segunda-feira, dezembro 05, 2016

Notas Profissionais

Desleixei-me.

Não é porque esteja gordo, que estou. Não é porque só me lembre do que precise, embora o faça. Não é porque não tenha actividade física relevante. Não tenho.

Lembro-me de, ainda na Faculdade, um caríssimo Amigo iniciar, convidando-me para tal, um blogue a favor do SIM no referendo relativo à IVG. Naquela altura, despertam-se as noções políticas, percebe-se o lado da barricada, sem prejuízo de um qualquer progresso, ou reversão, se tudo correr mal. Ideais como Democracia, Liberdade, Dignidade Humana ou Igualdade estavam no vocabulário de todo e qualquer dia. Não havia perda de pitada da vida ocorrida no poder. Chegamos a conhecer quase todos os deputados à A.R.

Hoje, em vésperas de uma eleição importante, percebo que não tomei parte em rigorosamente nada daquilo que lhe diz respeito.

Clarificando, elaboro sobre o meu absentismo no dossier "Eleições para a O.A".

Votei, claro que votei. Votei em branco.

Porque pensei "Eles são todos iguais, querem é visibilidade".

Porque não vi um debate.

Porque não abri um mail de candidaturas.

Nada. Nadinha.

Mal ou bem, um bastonário tem peso. Muito ou pouco, influência a vida da Ordem.

Estou descrente, é o que estou. Deixei de acreditar.

Já vai para anos em que deixei de acreditar em intervenientes públicos. O último em quem pensei que poderia mudar qualquer coisa para melhor chegou a estar detido.

Em suma, nhé.


terça-feira, novembro 29, 2016

Contributo para um estudo sobre o conceito de normalidade: de REO Speewagon a Bon Jovi

Não sou sociólogo, pelo que também não sei se cabe à sociologia explicar o que são comportamentos normais. Ser normal. Se calhar, cabe à psicologia.

Lobo Antunes escreveu "A morte de Carlos Gardel".

Carlos Gardel era um portentoso compositor de Tangos. Isto, para quem não saiba, não esclarece se era Bartender ou Músico.

Vamos partir do princípio que era Bartender. O Tango é uma bebida composta por cerveja e groselha. Num como, vertem-se cerca de dois dedos de groselha. Depois, mistura-se a cerveja.

Dá um ar "amaricado", mas serve perfeitamente para acompanhar uma interpretação de "Por una cabeza". É ver o "Perfume de Mulher".

Dito isto, nesta composição que se assemelha a algo escrito por John Doe, do Seven (What's in the box?), quero concluir com uma questão, o que é, igualmente, normal.

Como apreender o grau máximo da lamechice? A lamechice é-me cara, uma vez que a exerço. Com veemência.

Lembrei-me de REO Speedwagon e Bon Jovi. Lembrei-me de I Can't Fight this Feeling e Always.


quarta-feira, novembro 16, 2016

Da Representação Voluntária em Direito Civil

Algures nos anos 90, Pedro Albuquerque, filho de Ruy, decide doutorar-se em Direito e inicia a escrita da sua tese, cujo título supra reproduzo. Trata-se de uma obra fascinante, bem documentada, precisa, capaz de resolver os inúmeros problemas que a disciplina da representação traz. Pessoalmente, não seria capaz de ter concluído a minha licenciatura sem me ter cruzado com tão estimulante escrito.

Com o que acabo de escrever, duas coisas podem acontecer:

a) os motores de pesquisa passaram a incluir este texto quando alguém pesquisar por "Representação Voluntária";

b) Quem me ler, desistir.

As fotografias têm a faculdade de se inserir na previsão da norma constante de um qualquer artigo que fala em Documentos.

Estive a ver umas poucas em que consto.

Passam-se anos, quilos, pessoas. Já quase nada do que ali vi existe, no sentido que gosto de dar à existência. Foram-se as pessoas e os anos. Os quilos, como um conhecido da primária que engraçou connosco e de quando em vez quer ir lá jantar a casa, vieram.

Tudo bem, se gosto de chanfana, pago o preço. Se aprecio coisas que não saem de mim sem ginásio, ora pois.

O que mais me fascina é a roupa. A roupa, juntamente com a qualidade da imagem, é o principal GPS para localizar o evento e momento no tempo.

E nem aí. Nem. Aí.

Lembro-me de ficar melhor em roupa menos cara do que agora. Há uma foto específica, tirada numa noite que me recordo perfeitamente, que é fatal. Uma camisa que já não existe, umas calças que me servem, não em duas, mas uma perna, e um blusão, que resistiu.

Pedro de Albuquerque, que percebe tanto de representação, nunca me sossegou e escreveu sobre a representação nas fotografias. O Direito pouco diz sobre a passagem dos anos, quilos e pessoas.

Hoje mesmo, precisamente hoje, uma fotografia passou a fazer parte do passado.

Até há umas largas horas, era só uma fotografia com meses. E poucos. Agora, é uma fotografia tão válida como a de uma criança, que agora tira o Doutoramento.

Doutoramento que Pedro de Albuquerque começou a concluir nos anos 90.

quarta-feira, novembro 09, 2016

E agora, uma análise rigorosa sobre as eleições americanas e a ascenção de Trump

A perspectiva democrática anda pelas ruas da amargura.

a) Enquanto advogado, vou votar em branco para a eleição de bastonário.

b) Enquanto cidadão de Almada, creio ir votar em branco para Presidente de Câmara.

c) Se fosse sócio do Sporting, daqueles que até pode votar, votava em branco.



Foi o branco que decidiu a eleição de Trump.


quinta-feira, outubro 20, 2016

Sim

Agora, também eu sei o que é apaixonar-me por alguém que tem o mesmo sexo que eu.

E apaixonei-me.

quinta-feira, setembro 01, 2016

O inexplicável a encontrar o banal

O exorcismo é qualquer coisa parecida com uma expulsão. É preciso acreditar que há espíritos ou outras entidades não materiais e também não terrenas.Com o exorcismo pretende-se expulsar as tais entidades de um corpo. Essas entidades controlam esse corpo e farão dele o que bem entenderem. Na crença cristã e baseado em tantos filmes e alguns livros que li sobre a matéria, o exorcismo visa expulsar de um corpo um espírito do mal.

Realidade próxima desta é a chamada dor do membro fantasma. Sinteticamente, essa dor dá-se quando alguém vê amputado um membro, por alguma maleita, e continua a sentir dor proveniente daquele membro. É como se me cortassem um braço por estar infectado e eu continuasse a sentir dali dor, ainda que o braço já tenha servido de adubo.

De maneiras que ontem perdi o meu animal de estimação, o Lenine.

Já perdi outros, no passado. Senti a dor, mas, estranhamente, nada foi como agora. Estive a pensar nas razões.

Vi aquela criatura chegar à minha casa com poucos dias, nem um mês, segundo recordo. Media e pesava pouco. Explorava, cheirava. Usucapiu aqueles metros quadrados a que chamo casa num tempo record, imprevisto pelo melhor dos Códigos Civis. Levei-o ao médico amiúde. Cumpri escrupulosamente o plano de vacinação e de desparasitação. Comprei a melhor ração. Quando não pude tratar dele, deixei-o ao cuidado daqueles em quem confiava, ora os meus pais, ora os dela, ora os melhores amigos.

Ontem disseram-me que nasceu com os rins afectados. Que a maleita que sobre ele se abateu era inevitável. Que podia esconder qualquer sintoma até que os rins estivessem apenas a 25% da sua capacidade. Foi o que fez.

Naquele dia em que o vi deitar-se debaixo da minha cama, para só depois se ir deitar debaixo do meu sofá, revi cenas antigas. Fiz com ele o que faria ao meu filho: corri com ele para as urgências para tentar perceber como e porquê se estava a dar o declínio.

Ao final do dia, quando voltámos para casa, já sem ele, a casa não era a mesma. Faltava o ser que vinha a porta cumprimentar quem visitava. Faltava o ser que acompanhava religiosamente quem ia à casa de banho. Faltava um terceiro elemento na cama, tomando o que queria.

Hoje, sinto uma insuportável dor do membro fantasma. Amputada que me foi aquela parte da minha vida (da nossa), morro um pouco por dentro. Não há como parar.

O Lenine foi exorcizado da sua casa. Sem que o quisesse, sem que quiséssemos. Perdemos um pilar, ou então um ovo, se pensarmos em nós como um projecto de doce.

E aqui chego. A sofrer como uma criança pequena, com esporádicos episódios de desespero, a lamentar que algo banal como a morte, que tantas vezes se revelou e demonstrou perante mim, seja tão difícil de suportar.

Diria que: é a vida.

Mas é a morte.

quarta-feira, agosto 17, 2016

Estudos sobre o património

22.

Quando era viva, a minha avó passava as tardes com mais sol ali sentada. Não propriamente ali, mas na casa dela, numa espécie de escano de madeira. A olhar ou a ler (especialmente qualquer coisa religiosa).

Já eu, quando era mais novo e era por ali que dormia a família ou parte dela, descia aquelas escadas de pedra e andava por ali, apesar do cheiro mais intenso. Ninguém queira imaginar aquele espaço antes de ser mexido.

Até que foi. Até que, religiosamente (no bom sentido de "religiosamente") todos uns anos existe um jantar (que será sempre em honra dela e da família). Este ano repetiu-se.

Eramos 22 à mesa. Entre os que estavam, não estavam e, essencialmente, os que podiam estar, quase me lembrei do Jorge Palma quando versava sobre os "serões habituais e as conversas sempre iguais".

Lembrei-me agora, mas então não.

Só senti que estávamos todos mais velhos. Tenho ideia que só a minha mãe não envelhece.

Não lamento o envelhecimento. Tenho pena que o veja. Que quase o apalpe. Louvo, porém, a renovação.

Mas pena tenho. Até porque há tanto para resolver. Tanta conversa que está em falta. Tanto, tanto.