quarta-feira, janeiro 23, 2013

Num escritório

Para se ser advogado, deve fazer-se um estágio.

Actualmente, esse estágio demora cerca de 3 anos, um pouco menos se, como se diz na gíria, "correr tudo bem".

Quando me iniciei nas lides da advocacia, comecei por procurar um escritório que me acolhesse. O estágio postula várias formalidades e a principal é a existência de um patrono que, supostamente, acompanha, dirige, aconselha. Digo "supostamente" porque existe, no papel, essa obrigação. (Porém, na prática, um patrono é só um patrão que espera que o ofício esteja aprendido desde a barriga da progenitora. Podemos ter a sorte de perceber do assunto como um só "olhadela", e aí a coisa corre de feição, ou então, se todos forem como eu, de compreensão muito lenta, temos um problema.)

Como eu, no escritório, quando entrei, havia 4 estagiários. Duas senhoras e dois senhores, comigo incluído.

A primeira pessoa que me estendeu a mão e falou de igual para igual foi, na passada Segunda-Feira, prestar provas orais de agregação. Reprovou.

Daqueles 4, eu e o outro senhor fomos bem sucedidos, a senhora supra referida vai repetir a prova oral e a quarta, por razões burocráticas, ainda se vai apresentar a exame escrito.

Tudo o que está escrito supra não tem qualquer valor para o que me leva a escrever estas linhas.

Recentemente, outras estagiárias entraram no escritório onde estou.

O "Patrono", entrando no gabinete onde estava uma das novas estagiárias, depois de 30 segundos de conversa da treta, entra no assunto da reprovação.

A miúda nova, que irá ter um grande futuro no escritório, muito admirada, dizia que não entendia como é que a presidente do Júri que chumbou a colega tinha sido tão má, uma vez que era sua formadora na Ordem.

O "Patrono", cheio de si, respondeu que o problema não tinha sido do júri. O problema tinha sido a examinada, que não sabia, não fazia, não, não, não, um monte de "nãos", seguidos de notas pessoais em tons de nojo e depreciação.

Não a defendeu. À frente de um projecto de causídica, o "Patrono" deixou cair um seu outro projecto em forma de estagiário.

Há quem não valha nada.


quinta-feira, janeiro 03, 2013

E não pára.

Vésperas de Nada

Aniversário
Fernando Pessoa
(Álvaro de Campos)


No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas
lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais       copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!..
.

O mundo laboral explicado ao povo e às crianças

(A história que se segue foi-me contada numa versão bem mais abreviada. Decidi alongar, para dar um enquadramento mais capaz)

Tudo se passa numa casa absolutamente normal, no seio de uma família tradicional. Como todas as outras, a família desta história também tinha que "fazer o tacho".
Uma vez que a imaginação não abundava, as refeições eram, frequentemente, as mesmas: carne assada com massa, carne assada com arroz ou carne assada com puré.
O agregado familiar era composto por pai, mãe e filho. O petiz, recente nestas coisas, foi enjoando o manjar até que, um dia, cheirando o hábito vindo da cozinha, perguntou ao seu velho:
- Oh pai, o que é o jantar?
Respondeu o pai:
- Carne assada, filho.
Irritado com o remake daquele pouco suculento filme de terror, o jovem não vai de modas e grita:
- NÃO GOSTO DE CARNE ASSADAAAAAAAA!
O sócio sénior previu aquele dia. Olhou para o seu rebento, respirou fundo e, com toda a calma da margem sul, pediu ao jovem que pusesse o dedo indicador direito dentro do lado direito da boca e o dedo indicador esquerdo do lado esquerdo da boca, ambos dobrados, a formar um pequeno gancho, cada gancho puxando para seu lado.
O filho achou piada ao exercício, quanto mais não fosse porque parecia que estava a fazer uma careta.
O pai pediu ao menor que mantivesse a dita careta e proferisse a frase chave: "não gosto de carne assada":
- Naum gochto de caaane achada" - Disse.
- Então come merda. - Replicou o pai.

No mundo laboral, quando estamos sujeitos às ordens de um sabujo qualquer que é patrão, isto acontece que uma frequência indesejada.

E olhem que até gosto de carne assada.


quinta-feira, dezembro 20, 2012

Teses

Há uns anos, na célebre rúbrica chamada "O Homem que mordeu o cão", dizia-se que a Dina e o (actor que fazia de) Zé Gato eram uma e a mesma pessoa. Dos vários argumentos, o mais pujante vinha na forma de pergunta: Alguma vez foi vista a Dina e o Zé Gato no mesmo sítio?

Agora, tenha-se em consideração o seguinte caso:


Toda a gente, em princípio, conhece este senhor. Abebe Selassie, o Troi em Troika.


Este homem é Cee Lo Green. Passei a conhecê-lo por ser vocalista de Gnarles Barkley.


segunda-feira, dezembro 17, 2012

Estupidez, ainda antes da entrada em modo natalício

Se abrisse um negócio de comida para vegetarianos, apostava na internacionalização e chamar-lhe-ia Food Earth

terça-feira, dezembro 11, 2012

Estava, agora mesmo, a pensar numa cozinha daqueles restaurantes com Estrela Michelin.

Ali, esbate-se o preconceito do grande cozinheiro. Mais concretamente, o que se passa naquele espaço não é o mesmo que acontece numa cozinha doméstica, em que um dos habitantes da casa pega no tacho e, sozinho, produz a refeição.

Numa cozinha de grande gabarito, o chef há de ser sempre o responsável pela ideia, pela receita, que subjaz ao prato. Será sempre dele o tempo de cozedura, de grelha ou outro meio qualquer de produzir o bom do "morf". Também é dele o molho, o tempero, o "saber" onde comprar os bons igredientes.

Na hora da verdade, o chef não está na cozinha a grelhar o peixe, a assar a carne nem a preparar a salada. Para isso há "outras pessoas". Quando muito, um chef prova, "maquilha" o prato e faz com que os olhos também comam.

A constatação do dia é que sou "outra pessoa". Como as coisas estão, é bem possível que passe os próximos anos da minha vida a fritar as batatas ou a cozer arroz.

(Era para ter optado pela metáfora do jogador de futebol que aquece o banco, mas uso-a num outro dia, acompanhada de história própria e reminiscências infantis).

quarta-feira, dezembro 05, 2012

Idades

(Fazia tempo que não escrevia aqui)

 Eu ando sempre a dizer que estou velho. Faço grande parte da minha vida a resmungar e a maldizer a sorte. Ao fim e ao cabo, dou comigo a pensar que, até agora, tem tudo passado muito depressa.

Que já vi muito.

Que já passei por alguma coisa.

Que já ouvi e cheirei o que preferia não ter ouvido e cheirado.

Até que, numa bela tarde de Quarta-Feira (de acordo com o anterior acordo ortográfico), oiço algo que tinha por impensável. A juntar a isso, assisto ao que nunca pensei que pudesse acontecer.


Isto só para dizer que volto a pensar que não sou tão velho assim, como pensava quando andava no ensino básico, ali como quem vai para o 9.º ano.

quarta-feira, outubro 17, 2012

Penitência






(Na sendo do que é habitual, ou seja, entrar a falar sem explicar o contexto, aqui segue)

Ainda nada está resolvido.

Nada é certo.

Porém, há grande probabilidade de ter passado um problema que me tirou o sono.

Criei um problema que outro resolveu. Calhou o outro ser aquele que mais fel me mereceu.

Hoje, há que pedir desculpa.

A ele, nunca. A mim. Porque sou mau demais a avaliar carácteres. Se calhar, nunca há tanto défice quanto se assume.

quinta-feira, junho 28, 2012

Ser advogado é uma bela merda.

Se alguém pensa que tem relação com o direito, está enganado.

Se alguém pensa que tem relação com a justiça, deve deixar a droga.

Se alguém pensa que tem prestígio, vá ver o que significa "prestígio" no dicionário.

E é isto, para já.

Claro, a vida correrá melhor a uns do que a outros. A mim, profissionalmente, corre mal. Corre mal financeira e motivacionalmente.

Também fui estúpido em pensar que seria o contrário. Levei 5 anos de faculdade a negar o cálice. Foi só acabar o calvário e já apanhei uma valente borracheira nele.

Depois, há os aspectos corporativos. A única coisa que me desagrada na OA é o carácter proteccionista que faz barrar os interesses dos que querem ingressar na profissão. De resto, adoro. É aqui que "marra" a minha confusão. É que não suporto os colegas. (Não todos, claro.) Mas, modo geral, é gente com um ego tão maior que o meu, com o convencimento e auto-engrandecimento tão patente que pasmo.

Os advogados são, incontornavelmente, aquilo que dizem deles.

Menos aqueles que não gostam de o ser.

(Sim, a regra comporta excepções.)

segunda-feira, junho 25, 2012

Porque há muito tempo que não escrevia sobre baleias, ursos e restante fauna aplicável

Devia haver um meme para o meu superior hierárquico.

Era fácil.

Fotografia de fundo.

Em cima, uma pergunta. Qualquer coisa. Exemplifico: Chefe, tem horas?

Em baixo, a resposta: Vê o processo.

Volto a exemplificar. Em cima: Ligou o X a perguntar se amanhã sempre se mantém.

Em baixo: Vê o processo.

Trust me, this can last for hours and has its place in every circumstances

terça-feira, maio 22, 2012

Nas vésperas do quinquénio






Esta foto é de dia 24 de Maio de 2007.

Traz, tão-somente, as melhores recordações. Foi uma audiência bem conseguida, o espírito académico estava em alta e, naquela noite, tornei-me melhor pessoa. Levantei-me às 7 horas do dia 24 de Maio e adormeci às 23.40 do dia 25.

Sempre que contemplo a foto, lembro-me de tudo.

Foi, sem qualquer sombra de dúvida, o melhor dia da minha vida.

Nada correu mal.

Matou-se aquela máxima do "tudo o que pode correr mal vai correr mal".


Da prestação de consulta jurídica

Enquanto trocava umas ideias jurídicas, via MSN (estou velho), também andava pelo FB.

Dei com a respectiva face de uma antiga colega de escola, de turma.

Uma mulher que, declaradamente, me odiava.

Melhor aluna que eu. (Obviamente) Mais jeitosa que eu (ainda que para espécime feminino deixasse a desejar...). Mais amigos que eu. Está num escritório mais conceituado que o meu (ah, sim, foi para Direito, até já tem mestrado e brutas notas)

Epá, nunca me suportou. Falava mal de mim nas costas. Encontrava-me todos os defeitos. Era de cortar à faca o ambiente.

Ainda hoje pergunto "porquê".

Ainda hoje não sei.

Tese n.º 1: Porra, és insuportável.
Refutação: Bem verdade, mas ela odiou-me sem me conhecer. Acreditem se quiserem.

Tese n.º 2: Ela tinha uma paixão por ti.
Refutação: Sou profundamente feio e desinteressante.

Tese n.º 3: És profundamente feio e desinteressante.
Refutação: Certo, mas isso não tem nada a ver. Sou amigo de muita gente profundamente feia e desinteressante.

Tese n.º 4: Inveja
Refutação: De quê???

Run out of thesis.

Não chego lá.

Só resta a derradeira explicação: somos irmãos separados à nascença e a voz do sangue é mal ouvida por ela.

domingo, maio 06, 2012

O Dia da Mãe

Ao contrário da generalidade das pessoas, eu gosto que existam "dias" determinados de homenagem a certas coisas ou pessoas. Há o "dia da Mulher", o "dia do Pai" ou o "dia da Paz". Nenhum destes é só mais um dia. Termos presente que alguém se lembrou de instituir, por todo o mundo, uma data de justa evocação traz-nos a obrigação, nem que seja por breves segundos, de pensar nela.

Penso.

Eu não acredito numa "teoria geral da maternidade", isto é, não acredito que haja uma fórmula específica que os seres-humanos do sexo feminino que deram à luz possam aplicar para serem bem sucedidos na missão de se relacionarem com o filho. Acredito, antes, numa "ideia de mãe", sempre subjectiva.

Ao longo da história, tanto da universal, como da minha, conheci grandes mães. Ora, nenhuma delas era igual à anterior, isto é, não foi para os seus filhos aquilo que outras foram para os respectivos. Em cada uma, houve capacidade para perceber que matéria bruta tinham à sua frente, que defeitos e inseguranças despontavam e com elas souberam lidar, nunca apagando traços de personalidade, mas lidando com tudo com a chamada "classe". Sem ser um critério definitivo, é para mim uma boa mãe aquela que soube educar os filhos. Que lhes deu princípios e valores, aquela que os transformou em pessoas e não em mera escória.

Foi isto que fez da minha mãe alguém superior.

Não me quero usar como objecto de análise, mas sempre tenho uma irmã e posso recorrer ao que ela se tornou e, aí, tiro boas conclusões. Hoje, a minha irmã é independente, educada, profissional, há quem diga até que tem uma boa figura, arranja-se e costuma cheirar bem.

Prova dos nove: a minha mãe triunfou.

No que posso dizer, sem emitir parecer acerca do meu carácter, antes de ser mãe, ela é uma grande pessoa. Cresceu num meio em que o dinheiro não abundava. Apesar disso, tirou o seu curso superior enquanto trabalhava, "teve-me" quando "andava a assinar fitas de finalista" e nunca se lhe conheceu fraqueza. Está ali uma grande mulher, uma Senhora.

Deu-me tudo.

Devo-lhe muito daquilo que sou (para o bem e para o mal), daquilo que tive e daquilo que dou. É alguém incontornável na minha vida, uma alma permanente e perene.

Ainda bem que há o Dia da Mãe.

Não há trabalho de tanta responsabilidade.

quinta-feira, abril 12, 2012

Euro 2012

Bar velho.

Mesmo naquelas mesas ao pé da porta que dá para um projecto inacabado de jardim, onde há um relvado e vista para a biblioteca.

Num moleskine, apontávamos apostas: quem é que vai para o Euro 2008?

Há 4 anos.

Hoje vi um passatempo semelhante. Coisa já profissional, acho que até metia dinheirinho.

Lembrei-me daquele instante. Porque irrepetível, porque de tão banal e comum, senti como se uma chapada me fosse dada.

É verdade. Acorda.

Isto para chegar, mais uma vez, àquela conclusão que não me larga, mas teimo em não acatar: há um modo de vida que acabou.

segunda-feira, março 19, 2012

"Tenho ideia que são nove"

Isto foi o que Cavaco respondeu quando lhe perguntaram quantos Cantos têm "Os Lusíadas".

Acho que nunca escrevi um post sobre o Dia do Pai. Até tenho ideia da razão.

Vamos lá a uma pequena dissertação.

O meu Pai é oriundo de um terra sita em Trás-os-Montes. Já o Pai dele, meu avô, era transmontano. Os irmãos, amigos e vizinhos comungavam da cena. Há um traço muito particular no que toca aos transmontanos: combinam na perfeição o binómio frieza/masculinidade.

Naquelas paragens, não há necessidade de chamar "roto", "rabeta", "rabo" ou qualquer coisa parecida. Ali, vive-se de atitude, de actos e factos. Simplesmente, "é-se home".

Isto porquê? Por uma razão simples: o Pai do meu Pai, meu avô, bem como os irmãos, amigos e vizinhos nunca fariam uma dissertação sobre o Dia do Pai. Para eles, não há dias desses. Há autênticas existências de dedicação. Na terra quente, a homenagem é diária, reflectindo-se no respeito que se merece, observando-se no trabalho que se presta, na compreensão eterna jogada no lar.

Ainda que blogs houvesse na sua infância e o mundo Dele fosse o meu, jamais veria o meu velho com um assomo de laudatória a escrever fosse o que fosse a respeito do Pai dele. Não era preciso. Nunca foi. É que sempre esteve na cara o que um simbolizava para o outro. O que era o meu avô na vida do meu Pai e o meu Pai na vida do meu avô.

Eis que chegamos a estas linhas. Eu não sou transmontano. A linguagem que o nordeste fala (e sente) eu nunca aprendi. Tivesse sido nascido e criado em Vale de Prados e o assunto, hoje, era a dimensão axiológica do mito de Anteu.

Ao invés disso, faço uma pequena catarse e penitencio-me: o meu grande mal é nunca dar a entender às pessoas o que elas significam. Na grande maioria dos casos, não significam nada. (Vá lá saber-se porquê). Todavia, outros casos há em que ficou tudo por demonstrar. Mais do que dizer, lamento profundamente não expressar a gratidão por uma vida maravilhosa (não só dada por ele, mas também por todo o meu núcleo familiar). Mais do que convencer, será uma eterna mágoa nunca imputar naquele Homem, com o seu consentimento, a responsabilidade por tantos e tão bons valores e exemplos que me transmitiu.

Mas eu ainda sou novo. Bem vistas as coisas, ele também.

quinta-feira, março 15, 2012

Banalidades e Lugares Comuns

Era a vida toda a correr à frente dos olhos.

Desde o momento do nascimento, até à morte.

Normalmente, quando se ouvem estes mitos, o filme que "rola" na retina é o dos êxitos, o das coisas que se fizeram.

Ali, não. Para além do que foi feito e alcançado, sobrava o que passou ao lado. O que deixou de se fazer, o que se ignorou e aquilo de que se fugiu.

De certa forma, a tónica era essa mesma. A despedidas faziam-se em lágrimas e as palavras dirigidas não eram de congratulação, muitos menos de enaltecimento. O que cantavam aquelas almas era o que estava por fazer, o que estava ao alcance e não podia, por força das circunstâncias, agora ser atingido.

No momento da última batida, onde deveria aparecer a palavra "Fim" a marcar, precisamente, o final do supra citado filme, há uma imagem e um som. Plácido Domingo. Anos mais novo mas com incrível potência vocal. Cantava uma aria qualquer. Em grande.

Partia, assim, para o outro mundo ou para a falta dele.

terça-feira, março 13, 2012

Do "achismo" certo.

Aconteceu a este blogger a única coisa que nunca quis. Ok, uma entre muitas.

Ao almoço:

"- Parabéns, pá. Foi declarada a execução específica do !"#$%."
"- Parabéns porquê? Nem fiz o julgamento..."
"-Não houve julgamento..."

I - Preliminares:

Não sou interveniente nesta conversa. Estava ao lado.

II - Da causa:

No processo supra referido, o fulano que "nem fez o julgamento" foi mandatário do !"#$%. Alguém fez a Petição Inicial, não ele. Ele entregou-a via citius. (Nota: petição inicial é o articulado entregue pelo autor da acção judicial onde vem pedir que se faça justiça, i.e, uma folha A4 com artigos em que são descritos factos e feito um pedido, v.g, "o A. deu-me uma chapada, quero ser indemnizado")

O réu não contestou. Quando isso acontece, o Autor da acção é notificado para alegar, nos termos do artigo 484.º, n.º 2 do Código de Processo Civil. Por alegar entenda-se fazer uma exposição de factos e de direito a justificar a nossa razão.

É aí que eu entro. Fui o autor dessas alegações.

III - Da coisa

Chefe congratula o outro que deu o nome para os autos e disse que era lá advogado para a coisa ficar bonita. As alegações foram aceites, bem como o pedido formulado e foi ganha a acção.

IV - Da condição

Nem o chefe se lembrava que tinha sido eu a fazer as alegações nem a outra besta foi capaz de dizer que se limitou a enviar aquilo que eu fiz.

V - Conclusões

1. O trabalho foi bem feito e isso devia deixar-me contente.
2. O trabalho foi bem feito, mas para quem isso interessa, não tive relação com nada aquilo.
3. Já me têm repreendido por uma ou outra falta de atenção. Se me esqueço de pôr um acento, tenho de me levantar do gabinete e ouvir. Se sou responsável por algo valioso, não sou.
4. O custo de oportunidade. Sempre ele.

segunda-feira, março 12, 2012

Constantes e variáveis

A sobrevivência (em qualquer forma), depende sempre da cedência.

Saber jogar com as cedências é fundamental. Não sei se sempre foi assim, mas sei que comigo não funciona de outra maneira.

É uma constante.

A sobrevivência de uma família faz-se com a cedência dos egos. Cada individuo sê-lo-á menos se quiser gozar daquela confortável união.

A sobrevivência no trabalho faz-se com a cedência de personalidade e auto-estima. Quanto mais merda fomos aguentando mais longe iremos. Claro que ser minimamente competente ajuda. Mas aí está um ponto de toque engraçado: só é mesmo preciso ser minimamente competente. Eu até tenho a medida: competência ao nível do cumprimento de ordens. E chega.

Depois, há os dias variáveis, onde se lida menos bem com a cedência.

Nesses dias, escrevem-se posts.

(E agora, uma constatação nada fática sobre a existência).

Entre o que existe e o que não existe estão as palavras.

Acabando de escrever estas linhas sobre cedências, a realidade far-se-á sentir. Que quer isto dizer em termos práticos, de modo a que um homem médio perceba?

"Olha, tudo bem com as cedências e tal. Vives iludido com aquilo que trouxeste da Faculdade. Já viste que não te serviu de nada. Insistes. Espera que saia a nota do teu exame. Nunca te vais cansar de tomar banhos de humildade."

segunda-feira, março 05, 2012

Da Quebra Justificada do Jejum de Posts

Reza o Código Penal Português que, caso se preencham certos requisitos, certo facto pode justificar a ilicitude, o que fará com que não haja crime.

Ora, o que quero dizer não tem nada a ver.

Sobretudo um espelho de estados de espírito, este blogue já dedicou inúmeras palavras àquela que justifica a cada dia que o blogger subscritor não seja uma "ilicitude andante" (era só para relacionar).

Faz hoje anos.

Queria só dizer que está cada vez melhor. Está tão melhor que a comparação vai deixar de ser com o vinho do Porto. Doravante, as pessoas dirão: "Jesus, aquele Davidovich é como a Diligentia, quanto mais velho, melhor!".

Parabéns, mulherão.