sexta-feira, abril 27, 2018

Funcionários Judiciais

O patrocínio forense é uma honra. Se não tivermos em conta o apoio judiciário (onde a nomeação para patrocínio do beneficiário é aleatória, não permitindo uma verdadeira escolha por parte de quem é representado), cada cliente escolheu-nos. Fomos nós e não outro. Fomos nós, apesar dos outros.
Dentro do patrocínio, obrigatório se torna lançar mão de todos os meios ao alcance para defender quem nos elegeu.

Um desses meios, a meu ver, é singelo, mas incontornável: consultar o processo original. Pedir a sua confiança, para, no escritório, o poder ler e pensar.

Requeri.  Ligaram para o escritório referindo que havia sido deferida a consulta. Acto contínuo, lá me desloquei, ao Tribunal. Note-se: ligaram, da secção, para o meu escritório para que lá fosse buscar o processo.

Chegando lá, afinal não. "Doutor, estava a trabalhar no processo e ainda vai demorar, não pode cá passar à tarde". Acedi.

Complicada a minha vida, naquele dia, à tarde, não fui.

Voltei no dia seguinte.

E agora, discurso directo:

"Ai sotor, não veio e eu fiquei, por acaso, até mais tarde e até fui à Dra. Juiza que disse "só agora"  e ela ficou com o processo. Além disso, depois meteu-se o requerimento do sotor, que o Dr. X veio responder. Já viu, não já? Pois. O sotor faz o seu papel, claro, mas o seu cliente portou-se mal. Muito mal."

Fica para memória futura. Para aquela ave comum, choldra e ainda era pouco.

segunda-feira, abril 23, 2018

Mais que uma cena

Não sendo um grande filme (sequer bom), "Só Deus Perdoa" tem este pedacinho superior, de que me lembrei há momentos.
Não venho com a intenção de fazer leituras sobre o significado da luta no contexto do filme.
O que me fascina é algo rudimentar: um bonitão, cheio de saúde a levar uma tareia homérica de um caga tacos com aspecto de funcionário de um Hyper China.
Cinefilamente falando, é das melhores metáforas que vi sobre a vida.




quinta-feira, março 22, 2018

Comédias dos anos 90

Aqui há dias, lembrei-me disto.

Na sinopse, lê-se do que se trata. Duas meninas "convocadas" para um encontro de antigos alunos. Como pensam que a vida delas não é assim tão interessante, vai de inventar meia dúzia de tretas porreiras (não sei se é neste filme em que uma delas diz que vive dos royalties dos post-it amarelos) e andou.

No Facebook, esse bastião da protecção de dados, surgiu um convite: um jantar de antigos colegas.

Foi instintivo contactar a promotora, minha amiga, e dizer-lhe que não ia, isto sem considerar a hipótese de aparecer. Fez alguma pressão para que fosse, disse que tinha pena e que seria "giro".

Lá veio o filme supra citado à cabeça.

Ao contrário das meninas personagens, a minha vida não é má. Mal ou bem, tenho chegado onde quero, com o capital a ser a única barreira real à proliferação de excentricidades. Não obstante, ao ver o "cardápio" de convidados, lembrei-me do que eram boas e más pessoas. Daquelas que apanhamos no caminho da existência e nos recordamos para exemplificar e comparar.

Como na película, e com o que ela ensina, não há nada de errado naquela dupla. O que lhes dá nervos são os colegas, capazes de provocar um turbilhão de vontades, tantas contraditórias.

Ao contrário do que faço em todos os momentos, deixo de ir ao jantar pela presença de algumas almas que por ali habitam. Defendo que se devem recordar tempos difíceis e passar, amiúde, por lembranças menos felizes. Contudo, não é o caso. Mercê do peso, faço uma metáfora culinária: eu odeio peixe cozido, mas o peixe cozido faz bem e lá terá de ir, uma vez ou outra. Aquelas pessoas não são peixe cozido. São dobrada. Não sabe bem. Não faz bem. Numa mesa onde todos comem dobrada, eu como um bife.

Portanto, para dobrada, não vou daqui ali.

segunda-feira, março 19, 2018

O Dia do Pai

Ao acordar, hoje, lembrei-me do meu filho, que me recebeu com um sorriso, como só ele, e do meu pai.
O dia do pai tem essa especialidade. Não olvidamos quem nos amparou e ainda reforçamos o reconhecimento que por eles temos quando somos nós os colocados na posição de progenitores.

O meu pai escreveria algo melhor que estas palavras ao nível da segunda classe. O meu filho, certamente, também.

Foi preciso ser pai para perceber o meu.

terça-feira, março 06, 2018

2012

2012 é o nome do tema abaixo. Uma música que ouvia enquanto sabia do desaparecimento de um ser que para sempre deixou saudades.

Deixando tal de lado, 2012 marca o início de um processo crime que patrocino. Para os meus Constituintes, a dor for outra.

Proprietários de uma empresa, cometeram o triste erro de não pagar aos seus trabalhadores. Nada que seja novo no panorama nacional.

Sucede que um dos ditos subordinados é sobrinho de uma importante jornalista. Daqueles que revela escândalos e denuncia poderosos.

Ao ver que o sobrinho não era ressarcido, montou uma reportagem onde transformou aqueles caloteiros em bodes expiatórios dos males do mundo. Factos falsos, factos retirados do contexto, valeu tudo.

Nos dias seguintes aos da reportagem, na rua, foram chamados de tudo. Ameaçaram queimar-lhes os carros, imputaram burlas.

Ela tentou matar-se e ainda hoje não dorme pelo sucedido. Ele não entra num café da zona sem que lhe chamem um nome daqueles feios.

Acusamos. Requeremos. Fizemos.

Hoje, realizou-se o debate instrutório.

A liberdade de expressão e informação vai ganhar.

Afinal de contas, o que interessa a vida das pessoas?






quarta-feira, fevereiro 28, 2018

Divórcio

O homem não acreditava, o homem queria ouvir.
Queria ouvir da Juíza, queria que fosse aquela entidade mais alta a confirmar que aquilo que tanto sono lhe tirou estava resolvido.
O homem conteve-se. Conteve-se tanto. Queria gritar, partir, fazer sentir a sua presença.
O homem queria, o homem teve.
Hoje, divorciou-se.

Não há como não lembrar Júlio Igrejas. Não pelo repertório, mas porque tem este tema, emblemático da dor de corno, no seu álbum Divórcio.



quinta-feira, fevereiro 22, 2018

Soldador

O suor de um soldador é imperscrutável.
Aquele, em particular, de tudo fez para que nada faltasse em casa.
Cedo se juntou com aquela que seria sua mulher. Casaram num dia bonito, naqueles em que a chuva está de binóculos, lá longe.
Ela queria estudar, mas foi sempre vontade dele trabalhar. Assim foi. Na Bélgica, Holanda ou na Lisnave fazia horas extraordinárias para que aquela côdea viesse calhar-lhe ao bolso e fosse possível remeter para o lar mais uns euros.
Tiveram filhos. Tiveram casa.
Ela deixou de estudar. A rotina que a ocupava deu lugar a longas temporadas de clausura. Ele saía e entrava. Ela ficava. Ele ganhava e partilhava, ela só contemplava.
Não havendo quem mais culpar, tornou-o bode da sua ira. Aquele que amou era, agora, um iogurte estragado, um prado ardido, um chão que já tinha dado uvas. Já chegava daquilo.
Iniciou-se o processo de repulsa, esse estranho fenómeno, composto por tantas camadas quanto a mais ácida das cebolas. Primeiro, deixou de lhe dirigir mais que uns monossílabos. Depois, fechou-se inteiramente, já não lhe pertencendo.
Ele sabia pouco. Sabia de menos. Anos de reparação de navios haviam expurgado o senso do correcto. Só havia o dever, estando esquecido o humano que em todos devia habitar.
Numa noite, forçou. Não, todavia, como qualquer escroque. Quis o que ela não lhe queria dar.
Errou profundamente. Errou para lá do perdoável.
Foi detido. Foi preso.
Passaram-se meses. Dos filhos só chamadas. Um com 10 anos e outra com meses passaram a ver o pai como um fantasma. Sem saberem o que tinha sucedido, só restava esperar pelo dia em que o voltariam a ver.
Ela não foi lenta a reagir.
Rapidamente pediu o divórcio e a guarda total dos filhos.
Ele continuou a pagar o erro profundo, o tal para lá de perdoável.

Já depois de belos meses dedicados ao presídio, foi notificado. Deveria comparecer no Tribunal para uma conferência de pais.
Ao dia e hora, lá estava. Estaria sempre. Muda o facto de a escolta ser substancialmente superior.
Cedeu em tudo. Guarda, residência, alimentos...que havia de fazer?

Lavrada a acta, sem pedir licença, dirigiu-se ao juiz:
 - Posso ver o meu filho hoje?

Como é certinho na escória que habita e parasita o sistema prisional português, a resposta veio, à velocidade da luz, de um guarda que ali estava:
 - Não temos ordens para isso!

Havia, contudo, um Juiz e Procurador naquela sala. Como colocasse aquele traste fardado no lugar, ordenou, simplesmente, que a funcionária trouxesse o menino.

- Estás tão grande, disse ele

Seguiu-se o abraço mais breve e emocionado a que tive oportunidade de assistir.

Quase 5 meses separaram o pai do seu filho. Não porque era mau pai, muito menos porque merecesse esse castigo suplementar.

Portando-se como se fosse dona dos filhos, como o é de facto da sua vida, ela não quis aquela reunião. E disse-o.

Ele voltou para os calabouços. Despedi-me dele como sempre: tenha força.

Naquele dia, o Juiz ouviu aquele rapaz que se agarrou ao pai com lágrimas nos olhos, toldado pela saudade. Das suas declarações resultou a vontade inequívoca de visitar o pai na prisão. A mais nova? Nem os magistrados nem ela foram de parecer que o encontro se concretizasse.

Porque, a bem da verdade, os filhos são propriedade do sistema de justiça e das mães.

Ou assim se pensa.

segunda-feira, fevereiro 12, 2018

Casseta & Planeta - Eu To Tristão

No início desta semana de Carnaval, um Samba.

Não um samba qualquer. Uma biografia. Uma ode. Uma história de vida.
Como já referi numa outra rede social, se antes procurei uma música que me fizesse justiça, essa busca terminou. Está cá tudo.

Assim, temos uma espécie de Marcha Fúnebre com trio eléctrico. Um requiem com D.J.

Deixo a letra, de forma a que se apreenda a subtileza.


Olha o Planeta aí, gente!
Olha a Casseta aí, gente!
Olha a Polícia aí, gente!!!!!!!!

Eu tô tristão, tô sofrendo pra caralho.
Eu me fudi, sou carta fora do baralho.
Mas quem mandou... quem mandou nascer babaca
Ela não quis, e eu fui sozinho pro Maraca
Aos 2 minutos, o Zicão saiu de maca
E lá em casa Ricardão fez gol de placa
Eu tô tristão, tô sofrendo pra caralho.
Eu me fudi, sou carta fora do baralho.
Marquei com ela um cinema e um chopinho
Botei a beca, fiquei todo mauricinho
Levei um bolo, mas já tô acostumando
Um dia é Pedro, outro é Luis, outro é Fernando
Eu tô tristão, tô sofrendo pra caralho.
Eu me fudi, sou carta fora do baralho.
Sou muito chato, eu sou meio mais ou menos
E além de burro, ainda tenho o pau pequeno
Eu sou um merda, um zé-mané, um zero à esquerda
Se eu morrer, ninguém vai sentir a perda
Eu tô tristão, tô sofrendo pra caralho.
Eu me fudi, sou carta fora do baralho.





quarta-feira, janeiro 31, 2018

O tema que vos proponho para hoje é: Fado do Cartaz

Quando cheguei ao escritório, um vizinho cumprimentei.

Meteu conversa:

- Doutor, tenho uma pergunta para lhe fazer que já ando aqui a pensar.
- Diga.
- Está a ver a história toda do assédio? Oh Doutor, então as meninas que andam na rua de mini-saia e grandes decotes...isso não é assédio?. Um colega meu, que já morreu, contava uma história. Numa ilha das Caraíbas, um fulano topou uma menina toda jeitosa e percebeu onde é que ela passava todos os dias. Então, antes de ela passar por lá, deitou umas moedas ao chão e escondeu-se atrás de um arbusto. A menina lá passa, vê as moedas e dobra-se para as apanhar. Calhou levar uma mini-saia e belo decote. Dobra-se e fica-se a ver tudo. O outro, atrás do arbusto, vê aquilo e salta-lhe para cima. Ela lá se queixa e o caso vai ao tribunal. O juiz ordena reconstituição. A menina vestiu o que levava na altura e dobrou-se como havia dobrado. O Juiz decretou uma multa pelo sexo em público e absolveu pela violação, que ela não tinha nada que andar assim. Um gajo, eu não que sou velho, vê uma dessas na rua e tem que pôr a mão no bolso para não dar asneira. Que diz disso?

De maneiras que cheguei ao escritório e fiquei a ouvir fado marialva até agora.




quinta-feira, janeiro 25, 2018

Porque ela mo lembrou

Há quatro anos, na nossa cidade, pedia-lhe fosse minha mulher. Disse que sim.

A minha vida com ela conhece múltiplos episódios, sentimentos, sabores e feitos.

Aquele que mais prezo é a capacidade que teve de me salvar de mim próprio.



quarta-feira, janeiro 24, 2018

A respeito de uma efeméride e da lamentável ignorância

A senhora que, no vídeo abaixo, declama aquela que é uma obra prima da língua portuguesa, veio a falecer na segunda-feira, dia 22 de Janeiro de 2018, aos 98 anos.
Ignorante, desconhecia-a. Como?



segunda-feira, janeiro 22, 2018

Profetas da desgraça

quarta-feira, janeiro 17, 2018

Um tributo a: Carlos Costa, Júlio Costa, Óscar Santana, Benedito Seviero, Tomaz, Dean Landon e um bocado de Palma.

10 anos.

Não tinham mais de 10 anos quando se viram pela primeira vez. Aquelas almas.

Não lhes faltava mundo, mas faltava espaço. Para correrem, andarem de bicicleta, enfim, para serem crianças e brincarem.

Roberta, aos ditos 10 anos, vivia em Vila Nova de Gaia, numa ruela que descia e tratava de apresentar uma das mais recentes caves de Vinho do Porto. Joaquim, na mesma idade, estava em Coimbra, depois de ter nascido e vivido, ainda que por pouco tempo, em Aveiro. Qualquer coisa com um negócio que se frustrou, não se percebeu bem.

Roberta e Joaquim conhecem-se desde os 6 anos de idade. As respectivas professoras primárias trataram de criar um programa de correspondência com outras escolas. As ditas professoras, amigas desde sempre, lá arranjaram maneira de colocar as respectivas turmas de que eram responsáveis a corresponder-se. Então, semana sim, semana não, lá se organizava um lanche num café ao pé dos correios, onde, entre bolas de berlim e pasteis de nata, os miúdos punham a escrita em dia e endereçavam as missivas aos destinatários atribuídos aleatoriamente.

Foi nesses moldes que se iniciou a amizade de Roberta e Joaquim.

Na altura, não havia qualquer início ou sugestão de rede social. A carta, reconhecendo, à luz dos dias de hoje, o avanço que trouxe um facebook ou whatsapp, tem uma mística incontornável: o toque, a personalidade vertida na caligrafia...é todo um mundo.

Acaba a instrução primária, nem por isso deixaram as professoras cair aquele que tinha sido um projecto bem sucedido. Um ano após as despedidas, indo cada aluno para seu lado, foi possível assistir a uma reunião de todos, mas de todos mesmo: alunos da mesma turma e da turma com que se correspondiam. O ajuntamento teve lugar em Lisboa, consistindo num fim-de-semana cultural, com visitas a museus bibliotecas, faculdades, mas também centros comerciais e ao tão badalado Hard Rock Café.

Quando se viram ao vivo e pela primeira vez, Roberta e Joaquim aparentavam já se relacionar pessoalmente há anos. Não houve incómodos, vergonhas, hesitações. Passaram todo o fim-de-semana em permanente contacto e quando tiveram que regressar, sem qualquer tristeza, trocaram um "até já".

Entretanto, a vida foi acontecendo.

De uma troca de cartas semanal, passou-se para uma ida aos correios de 6 em 6 meses e, passados 2 anos, cessou a remessa de missivas.

Em meia dezena de anos, ambos não passaram de uma ténue recordação um do outro.

Com a maioridade, entraram ambos na Faculdade. Roberta, depois de falhar o curso de medicina, seguiu para anatomia patológica. Joaquim, como sempre quis, entrou no Técnico, para engenharia civil. Ficaram ambos em Lisboa.

Nunca o souberam. Concluíram os seus cursos com modesto sucesso e, não obstante terem sido ferozes frequentadores do Cais do Sodré e do Lux, ainda não teria sido naquele momento das suas vidas que se haviam encontrado.

Ambos de famílias ditas tradicionais, com a mestria e sincronização de um relógio, arranjaram companheiros e datas para casar em simultâneo.

E é a partir daqui que nunca mais se vão largar.

Sentado à janela do Restaurante "Derbi", na Rua das Portas de Santo Antão, Joaquim pede um prego e uma imperial e "já agora, o Correio da Manhã". A noiva tinha ido a um musical do La Féria com os pais e Joaquim não estava para ali virado. Sem nada melhor para fazer, foi ler e comer qualquer coisa antes de se aventurar na Rua do Ouro. No dito jornal, o costume: fome, peste e guerra. Decidiu avançar para as últimas páginas, onde era costume publicitar os óbitos e, às vezes, os casamentos. A primeira leitura transmitiu um choque: tinha morrido o Alfredo, antigo presidente da Junta de Freguesia. O Alfredo tinha exercido o cargo na altura em que se deu o encontro entre as turmas do Joaquim e da Roberta. De resto, a Junta tinha dado uma ajuda para pagar a gasolina e os bilhetes dos museus.

Estranho. Há anos que o Joaquim não se lembrava da Roberta. Não obstante o pesar que a morte do Alfredo causava, a lembrança da Roberta vinha apertar-lhe o coração.

Tentando fugir desse sentimento, prosseguiu a sua leitura. Foi pior.

Logo abaixo da foto do Alfredo, fazia-se um anúncio: Roberta Marques (era esse o apelido dela) e Sérgio Outubro iriam casar-se, dali a 5 meses, em Campo Maior.

Antes do choque, antes de qualquer outra emoção, Joaquim fez uma pergunta: "Campo Maior?! Por que raio em Campo Maior?"

Até àquele momento, Joaquim nunca tinha pensado em Roberta como "a tal", mas, agora, o sentimento de perda estava para lá de irreparável. Roberta, a Roberta que ele tinha conhecido, cabelo preto, olhos castanhos, tão banal mas tão única.

Isto não podia ficar assim. Não podia, simplesmente.

Com uma paciência que nunca teve, Joaquim esperou 5 meses. 5 longos meses. Mas, ao dia e hora indicados, apareceu à porta da Igreja.

Roberta optou por um casamento dito elegante: casou de noite. A contrastar com o seu sentido de elegância estava o noivo. Enquanto Roberta convidou familiares próximos e apenas amigos especiais, Sérgio convidou toda e qualquer espécie de mamífero com quem já tinha bebido um medronho. Enquanto Roberta quis optar por uma iluminação e decoração discreta, Sérgio impôs a sua vontade e contratou uma empresa de iluminação que fazia aquela igreja parecer o velho Estádio de Alvalade em dia de concerto e uma decoração digna de um qualquer ilustre membro de White Trash televisionado pelo TLC.

Voltando a Joaquim, antes do começo da cerimónia tratou de entrar na igreja e escolher um sitio recatado, não fosse o diabo tecê-las. Ao ver aquele aparato todo, não se manteve de pé. Mal tocam os primeiros acordes da Marcha Nupcial apenas a sua cabeça consegue rodar no sentido da noiva. Como manda a tradição, caminhou até ao altar de braço dado com o seu tio, padrinho designado.

Nem um mandingo cozinhado vivo sofreu o que Joaquim sofreu. A face de Roberta foi-se abrindo com o decurso da liturgia. Quando foi permitido que Sérgio beijasse a noiva, Joaquim quis sair, mas as pernas discordaram.

Finalmente, acabava a cerimónia. Arroz, fotografias, enfim, o "Aceito" da praxe.

Joaquim acercou-se de Roberta. Sem força para mais, apenas murmurou: "Felicidades".

A expressão de Roberta mudou. Não precisou de segundo algum para conhecer aquele vulto assustado. Mas estava surpreendida: "aquele, aqui?". Todavia, não conseguiu responder. Nem um mero "obrigado". Apenas lágrimas. Sérgio perguntou o que se passava. "Estou tão feliz", disse Roberta.

Veio novo hiato de tempo. Foi tremendo o que Joaquim fez a Roberta. Nem a mesma esperava algo assim: nunca esqueceu aquele momento. Consequências: um matrimónio infeliz.

Nem decorrido um ano desde as bodas, Sérgio voltou à sua vida de sempre. Metido em bares duvidosos, gastando todo o dinheiro em putas e vinho verde. Em casa tinha Roberta, mas no Bar tinha as que uma nota de 50 podia pagar. Os dias passaram todos a ser iguais, Sérgio saía de manhã cedo para o trabalho. Era soldador ali perto. Inacreditavelmente, era pago ao dia. Entrando cedo, saía tarde e nem passava por casa. Era directo para o "Violino", um "estabelecimento" de má fama, a alguns 10 kilometros de sua casa, que oferecia tudo o que Sérgio queria comprar: tosgas, gajas e música barata. A frequência era composta ou por senhoras à procura de uma emoção forte, grátis ou onerosa e cavalheiros dispostos a fornecer o frete. Invariavelmente, chegava bêbedo a casa e só aterrava na cama. Nunca foi violento para Roberta. Simplesmente, não queria saber dela. Podia Roberta gritar, partir o que quisesse, Sérgio não estava em modo ouvinte.

Naquela noite de sexta, verão quente, Sérgio estava no "Violino" com um copo de tinto à frente. A música estava ao rubro. Cordas e metais fundidos num som estridente. Tudo dançava, todos vibravam. Para Sérgio, a seguir àquele copo tinha que se seguir um bom quarto de hora na companhia certa, no andar de cima. Levou a mão ao bolso para se assegurar que trazia provisão. Desfeita a dúvida, começou a inspeccionar a casa, para ver o que lhe ia tocar.

Eis senão quando entra uma senhora distinta. Elegante. Bem vestida. Uma dama. Era Roberta.

Roberta tinha-se cansado da vida que levava e decidiu pôr-lhe um fim. Propositadamente, foi ao "Violino" com o melhor fato do roupeiro, mas os melhores sapatos que tinha e com aquele perfume francês desconhecido da maioria das moças das redondezas. Toda ela cheirava e parecia bem. Sérgio afastou o copo e olhou 3 vezes. Era mesmo Roberta.

No dia seguinte, o falatório instalou-se. "Roberta tinha deixado cair o manto de mulher honrada." Sérgio, estranhamente, ou não, gostou daquela faceta. Se outrora via Roberta como a Madre Superior, aquela apresentação, e logo no lugar onde foi, despertou interesses que se julgavam prescritos.

De todo o modo, aquele casamento acabou. A ida de Roberta ao "Violino" mais não foi de que uma carta de interpelação, avisando para o fim da relação. Sérgio não deu luta. Assinou o que tinha de assinar e seguiu cada um o seu caminho.

Roberta podia agora procurar Joaquim.

Joaquim, por sua vez, sem se casar, e praticamente depois do episódio do casamento, fazia vida com Maria João, uma funcionária da Câmara Municipal com que se cruzou em trabalho. Ambos liberais nos costumes, decidiram que se iam casar "se" (e só "se") viesse um bebé no caminho.

A vida que Joaquim levava era aquela que sempre tinha querido. Trabalho certo, por conta própria e com clientes que vieram a tornar-se amigos. Jantaradas com amigos, teatro, cinema, viagens. Já se tinha esquecido de Roberta. Maria João tinha sido elevada ao posto de "amor da sua vida".

Depois de sair de casa, Roberta foi viver para uma cave na sua terra Natal. Sem fazer disso a sua única razão de viver, Roberta queria mesmo encontrar Joaquim e perceber, afinal, o que foi ele fazer ao seu casamento.

Número de telemóvel não tinha. Morada também não. Iria ser graças a uma amiga comum que voltaria ao encalço do seu pen pal. Com efeito, ao tomar café com Júlia, Roberta contou-lhe a respeito da sua vontade de encontrar Joaquim. Júlia, amiga de Roberta desde a primária, não demorou a contar que Joaquim trabalhava perto da sua casa e que, caso ela quisesse, entre as 18 horas e 18 e 30 não teria como escapar-lhe.

Foi no dia seguinte. Esperar não era para ela.

O encontro deu-se.

Roberta, se calhar sem medir as palavras, declarou-se a Joaquim. Disse que ele foi sempre o "homem da sua vida". Que o soube sempre, mas nem sempre o percebeu.

Joaquim estava perdido.O que era aquilo agora? Porquê agora? Por que razão se agarrava ela a ela e pedia que "tentassem"? Porquê agora, quando ele já tem alguém? Porquê agora, quando a sua vida se refez a tanto custo?

Roberta segurava o rosto de Joaquim. Este, segurando os pulsos de Roberta, afastou-lhe as mãos da cara. Acto contínuo, deu-lhe um beijo na testa.

Roberta percebeu que a água não passa duas vezes debaixo da mesma ponte.

Adeus, Roberta.

Adeus, Joaquim.



quarta-feira, janeiro 10, 2018

Um mail do antigo patrão e da autoria da performance - Uma memória que, pelo tamanho, ninguém lerá

A certa altura da minha vida, fui "destacado" para Cascais onde estive duas semanas a exercer furiosamente (no bom sentido) a minha, vamos lá, desgraçada profissão.
Perto de se completar dois anos desde esse episódio, recordo um outro que se lhe antecedeu e, até, lhe deu causa: a minha saída do meu primeiro emprego.

Com efeito, após concretizar as minhas suspeitas de anos, cheguei a um estado de impossibilidade. Impossibilidade de continuar a ouvir as mesmas vozes, as mesmas conversas, os mesmos tiques. Salvaguardando o aspecto pessoal, que existia, e existe, comuniquei a minha decisão, profundamente triste com o tempo ali perdido, saindo de uma casa onde fiz estágio e nasci para o contencioso legal.

Seguiu-se um mini-mini-mini-empreendimento, que hoje se mantém, a que se juntou uma aposta/tentativa de voltar ao fenómeno-societário-por-conta-de-outrém. Dali também saí, como disse, volvidas duas semanas, sem, contudo, nunca esquecer a maravilha de tratamento de que fui alvo. Objectivamente respeitado, supimpamente bem tratado. A ruptura acabou por se dar só por um factor: o pecuniário. Eu moro na Margem Sul e o posto de trabalho era em Cascais. O que se recebia, depois de gasolina, portagens, impostos e contribuições, era inferior ao que ganhava no tal mini-mini-mini-empreendimento. Guterres dixit: é fazer as contas.

Nos meus caminhos para lá, preferia ouvir rádio. A que tivesse menos "momentos de boa disposição com a sua companhia das manhãs" era a que sobrevivia.

Um dia, passou este tema (expressão que, ao que sei, é odiada por Tozé Brito, que diz que "só existem canções"), que abaixo partilho, directamente do youtube, essa maravilha dos tempos quase modernos.

Para pessoas do sexo masculino mais ou menos desprovidas de emoções, algo que almejo ser mas não sou, trata-se de mais uma composição, podendo ver-se algum lado satírico, uma vez que se tratar de uma cover de um tema de uma conhecida cantora (agora) pop.

A mim deu-me para pensar. Para já, não sabia o que queria dizer, verdadeiramente, bad blood. Sangue mau têm alguns doentes, não fazia sentido. Ao perceber o que se pretendia, como é recorrente em quem tem uma saúde mental desprovida de futuro significativo, como eu, fiquei algo contente. Não tenho bad blood com ninguém. Nem com aquela alma que me chegou a dar estágio e a lembrar-me, diariamente, que a minha média à saída da faculdade (que nem é nada demais) e a minha performance profissional estavam a continentes de distância (palavras minhas, não dele. Era o que faltava usar qualquer género de recurso linguístico ou figura de estilo).

Perdeu-se o original vínculo "laboral", mas nem por isso se perderam as pessoas que comigo cumpriam a vida naquele gulag. Todas as semanas existe um ajuntamento "comezainico" para fomentar o espírito.

Com a alma patronal, limitaram-se os contactos ao facto de lhe remeter correspondência física e electrónica de processos judiciais que lhe pertencem.

Até que ontem, uma colega que por lá milita celebrava o seu aniversário e fez questão de me convidar para o almoço laudatório da efeméride. Foi leal e avisou: meu caro, o "Doutor" vai lá estar e o "Irmão" também.

Lá fui. Lá me sentei ao pé daqueles fantasmas. O "Doutor" está muito mais magro, diria, alguns 50 quilitos mais magro. O "Irmão" está careca a fazer lembrar um piçalho obeso.

Não foi bom, não foi agradável, mas foi necessário. A conversa foi aquela a que se costuma rotular de circunstância. Tempo, bola, filhos e piadas secas.

Foi necessário porque cheguei a prometer que não mais haveria contactos alguns. O necessário, profissionalmente, é necessário e chegando aí parou.

Hoje de manhã, na minha caixa do correio electrónico, estava um mail dele. Uma resposta a um mail meu de há uma semana.

A cortesia, o trato, a educação. Claro, não se coibia de falar mal de uma antiga Colega, uma desertora parecida comigo, mas que não se conteve na hora da saída e arremessou uns impropérios janotas ao bicho.

Considero-me, assim, um morto, um falecido, pelo menos, aos olhos daquela instituição Seixalicoalmadense.

Dos mortos ninguém fala mal.

Acho que, agora, posso encerrar um capítulo.

Nada na vida é estanque e estarei sempre sujeito a fendas no casco que trarão, de forma praticamente inevitável, as águas dos eventos e pessoas passadas. Só que, aqui, superei um desdém que pensava invencível e voltei a partilhar uma mesa com aqueles resquícios. Falamos bem e, penso, não nos enxovalhamos mutuamente nos círculos profissionais.

Não foi a pior maneira de começar o ano.




sexta-feira, janeiro 05, 2018

Problemas com a Droga - Vol.VII

O périplo acaba com uma lição.

"É assim que a gente ganha uma vida na vida".


Problemas com a Droga - Vol.VI

Quase a acabar a amostra, vamos para lá do Atlântico.

Onde "tem genti qui sabi".

Problemas com a Droga - Vol.V

"Estou agarrado à Droga, esse veneno maldito".

Sem dúvida, sem dúvida.

Neste quadro, complementando uma melodia forte, belas imagens de um dia feliz. Uma sobrinha casada. Quem nunca?


Problemas com a Droga - Vol.IV

Chegamos ao ponto do verdadeiro lacrimejar.
Uma etnia fustigada pela peste do século XX. Pessoas honradas e trabalhadoras que caiem na armadilha do estupefaciente.

Problemas com a Droga - Vol.III

Escárnio.
Deplorável.


Problemas com a Droga - Vol.II

Por alguma razão, não se consegue incorporar outro espelho da dor.



Contudo, mais um testemunho. Uma lição. Um sotaque.

Problemas com a Droga - Vol.I

Nos anos 90, Maria Teresa Maia Gonzalez deu à estampa a "Lua de Joana". A par d' Os Filhos da Droga", na literatura, e Trainspoting no cinema, estamos a falar de contributos para o espelhar de uma dura realidade.
Pois bem, faltou o impulso musical.


quinta-feira, janeiro 04, 2018

Na viragem para os 32

Aquela que acabou por se tornar um hino pessoal. Tipo Personal Jesus, mas nem tanto.

É que há tanto por fazer que não se evitam as saudades do futuro.

Tanto que se viveu...que não há como perguntar o que falta.


quinta-feira, dezembro 14, 2017

O Assassínio de um Astronauta na Lua

Não dá cadeia.

É um crime sem gravidade.




sexta-feira, novembro 10, 2017

Um Post Pessoal para Reflexão Própria

Estou a pensar deixar o Facebook.

Dou mais uma semana para perceber.

Ao fim e ao cabo, este exercício deveria ser cíclico. Por não ser, levantam-se estas questões.

O Mar

Dias de muito, vésperas de nada.

Parece que tudo chega em ondas. Tanto na vida pessoal como profissional.

De um momento para o outro, tudo. Coisas com interesse e outras nem tanto. Trabalho, telefonemas, tudo para ontem.

No frio, lembro-me do calor da praia e de lá estar, à espera de entrar.

sexta-feira, outubro 20, 2017

Os Homens não choram

A banda de Robert Smith, há largos anos, cantava Boys Don't Cry, todavia, com um seguimento lírico que aqui, no meu caso direi, não se aplica. Importa, não obstante, a máxima: um pénis implica o encerramento de canais lacrimais.

Só que não.

No dia 20 de Outubro de 2016, estive várias horas no Hospital de Cascais à espera de romper com o entendimento expedido. Aconteceu, claro.

Note-se, o aspecto mais importante da vida, a par da beleza, é mesmo o amor. Não há volta a dar, ainda que sejamos os mais intrépidos defensores da masculinidade.

Quando testemunhamos a manifestação mais básica do amor, difícil se torna não reagir. Palavras não bastam. Acções? Quais acções?

Por esta hora, há um ano, almoçava um prato que só me sabia a futuro, a questões, a preocupações.

Sabia, contudo, que a vida nunca mais ia ser a mesma. Porque existia mais alguém. Porque eu, de uma forma que nunca imaginei, me dividi.

Não tenho qualquer espécie de dúvidas que está no meu filho o melhor de mim. Oxalá chegue onde quiser.

Parabéns, meu filho.

quarta-feira, outubro 04, 2017

Num mundo alternativo - Post altamente desinteressante

Vamos imaginar que o Bastonário da Ordem dos Médicos comparecia na novíssima inauguração de uma Clínica da Mello Saúde, Germano de Sousa ou outra afim.
Vamos imaginar que o Bastonário da Ordem dos Engenheiros comparecia na inauguração de uma nova sede da Motaengil.
Vamos imaginar que o Bastonário da Ordem dos Contabilistas Certificados comparecia na inauguração da nova da casa da PWC, Anderson (ainda existe?) ou KPMG.

Que juízo mereceria?

Agora, vamos trocar. Em vez do Bastonário da Ordem dos Médicos, pense-se no Ministro da Saúde. Do Bastonário da Ordem dos Engenheiros, o Ministro das Obras Públicas ou Infraestruturas, como é agora. Em vez do Bastonário da Ordem dos Contabilistas Certificados, o Ministro das Finanças.

Que juízo mereceria?

Esta semana, o Bastonário da Ordem dos Advogados e a Ministra da Justiça compareceram à inauguração da nova sede da Abreu Advogados.

Que juízo merece?

Há cerca de 30 mil advogados neste país. Todos os anos se batem records de inscrições no sistema de acesso ao direito, ou seja, todos os anos há mais advogados oficiosos.

A tabela de remunerações do dito sistema não é actualizada há looooooongos anos.

Cada vez mais se queixam os profissionais do foro dos recursos financeiros que têm de afectar ao pagamento da caixa de previdência, para no fim terem uma reforma miserável.

Em contrapartida, há menos clientes, ainda se sentido as dificuldades da crise económica. Os que aparecem pouco podem pagar.

Por outro lado, de forma sistemática, somos brindados com publicações e editais informando das sanções aplicadas aos Colegas.

Os que querem ser advogados pagam o que têm, mas sobretudo o que não têm.

Os negócios e grandes adjudicações de prestação de serviços jurídicos são sistematicamente atribuídos aos mesmos grupos.

Que juízo merece?

Quantas vezes vimos um Bastonário a visitar um Colega em prática individual e a querer saber o que o apoquenta?
Quantas vezes vimos algum Ministro da Justiça a fazer o mesmo?
Quantas vezes é que algum Ministério contratou os serviços de alguma sociedade não sediada em Lisboa ou Porto para efectuar projectos de lei a aprovar?

Na profissão, como na vida, os pobres que se desenvencilhem.

terça-feira, outubro 03, 2017

Como diz o João Lopes: Sobriedade e Rigor

quarta-feira, setembro 27, 2017

Há 3 anos




Ele cantava e ela tinha acabado de perceber no que se tinha metido :)

sexta-feira, setembro 22, 2017

Questões

A pobreza e a cultura.

Só ontem soube "o" que era João César Monteiro.

Depois de perorar internamente sobre a pobreza e as suas múltiplas formas, percebi que a pior delas é o desconhecimento.

Agora penso: "o que é isto?".

Será mau gosto? Genialidade?

O trecho é de um filme que (ainda) não vi. Do autor assisti ontem a um. Ao (teoricamente) primeiro da Trilogia de Deus. Pendo para a genialidade.

Mas pode haver genialidade com tamanha boçalidade?

Aparentemente, sim.


segunda-feira, setembro 11, 2017

Pequeno texto sobre perdas de tempo

Pensemos numa pessoa. Pode ser um homem. Digamos que é careca. Para aguçar, idealizemos que tem uma cara semelhante àqueles tantos desgraçados que padecem de uma qualquer deficiência.

Vista a personagem, escusamo-nos de carregar mais atributos. Lembramos, somente, que nenhum homem é uma ilha e, como tal, tem amigos, pais, tios ou até mesmo filhos.

À partida, não há nada de errado. As pessoas são o que são e não têm que pedir desculpa por nada. Pode haver problemas com a justiça, mas isso é uma outra sede.

Este homem chegou à vossa vida. Não sabemos como e apenas suspeitamos do "porquê". Quanto tempo é que lá aguenta?

sexta-feira, setembro 08, 2017

Agora, numa toada mais profissional

Não há ninguém que ensine a "montar" uma grande petição inicial.

Não estou a dizer que não há ninguém que ensine a fazer uma petição inicial. Nada disso.

Montar uma grande petição inicial. Assim, com tudo. Bem escrita. Bem dirigida. Bem montada.

E eu tenho um problema com coisas que não se ensinam...porque jamais as aprendo.

quinta-feira, agosto 31, 2017

A chamada "Gaita"

Percebi que os dois últimos posts divulgam músicas da mesma banda.

Está atestada a profunda falta de interesse, conhecimento e cultura de que padeço.




Ontem pensei em sair do Facebook.

Pronto, obrigado e boa noite.

Hoje

Ouvi isto hoje.

Era tão familiar. Quantas vezes terá sido travesseiro?

Estará a resposta à pergunta que é o título na letra?

Para mim faz sentido.

Ouvindo isto hoje.



quarta-feira, julho 12, 2017

Por estes dias

A minha melhor metade tem um hábito de que não comungo: ouvir em repeat as músicas que lhe aprazem.

Para todo o traço de carácter há uma excepção. Esta música tem sido a dita excepção.

"Vamoláver", não estamos perante uma música que possa ocupar o top 25 da banda. Acontece que isso não interessa para nada, especialmente quando a banda é esta.

E não interessa para nada porque cada tema é como o Homem na definição de Ortega y Gasset: aquilo que é a as suas circunstâncias.


sexta-feira, maio 26, 2017

O "quando"

Jigoro Kano foi o fundador do Judo. Pequeno, de constituição débil, conseguiu trazer ao mundo um desporto em que só interessa não ser derrubado.

Com o advento do Judo não faltaram analogias e princípios de vida associados. Aquele que retive poderia chamar de "parábola do salgueiro". O salgueiro, árvore conhecida, torcia, mas nunca quebrava. O vento passava e ele vergava, só para logo depois voltar ao sítio. Alguém trepava por ele acima, ele vergava, só para logo depois voltar ao sitio.

Já Nuno Markl, numa rubrica que tem na Rádio Comercial chamada "Baladas do Dr. Paixão", poderia dizer que isto mais não é que uma frase inspiradora de facebook com pôr-do-sol atrás. Gente mais mal intencionada poderia atribuir isto ao Gustavo Santos ou, no limite, ao Nuno Espírito Santo.

Pela minha parte, nem sei bem a razão de ter sacado destas "lembraduras"  a propósito do que vou escrever. Talvez lá para o fim aconteça a luz.

A 25 de Maio de 2007 tinha medo. Estava aterrorizado com a hipótese de falhar. Esta sensação ocorre quando tenho a absoluta certeza que me lancei para fora de pé. Tinha lançado. Ainda hoje o acho. Há expressões equivalentes: areia a mais para o meu camião; ela é de outro campeonato; nas palavras de Gabriel, O pensador: muita ração para minha tigela.

Ainda acho que não saí da Faculdade. Ainda estou naquela noite. Lembro-me perfeitamente quando me fui embora, não obstante. Incrível, mas foi: pensava que estava a deixar a minha vida toda para trás. Não partia como um todo. 

E dos palhaços que disto falavam e isto diziam só me podia rir.

Tocou-me. Chegou a vez de perceber o que era a poesia e algum fado. Chegou o momento em que deixei de ser um ser inteiro. 

Hoje aqui escrevo. Dez anos depois. Pouco menos de 4000 dias.

Sendo o mesmo, não sou. Sonhando, estou acordado. Outrora sozinho, agora com ela.

Juntos. 

Ao sabor do vento, vivendo a vida. Torcendo, nunca quebrando, para logo depois voltar ao sítio.

A nós.

sexta-feira, maio 19, 2017

O meu caro amigo Eduardo

O estimado cavalheiro que menciono no título remeteu-me uma missiva electrónica referindo que, graças a este estaleiro, se tinha lembrado de que hoje era dia do Advogado.
Depois de mais umas mensagens trocadas, lá se estabeleceu que ele tinha lido qualquer coisa no blogue daquele ser "todobom" que é a minha esposa.

Adiante.

O meu caro amigo Eduardo teve sempre o especial talento de me fazer escrever. Lembro-me, inclusivamente, numa sala obscura de uma qualquer aula prática, tida na faculdade, de me ter dito: "olha, cá está uma coisa para meteres no blogue".

Dito isto, cá vai "qualquer coisa".

Hoje é dia de São Ivo, padroeiro, entre outras coisas, dos Advogados, ofício que exerço, ainda que vagamente contrariado.

A Advocacia moderna, não obstante do que vem sendo dito, tem práticas milenares. Por outro lado, o mercado e forças deles constantes trataram de diferenciar negativamente os elementos da classe.

Sendo mais especifico, o glamour da tv e cinema fizeram da advocacia algo que ela não é. Mas com isto vivemos bem. A mentira faz parte da vida e sem ela não existe a verdade. O que me choca é o poder dos media. Para além dos espaços televisivos onde se sentam Advogados que, tendo notoriedade, não são necessariamente mais competentes, temos algo mais recente: as revistas. Com efeito, há revistas próprias e criadas para promover advogados e seus escritórios, revistas que se subsidiam com o dinheiro que os advogados pagam para lá aparecer.

Neste dia, quero propor algo diferente: uma revista que só fale de pequenas sociedades e advogados em prática individual que ainda respiram graças à máquina.

O nome: Zés das Couves

Periodicidade: Diária (Claro)

Tamanho: A4, 35 páginas

O m.o seria o seguinte: Começavam a cobrir o Algarve e iam subindo até chegar a Monção do Minho.

Na capa, o advogado mais "porta de cadeia" da zona.

"Ildeberto Costa é advogado na Comarca de Odeceixe  há 10 anos. No seu CV conta já com a defesa do gang do Medronho, o cartel das Laranjas e a absolvição de Joaquim "Marreco", conhecido por alterar marcos dos terrenos a pedido. Ildeberto tem este nome em homenagem a S. Ildeberto, padroeiro das virgens ofendidas, devidamente compensadas em pedido cível 100% procedente. Hoje, Ildeberto abre as portas do seu escritório, sito no Centro Comercial "SolMar". Lá dentro, serve-nos um Nescafé com cheirinho".

Feliz dia do Advogado.




quarta-feira, maio 17, 2017

sexta-feira, maio 12, 2017

Supondo

Que o Vitória ganha na Luz;
Que o Salvador se engasga;
Que o Papa refere gostar muito de Lourdes.

Que fim-de-semana temos?

Reflexo

Hoje, sonhei que rapava o cabelo.

Nada de chocante, como em tempos fiz. Máquina 4.

No sonho, dava indicações erradas e adormecia. Ao acordar, aquilo. Não era um "corte" qualquer. Era semelhante ao de um conhecido Chef Jugo-Luso.





O meu subconsciente anda viciado.

terça-feira, maio 02, 2017

Memória

Pensar na Streisand. Gatos?

Ainda que em código, há que registar. Há que manter ao alcance.

A propósito do tema abaixo, e remetendo (como fiz numa conversa tida com a esposa) para o High Fidelity, na cena específica onde se fala num determinado conjunto de canções para determinado momento da "vida" (cá está, codificação, ainda que da pobre), esta é uma delas.

Podia ser "a do momento". Por tudo. Sobretudo, pela ironia.



quinta-feira, abril 06, 2017

A poluição da blogoesfera

Fitter, happier, more productive
Comfortable
Not drinking too much
Regular exercise at the gym
Three days a week


Um problema clássico é aquele que medita sobre o nosso lugar no mundo. Podemos ver isto de uma perspectiva mais ampla ou, então, centrar a discussão em nós próprios.

Francamente, marimbo-me para a perspectiva ampla. A humanidade que trate dela, enquanto todo. Tem a eternidade para isso.

Contudo, se penso neste corpo claramente fora de prazo e na eventualidade de alma que o habita, fico indisposto.

O meu lugar no mundo está errado. Deduzo isto através de um princípio de inversão e observação com pena. Penso em bêbedos. Penso em drogados. Penso em que gente que fez outras escolhas. Depois, penso em mim.

Há, essencialmente, três atitudes que todos temos perante um bêbedo. Falo de bêbedos crónicos, alcoólicos, não é de verdinhos em Calpe.

a) Nojo. Queremos que ele vá à vida dele.
b) Gozo. Se o bêbedo arrastar a voz e disser que "O Salazar é que foi um grande home" o dia está ganho.
c) Pena.

A pena é o ponto. Pena. Porquê? Porque "está a estragar a vida", porque "havia potencial", porque "a idade devia dar outro discernimento", enfim, penas para todos os gostos e situações.

A pena deriva de uma comparação. Que a tem, para com outrem, tem-na porque conhece gente feliz sem lágrimas e com modesto ou abundante sucesso. Gente que, não como o bêbedo que vislumbram, pôs ao seu serviço o potencial que detinha.

O bêbedo representa a antítese daquilo que poderia ser a vida. É a negação da concretização. É a confirmação da desgraça.

Posto isto, eu.

Passada a barreira psicológica dos 30, voltei a pensar nos feitos. O número é redondo. Tão redondo quanto um zero pode ser.

Há realizações pessoais, claro. Há motivos pelos quais lutar. Felizmente, todos eles externos. Só podia.

Dei por mim a liquidar (no sentido fiscal) os talentos e capacidades. O número é bonito. Tão bonito quanto um zero pode ser.

Dei por mim a pensar que, se fosse eu o bêbedo, ninguém sentiria pena. Corresponderia ao meu lugar no mundo. Ao olhar para mim, quando noutro caso haveria pena, no meu caso haveria um aceno de cabeça, confiante, como se dissessem: "Cada um é mesmo para o que nasce".

Devia ter-me desviado de um hipotético caminho do natural há anos. Teria poupado os que me estão próximos à minha natural "chatice".

Já sendo, deveria ser, ainda mais, um farrapo humano. Com um prazo muito curto de vida.

Não digo drogas. Digo álcool.

O meu lugar no mundo é o de farrapo. 




Em diante. Dizer em diante. Ser dito em diante. Dalgum modo em diante. Até de modo nenhum em diante. Dito de modo nenhum em diante.

Dizer por ser dito. Desdito. De ora em diante dizer por ser desdito.

Dizer um corpo. Onde nenhum. Mente nenhuma. Onde nenhuma. Ao menos isso. Um lugar. Onde nenhum. Para o corpo. Estar lá dentro. Morrer-se lá dentro. E sair. E voltar lá para dentro. Não. Sair nenhum. Voltar nenhum. Só entrar. Ficar lá dentro. Em diante lá dentro. Parado.

Tudo desde sempre. Nunca outra coisa. Nunca ter tentado. Nunca ter falhado. Não importa. Tentar outra vez. Falhar outra vez. Falhar melhor.




samuel beckett
últimos trabalhos de samuel beckett
tradução de miguel esteves cardoso
o independente / assírio & alvim
1996

quinta-feira, março 30, 2017

Erros de percepção, sejam mútuos ou não

"Centeno rejeitou ter mentido na polémica sobre as declarações de rendimento e património da equipa de administradores da CGD liderada por António Domingues. Admitiu, contudo, um "erro de percepção mútuo", que levou Domingues a acreditar que a sua equipa estaria isenta de entregar aquelas declarações ao abrigo das alterações ao Estatuto do Gestor Público."

in: aqui 

Depois desta célebre expressão, que supra transcrevo, vieram a terreiro centenas (para ser conservador) de "tudólogos" explicar que isto não existia. Que um erro de percepção nunca pode ser mútuo", uma vez que a percepção é feita por uma pessoa, ou até mais, não pode é ser mútuo, porque, se uma pessoa explica, a outra percebe ou não, mas não podem as duas "não perceber".

Mantive-me céptico.  As possibilidades são infinitas e, como dizia o Dr. Malcom, "life finds a way".

Na passada terça-feira, life found a way.

O Samsung que me acompanha há três anos tocou. Do outro lado, uma voz. Dizia a mesma que trazia feedback positivo e que, qual encontro à americana que correu bem, queriam voltar a falar comigo.

O que sucedeu? Um erro de percepção mútuo. Na conversa que tive, uma conversa a três, para ser rigoroso, comprova-se que ninguém percebeu "ponta de corno". 

Pela minha parte, claro que não percebi o iter da converseta. Pela parte deles, não perceberam a verdade dos factos.

(E sim, estou a ser propositadamente vago).

Ergo, 

Erro de percepção mútuo.

O me quererem ver novamente, erro de percepção. Violadíssimo o princípio da causalidade. É como accionar o seguro sem sinistro.

O ser chamado, erro de percepção. Violadíssimo o princípio da culpa. É preciso ter consciência. Deixei-a em casa.

De parte a parte.

É mútuo.

Enfim, foi giro.

Uma esboço de reacção

De acordo com a Wikipedia, "Manuel João Gonçalves Rodrigues Vieira (Lisboa, 17 de outubro de 1962) é um músico e pintor português.

Filho mais velho do pintor português João Rodrigues Vieira, estudou na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa e foi membro do movimento homeostético, em conjunto com Pedro Proença, Pedro Portugal, Ivo Silva, Xana, e Fernando Brito. É professor na Escola Superior de Artes e Design de Caldas da Rainha.

Fundador e vocalista das bandas Ena Pá 2000, Irmãos Catita e Corações de Atum, criou e encarnou diversas personagens em palco, como Lello Universal, Lello Minsk, Lello Marmelo, Orgasmo Carlos, Catita, entre outros. Recentemente uma sua biografia fictícia foi alvo de uma série de seis episódios intitulada Mundo Catita, transmitida em exclusivo na RTP2, em 2008, editado em DVD, em 2009 e, exibida na SIC Radical em Dezembro de 2010.

Foi um dos proprietários do Cabaret Maxime, junto à Avenida da Liberdade, em Lisboa.

Anunciou a sua candidatura a Presidente da República Portuguesa, em 2011 e em 2016."

Isto é dizer pouco. A biografia de alguém é, como terá sempre de ser, constituída por factos, de preferência o mais concreto possível. Mas é mais. Há sempre a marca que o biografado deixa na vida daqueles que, de forma mais ou menos directa, o seguem.

Manuel João Vieira deixa-me risos. Às vezes, risos imparáveis, daqueles que fazem chorar. Gargalhadas.

Por exemplo, o "És cruel". Não me consegui parar de rir quando o ouvi pela primeira vez. Depois seguiu-se a necessidade de ouvir tudo quanto me estava disponível de Ena Pá 2000, Irmãos Catita, Corações de Atum, por aí fora.

Ontem voltei a ouvir o tema que referi. A seguir a esse, apareceu o "Marilú". Não me lembrava dele.

Quando acaba o "Marilú" (n.d.r: digo "o" porque me refiro a ele como tema. Tema é masculino) surge o trabalho bem conseguido abaixo postado.

Como há algo em mim que aprecia a divulgação de tragédias cómicas, aqui fica.



sexta-feira, março 10, 2017

O chumbo é um metal pesado?

Número 141 de uma Avenida que, segundo me disseram, albergava um manancial de mulheres da vida.

Para uma meia hora em que se discutiram filmes, séries, música e outros deleites mundanos, vieram 60 minutos que, talvez para todo o sempre, me puseram no meu lugar. Me reduziram à insignificância que sou.

Lembro-me de Pedro Múrias, brilhante jurista com sentido de humor. Dizia ele, sobre determinada parcela do programa que "quem não sabe isto, não sabe nada".

"Imagine isto: celebra-se contrato-promessa de compra e venda de um imóvel. Preço: um milhão de euros. Você patrocina o vendedor, que a título de sinal e princípio de pagamento, recebeu meio milhão de euros. Marca-se a escritura. No momento, já no Cartório, o comprador passa um cheque do remanescente. A escritura faz-se, todos assinam. Quando se vai levantar o cheque, este não tem provisão.

Pergunto:

O negócio está feito?

O seu cliente é obrigado a aceitar o cheque?

Supondo que não aceita, como pode fazer para não perder o negócio?"

Naturalmente, caro leitor, eventualmente jurídico, o diálogo não foi tão escorreito como o pinto. Foi bastante mais confuso, Dali on scotch.

Alias, continuou. Com acidentes de viação.

Percebi o que valho.

Aprendi a minha lição.

quinta-feira, março 09, 2017

Gostava de escrever como um homem

Foi na quarta-feira que o meu filho começou a "adaptação" ao infantário. Primeiro uma hora, depois duas, finalmente quatro. Na segunda fará o dia todo.

Não vou estar aqui a tecer um tratado sobre a velhice que chega de surpresa e nos consome. Não, o que me faz sentir uma TPM Fox Life são as notícias.

Anuncia-se que uma bebé de oito meses morreu, num infantário de Lisboa. Para já, não há rigorosamente nada que indique responsabilidade por parte dos funcionários. Nem sei se é bom ou mau. É que, aparentemente, a menina teve "uma morte natural".

Isto pode acontecer. Quantas vezes ouvi falar no "síndrome da morte súbita" e associei ao unicórnio.

Mas aconteceu.

Ultimamente tenho sentido demasiada empatia. Para quem via a série do Hannibal, que passava num AXN qualquer, falo daquela empatia sentida pelo investigador, cujo nome não me recordo, mas vai chegar antes de acabar de escrever.

Estou ali. Vejo-me ali. Sinto-me ali. Olho para o lado. Certifico-me que, afinal, não é comigo.

Will Graham.

É isso.

sexta-feira, fevereiro 17, 2017

Catarina Eufémia

Não me esqueci.

Naquele dia, era sagrado. Um almoço "como deve ser", com "o único cheiro" de que gostavas: comida bem feita.

Mas não era só.

No final da refeição, o bolo em forma de coração.

Não me esqueci. Custa é lembrar-me.

quinta-feira, fevereiro 02, 2017

O interlocutor, ou como a vida é bonita

Há coisa de duas semanas, fui exercer o patrocínio forense para Lisboa. Tratava-se de um processo-crime, estando em causa factos enquadráveis nos tipos de condução sem habilitação e falsificação de documento. Como tantas vezes acontece, isto deu-se no âmbito do apoio judiciário.

Hoje teve lugar a continuação. Este que vos escreve habita na margem sul do Tejo. Sendo a audiência às 9.30h, teve que levantar-se às 6.30h. Até que chegou ao tribunal. É feita a chamada e aparece uma Colega.

"O Arguido é meu cliente. Contactou-me e vai passar procuração neste processo". O Arguido, que vinha do EPL, confirmou. A Colega pede desculpa, uma vez que tinha sido contactada ontem para o efeito.

"Muito obrigada, sotore, até à próxima." Juiza educada.

Desde então, fui duas vezes ao tribunal de Almada, por motivos diversos, tive uma reunião por Lisboa e a vida foi fluindo, como não podia deixar de ser.

Cheguei ao escritório e abro o Facebook. É uma coisa que faço. Mantém-me a par da actualidade.

O Facebook tem muitas coisas, mas a principal e que o distingue de todas as realidades próximas é algo peculiar: "indignação".

É um mar de indignação. "Querem eutanasia? Porcos!". "Não querem eutanasia? Porcos!".

A indignação de hoje é, de longe, a minha favorita: críticos de cinema do Público.

Que fizeram os "mininos"? Deram duas estrelas ao filme "Elementos Secretos".

Eis alguns comentários:

"Epá, mas vocês gostam de algum filme?!?!?"

"Dá 2 estrelas a este... mas 5 estrelas ao CAVALO DE TURIM, que é literalmente 2 horas a ver um casal idoso a tratar da sua horta e a descascar batatas...Por amor de deus..."

"ahaha o público acha que não existe mais cinema depois do "e tudo o vento levou""

Mais uma vez devo reflectir sobre a importância da crítica. Há dias, um amigo meu dizia-me que se podia perfeitamente comparar Bach com Quim Barreiros, concluindo que Quim Barreiros era, à falta de melhor expressão, azeiteiro, e pior, inferior.

Se tentarmos transpor o exercício para o cinema, estes comentários perdem toda a razão de ser. Ao fim e ao cabo, os críticos do Público estão certos na análise. O Cavalo de Turim (que tenho lá em casa para ver, juntamente com 3 filmes do mesmo cineasta) é, reconhecidamente, uma obra prima que seria o Bach do cinema. Ao pé dele, os Elementos Secretos é um Quim desta vida.

Só que não.

Por duas razões. 

A primeira de ordem sociológica: estes filmes de que vos falei (Cavalo e Elementos) são totalmente diferentes. Não podem concorrer entre si um Musical, uma Comédia, um Drama ou um filme do Van Damme. E porquê? Pela mesma razão que não podemos preferir o lombo à salada. São coisas diferentes que, em alguns casos, se podem complementar. Mas num certame gastronómico, o bolo de arroz concorre em categorias diferentes do Bucho à moda de Ceia.

A segunda é de ordem arbitrária: povo, cada um gosta do que gosta. É bom gostar de tudo, até do mau. Mas é mau só gostar do mau. 

Isto para concluir que gostava de ter acabado o julgamento do Arguido e para dizer que os críticos do Público dizem o que lhes apetece, que é para isso que lhes pagam.

Quem pensou que eu ia fazer uma ponte sobre ambos os eventos ou tópicos enganou-se. 

Recordo que eram 6.30 da manhã quando me levantei.

Obrigado, boa tarde. 

terça-feira, janeiro 24, 2017

Uma ilisão de presunção

Pertenço ao mundo jurídico e, no mundo jurídico, entre tantas outras realidades, existem presunções.
Também existe gente presunçosa, presuntos e presumíveis.

Centremo-nos: presunções são consequências deduzidas de um fato conhecido, não destinado a funcionar como prova, para chegar a um fato desconhecido.

Eis o facto conhecido (até agora, pelo menos) por mim: juiz nenhum desta terra abençoada por deus e pouco tropical ouve alegações de um causídico. Se ouve, não as leva em conta. Se as leva em conta, não leva.
Hoje fui defender um fulano que nunca vi. Que fez o cavalheiro? Pegou no passe social do amigo e foi andar de autocarro, usando o dito passe para possibilitar o seu trajecto.

Segundo uma lei bonita, a que se convencionou chamar Código Penal, parece que é crime, podendo dar cadeia.

Como nunca o vi, não sei qual a versão dele, se tem testemunhas, sequer. Tentou enviar-se missivas para o domicílio e nada. Se isto fosse uma série, era o Macgyver. Eu tenho o canivete suíço e uma linha de botão descosido e o M.P o arsenal do Pentágono.

Não desisto de resistir. O M.P, depois de ouvir um mui honrado agente da PSP, pede justiça. Assim. Nem "ai" nem "ui". Se fosse um advogado oficioso, era para queimar na fogueira marinho-pintista.

Calha estar um advogado oficioso na sala. Este que vos escreve. 

Apresenta os cumprimentos a todos. Debita uma teoria jurídica baseada no conceito material de crime, que vai desaguar numa falta de consciência da ilicitude que terá, como efeitos práticos, uma absolvição. Também disse qualquer coisa abonatória caso se entendesse o contrário.

Durante o meu breve excurso vi algo que jamais pensei existir: um sorriso de Mona Lisa e um olhar sobre uns óculos...da juíza.

A Procuradora olhava como se eu falasse de direito marciano. Também um misto entre alguém que acaba de descobrir que comeu fezes caninas e ouviu a Maria Leal a primeira vez. Havia nojo.

Assim que termino, o sorriso mantém-se e o olhar idem.

"Oh sótor, não concordo nada consigo!"

Por isso, meus amigos, não só uma coisa aconteceu hoje, mas sim duas.

Uma juiza "discutiu" o mérito das alegações com o causídico e...

Afinal estava a ouvir!

quinta-feira, janeiro 19, 2017

Hoje, é só isto.

quinta-feira, janeiro 05, 2017

Chá de cidreira

Circula, por aí, um "vídeo" onde se mostra um jovem a ser agredido por um bando de outros, possivelmente da mesma idade.
É perto de onde vivo.
Nada do que ali está tem apelo ou agravo. Mas o que me penaliza mais é querer que aconteça aos agressores aquilo que fizeram ao agredido. 
Não consegui, logo, calar o "bicho" que habita em mim.
 
Só vi ali o meu filho. 

quinta-feira, dezembro 29, 2016

A página da necrologia

Já não me recordo se foi no Quiosque do Sr. Vítor, ou mesmo na casa dos meus pais. Estava a ler o jornal em conjunto com o meu avô. Devia ter não mais que 10 anos. Era um jornal popular, um CM ou 24 Horas. Como é tradição nessas publicações, chegou-se à página onde se anunciam os óbitos. Fotografias de velhos, não-tão velhos, novos.
Perguntou-me o meu avô se sabia o que tinha acontecido àquelas almas. Respondi que não sabia.
"Deixaram de fumar".

Como é tão natural nesta altura do ano, quem escreve pedaços de sarjeta parecidos com este propõe-se a elaborar um balanço do ano que finda.

Não o vou fazer. Primeiro porque não sei o que é um balanço. Fosse Contabilista Certificado e tudo era mais fácil. Até fazer os trocos do tabaco.

Ao invés de lamentar o facto de grandes nomes "deixarem de fumar", não quero deixar de me lembrar do que foi o fim do ano de 2015. Cerca de 5º graus, um 5.º Andar. Fogo de Artífico.

"Vamos ser pais?"

E fomos.

E somos.


Entrem bem o ano.

Sou a prova viva de que, calhando, as resoluções de ano novo verificam-se.

terça-feira, dezembro 13, 2016

Para não variar, um lamento

Poucos dias depois de me lançar naquilo que o capitalismo ainda proporciona, fiz o que faria qualquer amador: pesquisei na gigante net por alguém que me fizesse um site ao nível do orçamento que tinha, equivalente a uma prestação mensal de um carro de gama baixa.

Veja-se bem: encontrei. Fizeram, cobraram e foram à vida deles, se é que isso se pode dizer.

Advertiram: "Daqui a um ano, tem de renovar o servidor".

Assim fiz: um ano depois, ia elaborar um e-mail para os fulanos e, eis senão quando, descubro que já não existem.

Ou seja, hoje já  não tenho site e não encontro um negócio semelhante em lado nenhum.

Acaba por ser chato.

segunda-feira, dezembro 05, 2016

Notas Profissionais

Desleixei-me.

Não é porque esteja gordo, que estou. Não é porque só me lembre do que precise, embora o faça. Não é porque não tenha actividade física relevante. Não tenho.

Lembro-me de, ainda na Faculdade, um caríssimo Amigo iniciar, convidando-me para tal, um blogue a favor do SIM no referendo relativo à IVG. Naquela altura, despertam-se as noções políticas, percebe-se o lado da barricada, sem prejuízo de um qualquer progresso, ou reversão, se tudo correr mal. Ideais como Democracia, Liberdade, Dignidade Humana ou Igualdade estavam no vocabulário de todo e qualquer dia. Não havia perda de pitada da vida ocorrida no poder. Chegamos a conhecer quase todos os deputados à A.R.

Hoje, em vésperas de uma eleição importante, percebo que não tomei parte em rigorosamente nada daquilo que lhe diz respeito.

Clarificando, elaboro sobre o meu absentismo no dossier "Eleições para a O.A".

Votei, claro que votei. Votei em branco.

Porque pensei "Eles são todos iguais, querem é visibilidade".

Porque não vi um debate.

Porque não abri um mail de candidaturas.

Nada. Nadinha.

Mal ou bem, um bastonário tem peso. Muito ou pouco, influencia a vida da Ordem.

Estou descrente, é o que estou. Deixei de acreditar.

Já vai para anos em que deixei de acreditar em intervenientes públicos. O último em quem pensei que poderia mudar qualquer coisa para melhor chegou a estar detido.

Em suma, nhé.


terça-feira, novembro 29, 2016

Contributo para um estudo sobre o conceito de normalidade: de REO Speewagon a Bon Jovi

Não sou sociólogo, pelo que também não sei se cabe à sociologia explicar o que são comportamentos normais. Ser normal. Se calhar, cabe à psicologia.

Lobo Antunes escreveu "A morte de Carlos Gardel".

Carlos Gardel era um portentoso compositor de Tangos. Isto, para quem não saiba, não esclarece se era Bartender ou Músico.

Vamos partir do princípio que era Bartender. O Tango é uma bebida composta por cerveja e groselha. Num como, vertem-se cerca de dois dedos de groselha. Depois, mistura-se a cerveja.

Dá um ar "amaricado", mas serve perfeitamente para acompanhar uma interpretação de "Por una cabeza". É ver o "Perfume de Mulher".

Dito isto, nesta composição que se assemelha a algo escrito por John Doe, do Seven (What's in the box?), quero concluir com uma questão, o que é, igualmente, normal.

Como apreender o grau máximo da lamechice? A lamechice é-me cara, uma vez que a exerço. Com veemência.

Lembrei-me de REO Speedwagon e Bon Jovi. Lembrei-me de I Can't Fight this Feeling e Always.


quarta-feira, novembro 16, 2016

Da Representação Voluntária em Direito Civil

Algures nos anos 90, Pedro Albuquerque, filho de Ruy, decide doutorar-se em Direito e inicia a escrita da sua tese, cujo título supra reproduzo. Trata-se de uma obra fascinante, bem documentada, precisa, capaz de resolver os inúmeros problemas que a disciplina da representação traz. Pessoalmente, não seria capaz de ter concluído a minha licenciatura sem me ter cruzado com tão estimulante escrito.

Com o que acabo de escrever, duas coisas podem acontecer:

a) os motores de pesquisa passaram a incluir este texto quando alguém pesquisar por "Representação Voluntária";

b) Quem me ler, desistir.

As fotografias têm a faculdade de se inserir na previsão da norma constante de um qualquer artigo que fala em Documentos.

Estive a ver umas poucas em que consto.

Passam-se anos, quilos, pessoas. Já quase nada do que ali vi existe, no sentido que gosto de dar à existência. Foram-se as pessoas e os anos. Os quilos, como um conhecido da primária que engraçou connosco e de quando em vez quer ir lá jantar a casa, vieram.

Tudo bem, se gosto de chanfana, pago o preço. Se aprecio coisas que não saem de mim sem ginásio, ora pois.

O que mais me fascina é a roupa. A roupa, juntamente com a qualidade da imagem, é o principal GPS para localizar o evento e momento no tempo.

E nem aí. Nem. Aí.

Lembro-me de ficar melhor em roupa menos cara do que agora. Há uma foto específica, tirada numa noite que me recordo perfeitamente, que é fatal. Uma camisa que já não existe, umas calças que me servem, não em duas, mas uma perna, e um blusão, que resistiu.

Pedro de Albuquerque, que percebe tanto de representação, nunca me sossegou e escreveu sobre a representação nas fotografias. O Direito pouco diz sobre a passagem dos anos, quilos e pessoas.

Hoje mesmo, precisamente hoje, uma fotografia passou a fazer parte do passado.

Até há umas largas horas, era só uma fotografia com meses. E poucos. Agora, é uma fotografia tão válida como a de uma criança, que agora tira o Doutoramento.

Doutoramento que Pedro de Albuquerque começou a concluir nos anos 90.

quarta-feira, novembro 09, 2016

E agora, uma análise rigorosa sobre as eleições americanas e a ascenção de Trump

A perspectiva democrática anda pelas ruas da amargura.

a) Enquanto advogado, vou votar em branco para a eleição de bastonário.

b) Enquanto cidadão de Almada, creio ir votar em branco para Presidente de Câmara.

c) Se fosse sócio do Sporting, daqueles que até pode votar, votava em branco.



Foi o branco que decidiu a eleição de Trump.


quinta-feira, outubro 20, 2016

Sim

Agora, também eu sei o que é apaixonar-me por alguém que tem o mesmo sexo que eu.

E apaixonei-me.

quinta-feira, setembro 01, 2016

O inexplicável a encontrar o banal

O exorcismo é qualquer coisa parecida com uma expulsão. É preciso acreditar que há espíritos ou outras entidades não materiais e também não terrenas.Com o exorcismo pretende-se expulsar as tais entidades de um corpo. Essas entidades controlam esse corpo e farão dele o que bem entenderem. Na crença cristã e baseado em tantos filmes e alguns livros que li sobre a matéria, o exorcismo visa expulsar de um corpo um espírito do mal.

Realidade próxima desta é a chamada dor do membro fantasma. Sinteticamente, essa dor dá-se quando alguém vê amputado um membro, por alguma maleita, e continua a sentir dor proveniente daquele membro. É como se me cortassem um braço por estar infectado e eu continuasse a sentir dali dor, ainda que o braço já tenha servido de adubo.

De maneiras que ontem perdi o meu animal de estimação, o Lenine.

Já perdi outros, no passado. Senti a dor, mas, estranhamente, nada foi como agora. Estive a pensar nas razões.

Vi aquela criatura chegar à minha casa com poucos dias, nem um mês, segundo recordo. Media e pesava pouco. Explorava, cheirava. Usucapiu aqueles metros quadrados a que chamo casa num tempo record, imprevisto pelo melhor dos Códigos Civis. Levei-o ao médico amiúde. Cumpri escrupulosamente o plano de vacinação e de desparasitação. Comprei a melhor ração. Quando não pude tratar dele, deixei-o ao cuidado daqueles em quem confiava, ora os meus pais, ora os dela, ora os melhores amigos.

Ontem disseram-me que nasceu com os rins afectados. Que a maleita que sobre ele se abateu era inevitável. Que podia esconder qualquer sintoma até que os rins estivessem apenas a 25% da sua capacidade. Foi o que fez.

Naquele dia em que o vi deitar-se debaixo da minha cama, para só depois se ir deitar debaixo do meu sofá, revi cenas antigas. Fiz com ele o que faria ao meu filho: corri com ele para as urgências para tentar perceber como e porquê se estava a dar o declínio.

Ao final do dia, quando voltámos para casa, já sem ele, a casa não era a mesma. Faltava o ser que vinha a porta cumprimentar quem visitava. Faltava o ser que acompanhava religiosamente quem ia à casa de banho. Faltava um terceiro elemento na cama, tomando o que queria.

Hoje, sinto uma insuportável dor do membro fantasma. Amputada que me foi aquela parte da minha vida (da nossa), morro um pouco por dentro. Não há como parar.

O Lenine foi exorcizado da sua casa. Sem que o quisesse, sem que quiséssemos. Perdemos um pilar, ou então um ovo, se pensarmos em nós como um projecto de doce.

E aqui chego. A sofrer como uma criança pequena, com esporádicos episódios de desespero, a lamentar que algo banal como a morte, que tantas vezes se revelou e demonstrou perante mim, seja tão difícil de suportar.

Diria que: é a vida.

Mas é a morte.

quarta-feira, agosto 17, 2016

Estudos sobre o património

22.

Quando era viva, a minha avó passava as tardes com mais sol ali sentada. Não propriamente ali, mas na casa dela, numa espécie de escano de madeira. A olhar ou a ler (especialmente qualquer coisa religiosa).

Já eu, quando era mais novo e era por ali que dormia a família ou parte dela, descia aquelas escadas de pedra e andava por ali, apesar do cheiro mais intenso. Ninguém queira imaginar aquele espaço antes de ser mexido.

Até que foi. Até que, religiosamente (no bom sentido de "religiosamente") todos uns anos existe um jantar (que será sempre em honra dela e da família). Este ano repetiu-se.

Eramos 22 à mesa. Entre os que estavam, não estavam e, essencialmente, os que podiam estar, quase me lembrei do Jorge Palma quando versava sobre os "serões habituais e as conversas sempre iguais".

Lembrei-me agora, mas então não.

Só senti que estávamos todos mais velhos. Tenho ideia que só a minha mãe não envelhece.

Não lamento o envelhecimento. Tenho pena que o veja. Que quase o apalpe. Louvo, porém, a renovação.

Mas pena tenho. Até porque há tanto para resolver. Tanta conversa que está em falta. Tanto, tanto.

quinta-feira, julho 14, 2016

Palavras homófonas

Anos.

Começo por uma repetição própria: não ligo à passagem de ano. Aquela história do 31 de dezembro para 1 de janeiro. Faço festa e costuma haver álcool? Claro, mas isso (felizmente) tenho todas as semanas, com bom vinho e excelente petisco. Festa é festa e o último dia do ano é uma boa desculpa como qualquer outra.

O meu tempo de reflexão começa a 16 de Julho, terminando em Setembro. Coincide, portanto, com o início e fim das férias judiciais.

No ano transacto, por esta altura e depois de 365 dias de esforço, parti rumo à República Dominicana com a sensação do dever cumprido. Na minha estadia, apenas a preocupação de chegar a tempo à praia e marcar os jantares temáticos. Resto? Rum e charutos.

Dois meses depois de ter chegado, resolvi tentar a minha sorte por conta própria, deixando para trás mais de 6 anos de colaboração com uma prestigiada sociedade de advogados de Almada (nota lateral: em entrevistas de emprego que tive, aqui e ali durante os ditos 6 anos, vários se riram com a designação. Aparentemente o engrandecimento que faço da sociedade é cómico).

 3 meses depois do início da aventura, surge outro desafio: serei pai.

Quer isto dizer somente uma coisa: se em Setembro de 2015 me tivessem dito que daí a 6 meses estaria com o meu negócio e à espera de rebento, provavelmente teria de pedir o internamento do informante.

No entanto, aqui estou.

Os receios são o que são. As certezas idem. Contudo, e porque tardo em pensar como um ser estruturado, tenho-me lembrado das palavras do Dr. Ian Malcom.

" I'm, I'm simply saying that life, uh... finds a way"






sexta-feira, julho 01, 2016

Numa tarde - Ou como quase nunca a morte de alguem é aquilo que poderiamos esperar se esperássemos efectivamente

Quando tinha cerca de seis anos, como tantas vezes ocorreu, fomos jantar a casa dos nossos tios Luís e Bela (a senhora, um doce de mulher, chama-se Isabel, mas pelo carinho que merece, assim a identifico). Por alguma razão que não me volta à memória, devo ter respondido de forma menos polida, mas de todo o modo respeitosa. Virou-se para o cão e chamou-o, usando o meu nome. Acto consumado, olhou para mim a rir-se, com alguma satisfação vingativa no olhar.

Numa outra ocasião, fui meter-me com ela. Perguntar por que razão havia Cristo morrido por nós. Só isto. Foram 6 horas de diálogo com ela, que até tinha sido freira. Não conseguiu explicar. Lembro-me de o meu antigo padrinho se rir a bandeiras despregadas. Do meu avô também.

Finalmente, num momento cronológico não alinhado com os anteriores, sentou-se na mesa de jogo que pontifica (sim, pontifica, adoro que uma mesa se destine ao jogo puro e duro) na casa dos meus pais e jogou um "pente" de sueca. Dizia: "filho, sempre tive que me virar e surpreender".

Hoje, envolvida em madeira fria, despedimo-nos dela.

Pessoas existem que não queremos que morram de forma alguma. Daí nunca imaginarmos a sua morte. Serão sempre imortais e, até certo ponto da nossa vida, são-no, porque não existe maneira que chegue o seu fim.

Este caso era diferente. Aqui, como que havia uma presunção de imortalidade. Foi um caso em que olhámos e dissemos: ela? Não cai. Não caiu.

Quando as despedidas foram proferidas, quase caiu aquela falácia que sustenta que "todos morremos sozinhos".

"Espera por mim lá em cima. Adeus, minha querida amiga".

E se eram amigas.

Se foram.

terça-feira, junho 21, 2016

Do Spoiler (ou tentativa de "homenagem")

Sou um ávido fã da série "Guerra dos Tronos".

Para quem a segue, hoje é um dia feliz.

Queria deixar aqui uma pequena "homenagem" ao melhor Vilão que aquela série conheceu: Ramsay Bolton/Snow.

Sem dúvida, a mais pérfida personagem jamais criada.

Foi magistral vê-la a agir em todo o seu esplendor. A maldade, tantas vezes aliada à genialidade, com um fim inglório, que mereceu.

Saibam e percebam: não havendo "Mindinho", o Snow tinha que recorrer aos serviços da mulher de vermelho uma vez mais.

O génio estava lá.


sexta-feira, junho 17, 2016

Silva

Um dos meus filmes preferidos chama-se "Alta Fidelidade", ver aqui.

Numa das suas muitas cenas, quase de antologia, os empregados da Champioship Vinyl lançam uma discussão: de que temas seria composto o top 5 de músicas sobre a morte, idealmente a passar no próprio funeral?

Não é que pense nisso. Nem me faz muito sentido. Não me interessa o efeito que a música tem noutros, mas sim em mim. Estando morto, não oiço. Abro excepção para quem entende que quem presta a última homenagem deve estar rodeado de algo sonoro para além das vozes dos demais.

Ao recordar a cena, nem sei bem porquê, fui levado a pensar noutro aspecto que mistura a música com a mortalidade. Que música passava quando soube que algum ente querido tinha "partido"?

Lamentavelmente, só me lembro de uma. Ouvia-a quando soube que o meu avô não tinha resistido. Paradoxo de merda: é uma bela música. Tem um verso filho de puta: "Pode ser belo o feio visto de perto". Ainda diz: "O avesso às vezes pode dar certo".

Já tive a minha quota parte de perdas. E num período muito curto.

O pior é não me lembrar. Sinto que mandei qualquer coisa para o subconsciente só com bilhete de ida.

Assustam-me os traumas.


Pensar

É estar doente dos olhos. O que é ver como um danado?

Vamos ao mundano.

Quando era mais jovem, tinha uma tese imberbe: as raparigas (no usar luso da palavra) mais engraçadas e dotadas andavam juntas. Quase como se de um cartel se tratasse.

A tese, por força da vida, não veio a ter sucesso. Só se verificariam episódios esporádicos que serviam, não para provar, mas demonstrar que são excepção.

Isto serviu de base para ter noção de algo, mas para o futuro: o que é de bom, como o que é de mau, vem aos grupos. No plural. Confirmei, ao fim e ao cabo, que uma desgraça nunca vem só, citando o mítico povão.

Estou mal de vida? Não estou não senhor. Poderei estar? Queira deus que não, nossa senhora de Fátima.

Sucede que isto tem corrido bem. E a vida nunca corre bem para sempre.

quinta-feira, junho 09, 2016

Lâncome

Anúncios de perfume. Um pouco, tudo-nada, como os anúncios dos pensos higiénicos. Posso conceder que, quanto a estes últimos, existe uma perigosa apologia da mulher com o período que passa bem por Super-Homem.

Percebo pouco de publicidade, diria mesmo, que percebo pouco de muito em geral. Neste ramo do "saber", e também da acção, creio que a psicologia joga uma carta essencial. Daí partir para uma conclusão que tirei há muito: a raça humana pensa toda de forma parecida. A economia dirá o mesmo.

Pois bem, ontem, enquanto saboreava um sofrível choco frito à moda de Setúbal, mas somente a fazer lembrar o Sado, em conversa falou-se de aspectos específicos do nojo. Também aqui creio que a Humanidade está unida, salvo raras excepções.

Para mim, algo fez sentido há pouco, quando achei que o nojo e um seu combatente (o perfume) se podiam unir e passar uma mensagem eficaz.

Cheguei ao anúncio que me faria comprar um perfume, de caras.

Num cenário de piquenique, um fulano com os seus 150 kilinhos bem pesados está sentado numa cadeira de praia, somente de calções. À sua volta, amigos, homens, mulheres.

Está calor. O fulano sua em bica. Todo ele é água. Debaixo das suas mamas, um oceano de suor. Na barriga, pêlos pretos, grossos, de uma vida de trabalho. O homem, acto contínuo, pega num pedaço gigante de pão, encosta-o ao peito e corta-o, com uma faca sobre-dimensionada. Enquanto a faca corta, o pão vai sendo empurrado pela lâmina contra o peito do bicho. Feito o serviço, corta uma fatia de queijo Castelões da mesma forma. Junta e come.

Aparece a Cristina Ferreira em vestido azul (estou muito longe de ser fã da senhora, pelo contrário) e borrifa-se no "Comenda #7".

Para homem e mulher.


terça-feira, maio 31, 2016

Para ajudar a perceber o infra exposto

A composição

Um casal que solicita os meus serviços profissionais ofereceu-me uma pequena banheira.

Uma banheira onde poderei lavar a criança que ai vem.

De onde veio, ou como veio, não sei. O casal é de confiança e ofereceu, de forma efusiva, aquela composição de plástico. Aceitei-a e, para quebrar protocolos, dei dois beijinhos na cara à senhora.

Entretanto, ouvi Lou Reed e, por alguma razão, fui projectado para uma visão de pobreza, miséria e dificuldades financeiras no geral.

A música era o "Perfect Day".

A visão era qualquer coisa como uma foto dos anos 80, em que estava vestido de ganga e tinha um infante ranhoso ao colo. Devia estar a regressar de uma feira.

A questão é que sempre associei as crianças a miséria financeira. Há algo de pobre nos casais que vejo com crianças pequenas.

Até quem eu sei que é abonado me parece um mendigo quando segura um pequeno ao colo.

(Nota pessoal: para não variar, o texto está escrito com a mestria de um repetente do quarto ano. É tentar dar um ar alucinado e parecer só estúpido.)

terça-feira, maio 17, 2016

Verde

Acabou a época futebolística regular, tendo o Sport Lisboa e Benfica acabado em primeiro lugar.

Para expiar os meus pecados, quero deixar aqui, sobretudo para minha memória futura, algumas considerações e conclusões.

a) O futebol jogado foi bom/excelente. Contudo, tal verdade serve, maioritariamente, para consumo interno. À sua imagem, Jesus não tem grande futebol lá fora, à exceção do jogo com o Lokomotiv.

b) O apoio dos adeptos foi excepcional (excluindo o meu, desconfiado por natureza).

Isto foram os pontos positivos.

c) Ganhámos uma Supertaça. Mais. Nada. Nadinha. Ponta. De. Corno.

d) O Presidente, o Director Desportivo e o Treinador deviam cortar a língua. Arrogantes, errados, mal-informados, burros (porque não?)

e) O Sporting foi factor de união do Benfica. Como li: ressuscitámos um morto.

Ora,

Continuamos no caminho. Todos os anos temos subido um bocado. Este ano, a qualidade exibicional foi altíssima. Claro, há que dar continuidade.

Agora, e é este o meu problema:

Ninguém, absolutamente ninguém, na estrutura do Sporting está a aprender com os erros.

Jesus não perde a postura arrogante. Devia. A glória é para quem vence. Para quem perde é só desprezível.

O Presidente NÃO. SE. CALA.

O Octávio não desaparece.

E eu estou farto.


Tive várias conversas com quem pensa de forma diferente da minha.

Para todos, relembro: mais um ano, mais nada.

terça-feira, maio 10, 2016

Las cosas pequeñas

Por ocasião do lançamento do novo trabalho dos Radiohead, uma das minhas agremiações musicais preferidas, muitos "críticos" vieram dizer aquilo que, para mim, é a frase mais batida de sempre do panorama crítico-musical: "É o melhor disco desde o (inserir qualquer trabalho anterior, de preferência, preferido por hipsters)."

O pior nem é ser batido, é ser mesmo estúpido, pedante e desinformado. Não neste caso, mas em todos.

A produção musical de uma banda não é uma linha recta de coerência. Há oscilações no estilo, nos membros, nas influências, nas intenções, em tanta, mas tanta coisa.

Cada álbum de uma banda não serve de "benchmark". Marcou um tempo. Foi mais vendido? Foi menos? Gostei mais?

Nada mais irrelevante. Em cada ouvido está um gosto e, segundo aquilo que penso (que reconheço ser pouco e mau), crítica não é comparar o incomparável.

Descendo ao concreto: li que o "Moon shaped pool" é o melhor álbum desde o "Kid A".

Isto irritou-me ao ponto de ter vindo aqui escrever.

É falso. Se o crítico dissesse que prefere x a y, tudo bem. Agora, basear uma crónica numa afirmação que só espelha o gosto pessoal é só ser pequeno e preguiçoso.

A crítica não pode ser uma expressão de opinião. Tem de ser objectiva, conter alguma coisa de concreto que possa servir para pensar.

Dizer que se prefere uma laranja a uma maçã é não ter mais de 6 anos e dizer que gosta mais do pai.

Amiúde acontece o mesmo na crítica cinematográfica. Menos, mas acontece. 

Isto só para dizer uma coisa: se assumirmos que a música é uma arte, não há arte melhor ou pior. Podemos gostar mais de uma que de outra, mas ser pago para escrever algo sobre ela exige mais.

Exemplo: sim, eu gosto de muito do trabalho da Joana Vasconcelos. Chamem-me urso à vontade. Vou dizer que o Candeeiro gigante é pior que o naperon?

Tanta coisa para isto? Pois. Já não usava o espaço há uns tempos.

domingo, maio 01, 2016

O bater de um coração.

O bater do coração de qualquer coisa que não mede 4 centímetros.

O movimento.

O movimento de qualquer entidade que não mede 4 centímetros.


sexta-feira, abril 01, 2016

Carta a um "eu" futuro

Meu caro,

Algures em Fevereiro/Março de 2016, passaste duas semanas em São João do Estoril. Nem tu sabias que existia tal localidade, tu que dividias a linha (excluindo Sintra) entre Cascais e Estoril. A melodia abaixo levar-te-á a esses tempos.
Na altura, mal chegavas, ias aviar um chávena de café, fumar o SG matinal e ouvir os OMD. Lembravas-te do teu escritório. Do teu. Do que estavas a deixar para trás. Souvenir doutro tempo.

Quinze dias. Dez úteis. Ao segundo, foste introduzido à temática das "pinças", artefacto útil para lidar com problemas delicados.

Foram-te ditos nomes, explicadas situações. Depois, noutra altura, foram-te ditos ainda mais nomes e explicadas ainda mais situações.

Serias como que invisível aos olhos da base. Com alguma, claro, havia relações a começar, mas na tua nuca estava sempre alguém. Alguém que ta torcia e te obrigava a coçá-la. Spider sense. Macacada. Qualquer coisa.

Certo dia, o telefone tocou. Duas vezes.

Foram duas semanas. Valorizado pela chefia como nunca ou até mesmo nunca mais.

Demorou duas horas a que pudesses sair. Foi tudo debatido.

Mas o telefone tinha tocado. Era a única coisa que tinhas dito a ti próprio: se tocasse, não mais quisesses obedecer se pudesses mandar.

Quando saíste, pairava no ar uma nuvem negra. Ou lua, para poderes pensar nos CCR.

Terão ficado a pensar que saíste porque a nuvem te impedia de respirar. Tão longe disso.

Hoje, a dita nuvem (imagem a que recorro pela terceira vez e que, por isso, peço as devidas desculpas) ficou menos negra.

Ao leres, hoje mesmo, as notícias que pululam em todos os sites da especialidade, lembras-te daquelas duas semanas.

Souvenir.









quarta-feira, março 16, 2016

Pequeno, ou pequeníssimo, ensaio sobre a saudade



A saudade é uma ressaca, ainda que uma forma muito específica de ressaca.

Como todas as ressacas, também a saudade tem fim.





quarta-feira, março 02, 2016

Projecção - Como se dirá "saudades" em francês? Souvenir?

terça-feira, fevereiro 23, 2016

A vida e qualquer coisa de Steiner, cuja obra conheço mal

A ecoar, há coisa de uma semana, na minha pequena cabeça de aprendiz: We have no more beginnings.

We? I.

Para quem gostar, qualquer coisa, apenas relacionada, aqui.

sexta-feira, fevereiro 05, 2016

Alembrou-me