terça-feira, maio 07, 2019
segunda-feira, janeiro 28, 2019
A falta de conhecimento, escolaridade, em suma, de vida
Neste primeiro post do ano, carrego comigo algumas dúvidas. Umas não consigo resolver; para outras tenho uma tese.
Lembro-me de ser mais novo. Lembro-me da chegada lá a casa de um PC Commodore 386 que permitia, basicamente, jogar elifoot, solitaire e editar texto. Atenção: que avanço! É que, antes, os meus pais, Professores de profissão, usavam a boa e velha máquina de escrever para elaborar os seus testes e trabalhos.
Por essa altura, não havia correntes de ódio virtuais, fosse no Facebook ou noutra rede social. Não existiam redes sociais. A expressão "conversa de café" era uma realidade. Pela minha parte o "café" das conversas era "O Abrigo", conhecido como o Sr. Alberto, dono do estabelecimento. Nesse local, o mundo. O empregado das obras sabichão, a senhora de bem que tomava o seu chá, a classe média do "café para acordar". O Correio da Manhã entretinha-se com fait divers apenas relevante para uma parte mais anciã da sociedade, talvez mais interessada. Pontificava o "Crime", "O Diabo" e o "Tal e Qual" na imprensa sensacionalista, jornais que serviam mais de punch line que outra coisa.
A conversa podia ser uma indignação, um apontamento que tinha deixado alguém de bem como o mundo, qualquer coisa. A conversa nunca era sobre um vídeo de bullying policial, sobre um qualquer advogado a mandar algum assessor parlamentar "para a terra dele", ou sobre uma pira viking onde teria de arder algum ex-ministro recentemente instalado na hotelaria alentejana.
Tempos mais simples, mas também menos dados ao ódio. Nada escalava. Na melhor das hipóteses, contribuía para o aperfeiçoamento pessoal, através de boas e sustentadas discussões. Na pior, tudo e todos não passavam de "bandidos que só queria mamar" e a coisa ficava por ali.
A minha primeira dúvida é, então, a seguinte: de onde vem todo este ódio? Tudo, hoje em dia, é um confronto: polícia vs comunidades "guettizadas"; Governo vs Professores; Função pública vs trabalhadores do privado; Enfermeiros vs Doentes.
Para isto, tenho uma tese, que se resume ao título deste post.
O grande problema das sociedades contemporâneas e, no limite, todo e qualquer utilizador de redes sociais, sejam elas quais forem, é a falta de conhecimento, escolaridade e vida, no sentido de vivência. Muitas vezes, falta disto tudo, na maior parte das vezes, falta conhecimento.
Tudo se resume ao imediatismo: "vi alguém a ser agredido, há que linchar o agressor"; "fui ao médico e havia greve, Deus proíba que me falhem estes chulos."
Não há uma pergunta, uma intenção.
Só há vontade. De agredir. Se punir. Sem julgamento ou conhecimento de causa.
Para além do ar dos dias, cada um tem que tratar das suas feridas sentimentais, nos versos de Jorge Palma.
As minhas dúvidas pessoais são de outra ordem e não há tese que lhes responda.
Num julgamento que fiz com outro Colega, tive a oportunidade de lhe referir que a Juíza tinha exercido funções no Seixal. Sabia disto porque tinha estado em sessões com ela. O tal Colega nunca a tinha visto mais gorda.
Chegando a fase das alegações, a páginas tantas, o Colega, e bem, diz qualquer coisa como "veio a Meritíssima Juíza do Seixal para chegar a Lisboa e ver este triste espetáculo". Como por magia, abriu-se um sorriso na Decisora que se manteve até final.
No final, a Juíza aproxima-se desse Colega e diz, sempre com o sorriso: "Doutor, estivemos juntos no seixal? Eu gostava de lá estar, só que moro em Lisboa e dá mais jeito". A conversa terá durado mais 10 segundos, preenchida por nano-mini-micro graçolas de ocasião.
Eu só posso aplaudir o Colega. Nunca na vida me lembraria de alegar a anterior morada profissional de um magistrado para granjear fosse o que fosse. Mas ele lembrou-se. Eu não.
Então, porquê?
Lembro-me de ser mais novo. Lembro-me da chegada lá a casa de um PC Commodore 386 que permitia, basicamente, jogar elifoot, solitaire e editar texto. Atenção: que avanço! É que, antes, os meus pais, Professores de profissão, usavam a boa e velha máquina de escrever para elaborar os seus testes e trabalhos.
Por essa altura, não havia correntes de ódio virtuais, fosse no Facebook ou noutra rede social. Não existiam redes sociais. A expressão "conversa de café" era uma realidade. Pela minha parte o "café" das conversas era "O Abrigo", conhecido como o Sr. Alberto, dono do estabelecimento. Nesse local, o mundo. O empregado das obras sabichão, a senhora de bem que tomava o seu chá, a classe média do "café para acordar". O Correio da Manhã entretinha-se com fait divers apenas relevante para uma parte mais anciã da sociedade, talvez mais interessada. Pontificava o "Crime", "O Diabo" e o "Tal e Qual" na imprensa sensacionalista, jornais que serviam mais de punch line que outra coisa.
A conversa podia ser uma indignação, um apontamento que tinha deixado alguém de bem como o mundo, qualquer coisa. A conversa nunca era sobre um vídeo de bullying policial, sobre um qualquer advogado a mandar algum assessor parlamentar "para a terra dele", ou sobre uma pira viking onde teria de arder algum ex-ministro recentemente instalado na hotelaria alentejana.
Tempos mais simples, mas também menos dados ao ódio. Nada escalava. Na melhor das hipóteses, contribuía para o aperfeiçoamento pessoal, através de boas e sustentadas discussões. Na pior, tudo e todos não passavam de "bandidos que só queria mamar" e a coisa ficava por ali.
A minha primeira dúvida é, então, a seguinte: de onde vem todo este ódio? Tudo, hoje em dia, é um confronto: polícia vs comunidades "guettizadas"; Governo vs Professores; Função pública vs trabalhadores do privado; Enfermeiros vs Doentes.
Para isto, tenho uma tese, que se resume ao título deste post.
O grande problema das sociedades contemporâneas e, no limite, todo e qualquer utilizador de redes sociais, sejam elas quais forem, é a falta de conhecimento, escolaridade e vida, no sentido de vivência. Muitas vezes, falta disto tudo, na maior parte das vezes, falta conhecimento.
Tudo se resume ao imediatismo: "vi alguém a ser agredido, há que linchar o agressor"; "fui ao médico e havia greve, Deus proíba que me falhem estes chulos."
Não há uma pergunta, uma intenção.
Só há vontade. De agredir. Se punir. Sem julgamento ou conhecimento de causa.
Para além do ar dos dias, cada um tem que tratar das suas feridas sentimentais, nos versos de Jorge Palma.
As minhas dúvidas pessoais são de outra ordem e não há tese que lhes responda.
Num julgamento que fiz com outro Colega, tive a oportunidade de lhe referir que a Juíza tinha exercido funções no Seixal. Sabia disto porque tinha estado em sessões com ela. O tal Colega nunca a tinha visto mais gorda.
Chegando a fase das alegações, a páginas tantas, o Colega, e bem, diz qualquer coisa como "veio a Meritíssima Juíza do Seixal para chegar a Lisboa e ver este triste espetáculo". Como por magia, abriu-se um sorriso na Decisora que se manteve até final.
No final, a Juíza aproxima-se desse Colega e diz, sempre com o sorriso: "Doutor, estivemos juntos no seixal? Eu gostava de lá estar, só que moro em Lisboa e dá mais jeito". A conversa terá durado mais 10 segundos, preenchida por nano-mini-micro graçolas de ocasião.
Eu só posso aplaudir o Colega. Nunca na vida me lembraria de alegar a anterior morada profissional de um magistrado para granjear fosse o que fosse. Mas ele lembrou-se. Eu não.
Então, porquê?
terça-feira, dezembro 18, 2018
quinta-feira, dezembro 13, 2018
Irmã: Página de pensamento avulso
Aproximando-se dezembro, inevitável se torna a deslocação às lojas, a fim de acautelar a realização da troca de prendas.
A irmã tinha ido, para tal efeito, ali perto e convidou-o para almoçar. Aceitou.
Ela deu-lhe boleia, ele escolheu o sítio. Tripla vantagem: boleia, escolha e almocinho no bucho.
O tal almoço foi como todos os outros: brincadeira, conversa, estado da vida.
Chegado a casa, à noite, como é costume, fez o filme do dia. À entrada para o restaurante, tinha-lhe dito: "nem sei bem porquê, mas este ano sinto pouco espírito natalício".
Ela também. Foi o que lhe respondeu.
O "porquê" seguia-se.
Uma mesa que chegou a ter 12 pessoas passou e menos de metade. A vida encarregou-se de fazer o que faz.
No topo, sentava-se um fenómeno. Um fenómeno que só sabia brincar, mandar a piada certa no momento certo. Ao lado dele, podia dizer-se que a fome se aliava à vontade de comer. Se um dizia "mata", o outro dizia "esfola". Estava ali a festa toda.
Noutras pontas, verdadeiras forças da natureza. Terminado o jantar, punham-se a lavar tachos e toda a loiça, isto depois de um dia de trabalho.
Fluía a conversa, em vez de doenças, falava-se da vida. Em vez dos mortos, celebrava-se a existência.
Nunca se havia lembrado de ter sido tão cliché, mas os clichés são clichés por alguma razão. Como os fenómenos de massas, aqueles que fazem o Despacito ser tantas vezes ouvido.
Agarra-se aos que restam. Merecem que não se chore, somente, pelos que partiram e esqueça os que cá estão.
É que percebeu as caras fechadas nesta quadra. Quem dela não gosta. Quem dela se quer esquecer.
Não que se queira trilhar esse caminho. Mas é que a consciencialização tem destas coisas.
Lidar.
É lidar.
A irmã tinha ido, para tal efeito, ali perto e convidou-o para almoçar. Aceitou.
Ela deu-lhe boleia, ele escolheu o sítio. Tripla vantagem: boleia, escolha e almocinho no bucho.
O tal almoço foi como todos os outros: brincadeira, conversa, estado da vida.
Chegado a casa, à noite, como é costume, fez o filme do dia. À entrada para o restaurante, tinha-lhe dito: "nem sei bem porquê, mas este ano sinto pouco espírito natalício".
Ela também. Foi o que lhe respondeu.
O "porquê" seguia-se.
Uma mesa que chegou a ter 12 pessoas passou e menos de metade. A vida encarregou-se de fazer o que faz.
No topo, sentava-se um fenómeno. Um fenómeno que só sabia brincar, mandar a piada certa no momento certo. Ao lado dele, podia dizer-se que a fome se aliava à vontade de comer. Se um dizia "mata", o outro dizia "esfola". Estava ali a festa toda.
Noutras pontas, verdadeiras forças da natureza. Terminado o jantar, punham-se a lavar tachos e toda a loiça, isto depois de um dia de trabalho.
Fluía a conversa, em vez de doenças, falava-se da vida. Em vez dos mortos, celebrava-se a existência.
Nunca se havia lembrado de ter sido tão cliché, mas os clichés são clichés por alguma razão. Como os fenómenos de massas, aqueles que fazem o Despacito ser tantas vezes ouvido.
Agarra-se aos que restam. Merecem que não se chore, somente, pelos que partiram e esqueça os que cá estão.
É que percebeu as caras fechadas nesta quadra. Quem dela não gosta. Quem dela se quer esquecer.
Não que se queira trilhar esse caminho. Mas é que a consciencialização tem destas coisas.
Lidar.
É lidar.
segunda-feira, novembro 12, 2018
quinta-feira, novembro 08, 2018
Ontem, pelas 23 horas
Já tinha visto aquela cena para cima de 4 vezes.
Sempre a vi como algo genial, bem filmado, bem interpretado, bem tudo.
Só ali via cinema.
Ontem, pelas 23 horas, não foi assim.
Doeu. Como a merda.
Não há nada mais comovente que a tristeza partilhável.
Sempre a vi como algo genial, bem filmado, bem interpretado, bem tudo.
Só ali via cinema.
Ontem, pelas 23 horas, não foi assim.
Doeu. Como a merda.
Não há nada mais comovente que a tristeza partilhável.
segunda-feira, outubro 29, 2018
segunda-feira, setembro 17, 2018
Ainda há bocado
Renton a explodir. Um personagem carismático, malogrado passado.
A cena abaixo é de um filme que passava, há pouco, na minha televisão.
Vi-a e senti afinidade, ainda que não total.
Nesta altura, mais do que nunca, sinto um destino que não tive. Estar numa taberna, a viver de biscates, bebendo bem, bem mais que bebendo. Jogando às cartas. Descurando a higiene pessoal. Ter amigos de ocasião. Ser "aquele", em vez de ter nome. Ser um desgraçado assumido, em vez de um potencial. Sobreviver.
Escolhe viver, diz o dito.
Que remédio.
A cena abaixo é de um filme que passava, há pouco, na minha televisão.
Vi-a e senti afinidade, ainda que não total.
Nesta altura, mais do que nunca, sinto um destino que não tive. Estar numa taberna, a viver de biscates, bebendo bem, bem mais que bebendo. Jogando às cartas. Descurando a higiene pessoal. Ter amigos de ocasião. Ser "aquele", em vez de ter nome. Ser um desgraçado assumido, em vez de um potencial. Sobreviver.
Escolhe viver, diz o dito.
Que remédio.
terça-feira, julho 17, 2018
Ocasionalmente
I would like to leave this city
This old town don't smell too pretty and
I can feel the warning signs running around my mind
And when I leave this island I'll book myself into a soul asylum
'Cause I can feel the warning signs running around my mind
So here I go, I'm still scratching around in the same old hole
My body feels young but my mind is very old
So what do you say?
You can't give me the dreams that are mine anyway
Half the world away, half the world away
Half the world away
I've been lost, I've been found but I don't feel down
segunda-feira, julho 16, 2018
Fio da navalha
Há uma frase deste tipo, cujos solos aprecio, bastante interessante sobre a vexata questio dos limites do humor: "Não há limites. A arte não tem limites".
Este pedaço que aqui deixo é um caminhar sobre o fio da navalha. Um exercício superior sobre como fazer piadas sobre temas quentes.
Este pedaço que aqui deixo é um caminhar sobre o fio da navalha. Um exercício superior sobre como fazer piadas sobre temas quentes.
quarta-feira, maio 30, 2018
Sono
Quantos posts não terão já sido publicados sob o mesmo título?
Adiante.
Acordei com uma ideia, fosse eu produtor de música e tivesse dinheiro ilimitado.
O projecto seria o seguinte: juntar Ana Bacalhau com Cláudia Pascoal.
O nome do projecto seria Bacalhau Pascoal. Título do álbum: Cancioneiro.
Seria uma óptima oportunidade para voltar aos grandes temas da música lusa ou lusófona.
Exemplos:
- O filho do recluso;
- Drogado;
- Celulite;
ou ainda Vira-vira.
Possível? Não.
Adiante.
Acordei com uma ideia, fosse eu produtor de música e tivesse dinheiro ilimitado.
O projecto seria o seguinte: juntar Ana Bacalhau com Cláudia Pascoal.
O nome do projecto seria Bacalhau Pascoal. Título do álbum: Cancioneiro.
Seria uma óptima oportunidade para voltar aos grandes temas da música lusa ou lusófona.
Exemplos:
- O filho do recluso;
- Drogado;
- Celulite;
ou ainda Vira-vira.
Possível? Não.
quinta-feira, maio 24, 2018
Pela primeira vez
Sucedeu ser advogado de um puto acusado de violência doméstica contra a namorada. Ex-namorada, no presente.
Os factos alegados contra o cavalheiro são os "costumeiros" nestes casos: nomes feitos, uns tabefes, complicados com eventual arremesso de armário e amassos nos braços.
O julgamento foi para a terceira sessão.
Eis que vem ter comigo a mãe da Ofendida. A mãe da pessoa que acusou o meu defendido.
"Podemos falar? Olhe, eu não quero que o miúdo vá preso, mas ele precisa de acompanhamento psicológico. Os pais não lhe dão apoio. Ponha-o a fazer trabalho comunitário, safe-o, mas ele que vá para um daqueles centros de vítimas de violência doméstica".
Contive-me. Não dei conversa. Eventualmente, uns "pois", seguidos de "sim, também sou pai" e rematado com "tenho que fazer o meu trabalho". Este último soa a desculpa. Desculpa que não devia.
Era a mãe da miúda "afectada".
Os factos alegados contra o cavalheiro são os "costumeiros" nestes casos: nomes feitos, uns tabefes, complicados com eventual arremesso de armário e amassos nos braços.
O julgamento foi para a terceira sessão.
Eis que vem ter comigo a mãe da Ofendida. A mãe da pessoa que acusou o meu defendido.
"Podemos falar? Olhe, eu não quero que o miúdo vá preso, mas ele precisa de acompanhamento psicológico. Os pais não lhe dão apoio. Ponha-o a fazer trabalho comunitário, safe-o, mas ele que vá para um daqueles centros de vítimas de violência doméstica".
Contive-me. Não dei conversa. Eventualmente, uns "pois", seguidos de "sim, também sou pai" e rematado com "tenho que fazer o meu trabalho". Este último soa a desculpa. Desculpa que não devia.
Era a mãe da miúda "afectada".
quarta-feira, maio 16, 2018
sexta-feira, abril 27, 2018
Funcionários Judiciais
O patrocínio forense é uma honra. Se não tivermos em conta o apoio judiciário (onde a nomeação para patrocínio do beneficiário é aleatória, não permitindo uma verdadeira escolha por parte de quem é representado), cada cliente escolheu-nos. Fomos nós e não outro. Fomos nós, apesar dos outros.
Dentro do patrocínio, obrigatório se torna lançar mão de todos os meios ao alcance para defender quem nos elegeu.
Um desses meios, a meu ver, é singelo, mas incontornável: consultar o processo original. Pedir a sua confiança, para, no escritório, o poder ler e pensar.
Requeri. Ligaram para o escritório referindo que havia sido deferida a consulta. Acto contínuo, lá me desloquei, ao Tribunal. Note-se: ligaram, da secção, para o meu escritório para que lá fosse buscar o processo.
Chegando lá, afinal não. "Doutor, estava a trabalhar no processo e ainda vai demorar, não pode cá passar à tarde". Acedi.
Complicada a minha vida, naquele dia, à tarde, não fui.
Voltei no dia seguinte.
E agora, discurso directo:
"Ai sotor, não veio e eu fiquei, por acaso, até mais tarde e até fui à Dra. Juiza que disse "só agora" e ela ficou com o processo. Além disso, depois meteu-se o requerimento do sotor, que o Dr. X veio responder. Já viu, não já? Pois. O sotor faz o seu papel, claro, mas o seu cliente portou-se mal. Muito mal."
Fica para memória futura. Para aquela ave comum, choldra e ainda era pouco.
Dentro do patrocínio, obrigatório se torna lançar mão de todos os meios ao alcance para defender quem nos elegeu.
Um desses meios, a meu ver, é singelo, mas incontornável: consultar o processo original. Pedir a sua confiança, para, no escritório, o poder ler e pensar.
Requeri. Ligaram para o escritório referindo que havia sido deferida a consulta. Acto contínuo, lá me desloquei, ao Tribunal. Note-se: ligaram, da secção, para o meu escritório para que lá fosse buscar o processo.
Chegando lá, afinal não. "Doutor, estava a trabalhar no processo e ainda vai demorar, não pode cá passar à tarde". Acedi.
Complicada a minha vida, naquele dia, à tarde, não fui.
Voltei no dia seguinte.
E agora, discurso directo:
"Ai sotor, não veio e eu fiquei, por acaso, até mais tarde e até fui à Dra. Juiza que disse "só agora" e ela ficou com o processo. Além disso, depois meteu-se o requerimento do sotor, que o Dr. X veio responder. Já viu, não já? Pois. O sotor faz o seu papel, claro, mas o seu cliente portou-se mal. Muito mal."
Fica para memória futura. Para aquela ave comum, choldra e ainda era pouco.
segunda-feira, abril 23, 2018
Mais que uma cena
Não sendo um grande filme (sequer bom), "Só Deus Perdoa" tem este pedacinho superior, de que me lembrei há momentos.
Não venho com a intenção de fazer leituras sobre o significado da luta no contexto do filme.
O que me fascina é algo rudimentar: um bonitão, cheio de saúde a levar uma tareia homérica de um caga tacos com aspecto de funcionário de um Hyper China.
Cinefilamente falando, é das melhores metáforas que vi sobre a vida.
Não venho com a intenção de fazer leituras sobre o significado da luta no contexto do filme.
O que me fascina é algo rudimentar: um bonitão, cheio de saúde a levar uma tareia homérica de um caga tacos com aspecto de funcionário de um Hyper China.
Cinefilamente falando, é das melhores metáforas que vi sobre a vida.
quinta-feira, março 22, 2018
Comédias dos anos 90
Aqui há dias, lembrei-me disto.
Na sinopse, lê-se do que se trata. Duas meninas "convocadas" para um encontro de antigos alunos. Como pensam que a vida delas não é assim tão interessante, vai de inventar meia dúzia de tretas porreiras (não sei se é neste filme em que uma delas diz que vive dos royalties dos post-it amarelos) e andou.
No Facebook, esse bastião da protecção de dados, surgiu um convite: um jantar de antigos colegas.
Foi instintivo contactar a promotora, minha amiga, e dizer-lhe que não ia, isto sem considerar a hipótese de aparecer. Fez alguma pressão para que fosse, disse que tinha pena e que seria "giro".
Lá veio o filme supra citado à cabeça.
Ao contrário das meninas personagens, a minha vida não é má. Mal ou bem, tenho chegado onde quero, com o capital a ser a única barreira real à proliferação de excentricidades. Não obstante, ao ver o "cardápio" de convidados, lembrei-me do que eram boas e más pessoas. Daquelas que apanhamos no caminho da existência e nos recordamos para exemplificar e comparar.
Como na película, e com o que ela ensina, não há nada de errado naquela dupla. O que lhes dá nervos são os colegas, capazes de provocar um turbilhão de vontades, tantas contraditórias.
Ao contrário do que faço em todos os momentos, deixo de ir ao jantar pela presença de algumas almas que por ali habitam. Defendo que se devem recordar tempos difíceis e passar, amiúde, por lembranças menos felizes. Contudo, não é o caso. Mercê do peso, faço uma metáfora culinária: eu odeio peixe cozido, mas o peixe cozido faz bem e lá terá de ir, uma vez ou outra. Aquelas pessoas não são peixe cozido. São dobrada. Não sabe bem. Não faz bem. Numa mesa onde todos comem dobrada, eu como um bife.
Portanto, para dobrada, não vou daqui ali.
Na sinopse, lê-se do que se trata. Duas meninas "convocadas" para um encontro de antigos alunos. Como pensam que a vida delas não é assim tão interessante, vai de inventar meia dúzia de tretas porreiras (não sei se é neste filme em que uma delas diz que vive dos royalties dos post-it amarelos) e andou.
No Facebook, esse bastião da protecção de dados, surgiu um convite: um jantar de antigos colegas.
Foi instintivo contactar a promotora, minha amiga, e dizer-lhe que não ia, isto sem considerar a hipótese de aparecer. Fez alguma pressão para que fosse, disse que tinha pena e que seria "giro".
Lá veio o filme supra citado à cabeça.
Ao contrário das meninas personagens, a minha vida não é má. Mal ou bem, tenho chegado onde quero, com o capital a ser a única barreira real à proliferação de excentricidades. Não obstante, ao ver o "cardápio" de convidados, lembrei-me do que eram boas e más pessoas. Daquelas que apanhamos no caminho da existência e nos recordamos para exemplificar e comparar.
Como na película, e com o que ela ensina, não há nada de errado naquela dupla. O que lhes dá nervos são os colegas, capazes de provocar um turbilhão de vontades, tantas contraditórias.
Ao contrário do que faço em todos os momentos, deixo de ir ao jantar pela presença de algumas almas que por ali habitam. Defendo que se devem recordar tempos difíceis e passar, amiúde, por lembranças menos felizes. Contudo, não é o caso. Mercê do peso, faço uma metáfora culinária: eu odeio peixe cozido, mas o peixe cozido faz bem e lá terá de ir, uma vez ou outra. Aquelas pessoas não são peixe cozido. São dobrada. Não sabe bem. Não faz bem. Numa mesa onde todos comem dobrada, eu como um bife.
Portanto, para dobrada, não vou daqui ali.
segunda-feira, março 19, 2018
O Dia do Pai
Ao acordar, hoje, lembrei-me do meu filho, que me recebeu com um sorriso, como só ele, e do meu pai.
O dia do pai tem essa especialidade. Não olvidamos quem nos amparou e ainda reforçamos o reconhecimento que por eles temos quando somos nós os colocados na posição de progenitores.
O meu pai escreveria algo melhor que estas palavras ao nível da segunda classe. O meu filho, certamente, também.
Foi preciso ser pai para perceber o meu.
O dia do pai tem essa especialidade. Não olvidamos quem nos amparou e ainda reforçamos o reconhecimento que por eles temos quando somos nós os colocados na posição de progenitores.
O meu pai escreveria algo melhor que estas palavras ao nível da segunda classe. O meu filho, certamente, também.
Foi preciso ser pai para perceber o meu.
terça-feira, março 06, 2018
2012
2012 é o nome do tema abaixo. Uma música que ouvia enquanto sabia do desaparecimento de um ser que para sempre deixou saudades.
Deixando tal de lado, 2012 marca o início de um processo crime que patrocino. Para os meus Constituintes, a dor for outra.
Proprietários de uma empresa, cometeram o triste erro de não pagar aos seus trabalhadores. Nada que seja novo no panorama nacional.
Sucede que um dos ditos subordinados é sobrinho de uma importante jornalista. Daqueles que revela escândalos e denuncia poderosos.
Ao ver que o sobrinho não era ressarcido, montou uma reportagem onde transformou aqueles caloteiros em bodes expiatórios dos males do mundo. Factos falsos, factos retirados do contexto, valeu tudo.
Nos dias seguintes aos da reportagem, na rua, foram chamados de tudo. Ameaçaram queimar-lhes os carros, imputaram burlas.
Ela tentou matar-se e ainda hoje não dorme pelo sucedido. Ele não entra num café da zona sem que lhe chamem um nome daqueles feios.
Acusamos. Requeremos. Fizemos.
Hoje, realizou-se o debate instrutório.
A liberdade de expressão e informação vai ganhar.
Afinal de contas, o que interessa a vida das pessoas?
Deixando tal de lado, 2012 marca o início de um processo crime que patrocino. Para os meus Constituintes, a dor for outra.
Proprietários de uma empresa, cometeram o triste erro de não pagar aos seus trabalhadores. Nada que seja novo no panorama nacional.
Sucede que um dos ditos subordinados é sobrinho de uma importante jornalista. Daqueles que revela escândalos e denuncia poderosos.
Ao ver que o sobrinho não era ressarcido, montou uma reportagem onde transformou aqueles caloteiros em bodes expiatórios dos males do mundo. Factos falsos, factos retirados do contexto, valeu tudo.
Nos dias seguintes aos da reportagem, na rua, foram chamados de tudo. Ameaçaram queimar-lhes os carros, imputaram burlas.
Ela tentou matar-se e ainda hoje não dorme pelo sucedido. Ele não entra num café da zona sem que lhe chamem um nome daqueles feios.
Acusamos. Requeremos. Fizemos.
Hoje, realizou-se o debate instrutório.
A liberdade de expressão e informação vai ganhar.
Afinal de contas, o que interessa a vida das pessoas?
quarta-feira, fevereiro 28, 2018
Divórcio
O homem não acreditava, o homem queria ouvir.
Queria ouvir da Juíza, queria que fosse aquela entidade mais alta a confirmar que aquilo que tanto sono lhe tirou estava resolvido.
O homem conteve-se. Conteve-se tanto. Queria gritar, partir, fazer sentir a sua presença.
O homem queria, o homem teve.
Hoje, divorciou-se.
Não há como não lembrar Júlio Igrejas. Não pelo repertório, mas porque tem este tema, emblemático da dor de corno, no seu álbum Divórcio.
Queria ouvir da Juíza, queria que fosse aquela entidade mais alta a confirmar que aquilo que tanto sono lhe tirou estava resolvido.
O homem conteve-se. Conteve-se tanto. Queria gritar, partir, fazer sentir a sua presença.
O homem queria, o homem teve.
Hoje, divorciou-se.
Não há como não lembrar Júlio Igrejas. Não pelo repertório, mas porque tem este tema, emblemático da dor de corno, no seu álbum Divórcio.
quinta-feira, fevereiro 22, 2018
Soldador
O suor de um soldador é imperscrutável.
Aquele, em particular, de tudo fez para que nada faltasse em casa.
Cedo se juntou com aquela que seria sua mulher. Casaram num dia bonito, naqueles em que a chuva está de binóculos, lá longe.
Ela queria estudar, mas foi sempre vontade dele trabalhar. Assim foi. Na Bélgica, Holanda ou na Lisnave fazia horas extraordinárias para que aquela côdea viesse calhar-lhe ao bolso e fosse possível remeter para o lar mais uns euros.
Tiveram filhos. Tiveram casa.
Ela deixou de estudar. A rotina que a ocupava deu lugar a longas temporadas de clausura. Ele saía e entrava. Ela ficava. Ele ganhava e partilhava, ela só contemplava.
Não havendo quem mais culpar, tornou-o bode da sua ira. Aquele que amou era, agora, um iogurte estragado, um prado ardido, um chão que já tinha dado uvas. Já chegava daquilo.
Iniciou-se o processo de repulsa, esse estranho fenómeno, composto por tantas camadas quanto a mais ácida das cebolas. Primeiro, deixou de lhe dirigir mais que uns monossílabos. Depois, fechou-se inteiramente, já não lhe pertencendo.
Ele sabia pouco. Sabia de menos. Anos de reparação de navios haviam expurgado o senso do correcto. Só havia o dever, estando esquecido o humano que em todos devia habitar.
Numa noite, forçou. Não, todavia, como qualquer escroque. Quis o que ela não lhe queria dar.
Errou profundamente. Errou para lá do perdoável.
Foi detido. Foi preso.
Passaram-se meses. Dos filhos só chamadas. Um com 10 anos e outra com meses passaram a ver o pai como um fantasma. Sem saberem o que tinha sucedido, só restava esperar pelo dia em que o voltariam a ver.
Ela não foi lenta a reagir.
Rapidamente pediu o divórcio e a guarda total dos filhos.
Ele continuou a pagar o erro profundo, o tal para lá de perdoável.
Já depois de belos meses dedicados ao presídio, foi notificado. Deveria comparecer no Tribunal para uma conferência de pais.
Ao dia e hora, lá estava. Estaria sempre. Muda o facto de a escolta ser substancialmente superior.
Cedeu em tudo. Guarda, residência, alimentos...que havia de fazer?
Lavrada a acta, sem pedir licença, dirigiu-se ao juiz:
- Posso ver o meu filho hoje?
Como é certinho na escória que habita e parasita o sistema prisional português, a resposta veio, à velocidade da luz, de um guarda que ali estava:
- Não temos ordens para isso!
Havia, contudo, um Juiz e Procurador naquela sala. Como colocasse aquele traste fardado no lugar, ordenou, simplesmente, que a funcionária trouxesse o menino.
- Estás tão grande, disse ele
Seguiu-se o abraço mais breve e emocionado a que tive oportunidade de assistir.
Quase 5 meses separaram o pai do seu filho. Não porque era mau pai, muito menos porque merecesse esse castigo suplementar.
Portando-se como se fosse dona dos filhos, como o é de facto da sua vida, ela não quis aquela reunião. E disse-o.
Ele voltou para os calabouços. Despedi-me dele como sempre: tenha força.
Naquele dia, o Juiz ouviu aquele rapaz que se agarrou ao pai com lágrimas nos olhos, toldado pela saudade. Das suas declarações resultou a vontade inequívoca de visitar o pai na prisão. A mais nova? Nem os magistrados nem ela foram de parecer que o encontro se concretizasse.
Porque, a bem da verdade, os filhos são propriedade do sistema de justiça e das mães.
Ou assim se pensa.
Aquele, em particular, de tudo fez para que nada faltasse em casa.
Cedo se juntou com aquela que seria sua mulher. Casaram num dia bonito, naqueles em que a chuva está de binóculos, lá longe.
Ela queria estudar, mas foi sempre vontade dele trabalhar. Assim foi. Na Bélgica, Holanda ou na Lisnave fazia horas extraordinárias para que aquela côdea viesse calhar-lhe ao bolso e fosse possível remeter para o lar mais uns euros.
Tiveram filhos. Tiveram casa.
Ela deixou de estudar. A rotina que a ocupava deu lugar a longas temporadas de clausura. Ele saía e entrava. Ela ficava. Ele ganhava e partilhava, ela só contemplava.
Não havendo quem mais culpar, tornou-o bode da sua ira. Aquele que amou era, agora, um iogurte estragado, um prado ardido, um chão que já tinha dado uvas. Já chegava daquilo.
Iniciou-se o processo de repulsa, esse estranho fenómeno, composto por tantas camadas quanto a mais ácida das cebolas. Primeiro, deixou de lhe dirigir mais que uns monossílabos. Depois, fechou-se inteiramente, já não lhe pertencendo.
Ele sabia pouco. Sabia de menos. Anos de reparação de navios haviam expurgado o senso do correcto. Só havia o dever, estando esquecido o humano que em todos devia habitar.
Numa noite, forçou. Não, todavia, como qualquer escroque. Quis o que ela não lhe queria dar.
Errou profundamente. Errou para lá do perdoável.
Foi detido. Foi preso.
Passaram-se meses. Dos filhos só chamadas. Um com 10 anos e outra com meses passaram a ver o pai como um fantasma. Sem saberem o que tinha sucedido, só restava esperar pelo dia em que o voltariam a ver.
Ela não foi lenta a reagir.
Rapidamente pediu o divórcio e a guarda total dos filhos.
Ele continuou a pagar o erro profundo, o tal para lá de perdoável.
Já depois de belos meses dedicados ao presídio, foi notificado. Deveria comparecer no Tribunal para uma conferência de pais.
Ao dia e hora, lá estava. Estaria sempre. Muda o facto de a escolta ser substancialmente superior.
Cedeu em tudo. Guarda, residência, alimentos...que havia de fazer?
Lavrada a acta, sem pedir licença, dirigiu-se ao juiz:
- Posso ver o meu filho hoje?
Como é certinho na escória que habita e parasita o sistema prisional português, a resposta veio, à velocidade da luz, de um guarda que ali estava:
- Não temos ordens para isso!
Havia, contudo, um Juiz e Procurador naquela sala. Como colocasse aquele traste fardado no lugar, ordenou, simplesmente, que a funcionária trouxesse o menino.
- Estás tão grande, disse ele
Seguiu-se o abraço mais breve e emocionado a que tive oportunidade de assistir.
Quase 5 meses separaram o pai do seu filho. Não porque era mau pai, muito menos porque merecesse esse castigo suplementar.
Portando-se como se fosse dona dos filhos, como o é de facto da sua vida, ela não quis aquela reunião. E disse-o.
Ele voltou para os calabouços. Despedi-me dele como sempre: tenha força.
Naquele dia, o Juiz ouviu aquele rapaz que se agarrou ao pai com lágrimas nos olhos, toldado pela saudade. Das suas declarações resultou a vontade inequívoca de visitar o pai na prisão. A mais nova? Nem os magistrados nem ela foram de parecer que o encontro se concretizasse.
Porque, a bem da verdade, os filhos são propriedade do sistema de justiça e das mães.
Ou assim se pensa.
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