-se a elaborar um balanço do ano que finda.

Não o vou fazer. Primeiro porque não sei o que é um balanço. Fosse Contabilista Certificado e tudo era mais fácil. Até fazer os trocos do tabaco.

Ao invés de lamentar o facto de grandes nomes "deixarem de fumar", não quero deixar de me lembrar do que foi o fim do ano de 2015. Cerca de 5º graus, um 5.º Andar. Fogo de Artífico.

"Vamos ser pais?"

E fomos.

E somos.


Entrem bem o ano.

Sou a prova viva de que, calhando, as resoluções de ano novo verificam-se.

terça-feira, dezembro 13, 2016

Para não variar, um lamento

Poucos dias depois de me lançar naquilo que o capitalismo ainda proporciona, fiz o que faria qualquer amador: pesquisei na gigante net por alguém que me fizesse um site ao nível do orçamento que tinha, equivalente a uma prestação mensal de um carro de gama baixa.

Veja-se bem: encontrei. Fizeram, cobraram e foram à vida deles, se é que isso se pode dizer.

Advertiram: "Daqui a um ano, tem de renovar o servidor".

Assim fiz: um ano depois, ia elaborar um e-mail para os fulanos e, eis senão quando, descubro que já não existem.

Ou seja, hoje já  não tenho site e não encontro um negócio semelhante em lado nenhum.

Acaba por ser chato.