sexta-feira, julho 31, 2015

Voltando ao texto, o que é recorrente

O irmão do meu patrão trabalha na sociedade de advogados em que exerço funções.

O que faz ele? Para além do que lhe apetece, faz coisas. Por coisas entenda-se qualquer coisa parecida com serviço administrativo.

Quase a chegar aos 30 anos, muito meditei antes de escrever aquilo que escrevi. Pensei em pessoas, feitios, episódios, até mesmo filosofias.

Cheguei a uma conclusão. Há três pessoas que podiam sair da minha vida, ainda que de forma pensada e ordenada, mercê das condicionantes socio-económicas. Eis as 3 piores pessoas que habitam na minha vida:

O irmão do meu patrão. É a pior pessoa que conheço. Não se aproveita nada. Não lhe conheci uma virtude, algo por que se possa puxar. Até o bem que faz é mau.

Logo a seguir, está o patrão, como é óbvio e razoável.

A finalizar o Top 3, sempre lembrando que o critério é terem alguma relação de proximidade e convívio comigo, está o irmão do meu patrão.

Não é engano.

(Adiantadas desculpas pelo texto à pita)

segunda-feira, julho 27, 2015

Dia 27

Há alturas em que, mesmo que nunca nos tenhamos esquecido, voltamos a lembrar por que razão existem uniões.
A "meia bola", a "melhor metade", digna desse nome, tem a capacidade de trazer à nossa vida aspectos e coisas que já tínhamos esquecido.

Voltei a ouvir isto. Fazia falta.



quinta-feira, julho 23, 2015

A propósito da revisitação a Nip/Tuck

Nunca granjeou grande popularidade a série a que me refiro acima.

Haverá vários motivos, mas o principal será, talvez, o grau de whatthefuckness que abunda em cada episódio e personagem. Muito triângulo, muita carne, muito daquilo que não é aberto.

Emitida, actualmente, pela SIC Radical, recomecei, assim como a minha melhor metade, a ver a série do seu início.

Num episódio recente, uma das personagens principais, Sean McNamara, escrevia o seu epitáfio. Não porque tivesse morrido ou estivesse para isso. Inquirido pelo seu filho sobre as razões de tal acto, respondeu-lhe que era um exercício de motivação.

Há, na minha opinião, uma grande música dos Titãs, precisamente chamada de "Epitáfio". Uma lista de lamentos e de "coulda-shoulda-woulda". Apesar de ser excelente, como disse, não achei correcto que lhe dessem um nome que não corresponde àquilo que é. A letra da música, o poema, para usar uma palavra que devia ter um significado mais restrito, é um rol "do que devia ter sido". O epitáfio tem de conter aquilo que efectivamente foi/aconteceu.


Na pior das hipóteses, o epitáfio é um testamento, um legado de factos e conquistas do de cujus.

Abomino a ideia de ser eu a escrevê-lo. Ainda pensei fazê-lo. Contudo, é demasiado tétrico. Demasiado mórbido.  Faltar-me-ia a objectividade. Faltar-me-ia tudo.

Será estranho pedir a um amigo para fazê-lo? Será mais justo solicitá-lo a um inimigo?

Pus-me a pensar. Não há ninguém que o pudesse fazer por mim. A minha família e até amigos, inexplicavelmente, gostam de mim. Seria doce. Os restantes seres assumem perante mim uma postura de indiferença ou desdém que também não permitiria a execução com qualidade.

Ao fim e ao cabo, o que somos é subjectivo. Claro que há factos e actos. Mas os factos e os actos não são nada sem interpretação.

quarta-feira, julho 08, 2015

À beira

Estou quase com 30 anos.

A este respeito, lembrei-me de uma questão que me é colocada há décadas (sim, há décadas): "por que razão não gostas de fazer/celebrar o teu aniversário?"

Já o disse dezenas de vezes. Agora, fica escrito e, so help me god, vou colocar uma "etiqueta" (tag) no fim. Para me lembrar. Para servir de remissão.

Que sentido tem festejar a mediocridade? Tenho quase 30 anos e sou um trabalhador de segunda, desprezado, ignorado, tantas vezes vilipendiado, desonrado.

Que sentido tem festejar a data? Tenho quase 30 anos e, lembrando os factos supra expostos, nem por isso ganho melhor, sequer bem, não tenho o dinheiro para viver o que queria nem para fazer coisas por quem gostava.

Que sentido tem ouvir a canção dos parabéns? Quando morrer, serei uma vírgula na história, um nada, um ninguém, uma alma inominada que serviu e mal.

Porquê pensar diferente? Tirei um curso massificado, não estou com idade nem vida para mudar, não ingressei na carreira que queria, trabalho, há quase 6 anos, num sitio onde filho meu nunca porá os pés.

Mas e então não é engraçado celebrar o meu nascimento? Acredito que sim, para as poucas pessoas que gostam de mim. Isso não me inclui a mim. Trocava a minha pela vida de qualquer pessoa. Odeio o que faço. Odeio ainda mais com quem faço.

Ao fim e ao cabo, percebo que o meu problema é a situação profissional. Que me mata.

Mas, claro, a culpa é toda minha. Não estou disposto a abdicar do que tenho em troca de paz. Porque se abdicar, tão cedo não arranjo ocupação. Porque se abdicar, desisti.

Mas, à beira dos meus 30 anos, é isto.

Estudei para ter uma carreira melhor do que a que tenho. A minha carreira não existe.

Deixei de sair à noite para poder descansar para um exame no dia seguinte. Se fosse hoje, até fortemente alcoolizado teria ido fazer o exame.

Deixei de fazer uma tese de mestrado porque estava a trabalhar e, quando vi que não chegava para as encomendas, até porque também tinha a agregação à O.A metida ao barulho, escolhi o trabalho. Devia ter saído daqui e começava de novo.

Mas não.

Tenho 30 anos e nem o respeito próprio alcancei.

Se tudo correr bem, esse dia fatídico será passado longe desta corja com quem coexisto 10 horas por dia.


quinta-feira, julho 02, 2015

Agora, um desvio na rota, mas não no espírito.

Francisco José Viegas, que chegou a ser Secretário de Estado para a Cultura, tinha um belo blog no qual, de vez em quando, escrevia sobre futebol. A "rubrica", se assim quisermos chamar, dava pelo nome de "Cantinho do Hooligan". Hoje, apetece-me falar do Sporting.

O Sporting Clube de Portugal, fundado em 1906, é um imenso clube. Tem e inspira uma filosofia diferente das restantes agremiações desportivas. Enquanto Benfica e Porto têm uma matriz e base de apoio mais popular, o Sporting diferencia-se e aposta num entendimento do Desporto numa vertente mais plural. O Sporting é um clube de modalidades (para além do futebol). O Sporting tem um nome ouvido em todo o mundo. Em todos os meetings de atletismo, campeonatos de tudo e mais um par de botas, lá ouvimos o constante "(...) atleta do Sporting". Claro, os outros clubes também os têm. Sucede que os bons, verdadeiramente bons, são nossos. No disrespect.

Dito isto, o futebol é aquilo que preocupa 98% dos adeptos do clube.

E, no que a futebol diz respeito, isto não anda bem. Vamos a factos:

1. Há pouco dinheiro para grandes contratações;
2. A gestão desportiva é débil e inconsequente, senão vejamos;
2.1 Foi despedido o treinador que melhor pôs a equipa a jogar nos últimos anos e que ganhou, de facto, alguma coisa;
2.2 Nenhuma contratação trouxe algo de melhor à equipa, desde a tomada de posse de BdC;
3. A gestão (latu sensu) do clube corre o risco de ruir brevemente, ora;
3.1 No mesmo espaço físico estarão BdC, Jorge Jesus, Octávio Machado, Inácio, M. Fernandes
3.2 Deste lote, não há uma alma com bom feitio e espírito de negociação, é vai-ou-racha, sendo que vários destes elementos dão-se como cão e gato ou já deram;
3.3 Se não há vitórias no início do campeonato, rebenta a bomba.

Uma vez que não sou nenhum Rui Santos, deixo uma preocupação: que o edifício caia. Que ninguém se entenda. Que sejamos gozados pela incompetência e falta de visão.

A contratação do Octávio é errada. Não quero personalizar, mas acho que teve um tempo e que o tempo passou. Mesmo o tempo que teve foi um tempo mal passado.

Tenho pena do estilo do BdC. Aquilo não é o Sporting.

Acho que não vamos ganhar nada este ano. É mesmo triste, mas acho. Para além de um treinador que é, na minha opinião, acima de excelente e triplamente doutorado, não em futebol, mas em "bola", não há mais nada. Não há factores de acrescento, só factores de debilidade.

E pronto. Resta apoiar.

Obrigado e boa tarde.

terça-feira, junho 30, 2015

Por alguma razão

Quando o sol se põe, começo a lembrar-me dele, por alguma razão.

O auge da sua falta foi, sem qualquer dúvida, no dia do meu casamento. Senti-me culpado. Por tantas coisas. A primeira foi por não o ter ali. Viu-me sair de casa. Ainda soube da minha mudança para outra casa. Não me viu casar.

Falava bastante com ele. Tinha posição sobre tudo, concordasse-se ou não com ela. Tinha perspectiva, observava. Seria excelente saber o que pensa e o que ele pensava sempre me interessou. Não era mau a julgar caracteres e já tinha visto umas coisas. E ainda há a questão do sentido de humor. Forte.

Nunca o conheci com os defeitos que, ao longo do meu crescimento, lhe foram apontando. Certamente que os teria, o meu ponto é que não os via. Comigo sempre foi acima de excelente.

Deixou mágoa. A partida mudou, de forma objectiva e necessariamente definitiva, a vida. A minha e outras.

E lembro-me dele, sobretudo, quando uma vez, sozinhos, depois de ouvir uma das minhas ladainhas sobre a inutilidade da existência, me disse, de forma avisada e sincera, que devia arranjar ajuda.

Bom, essa ajuda veio, de várias formas. Mais ninguém me teria dito "vai-te tratar" com a seriedade e amizade dele. Costumo odiar sinceridade, mas ali soube-me bem. Talvez por se ter dado um dos raros casos em que a verdade/sinceridade se adequava e mal não faria.

Recordo-o sorridente.

E isso é tudo.

quarta-feira, junho 17, 2015

3 anos

Completam-se 3 anos, neste dia, desde que saí da casa dos meus pais e fui viver com "a tal", a que é hoje minha mulher.

Vou começar pelo inevitável chavão: passou a voar. Ainda me lembro como se tivesse sido há bocado. Saímos, ambos, das nossas origens e fomos ocupar a casa à tarde.

A casa era modesta, bastante humilde, mas serviu o seu propósito, o de albergar um jovem casal, durante pouco mais de um ano. As deficiências do imóvel eram algumas. As do lar nem tanto. Tive sérias infiltrações, rastejantes, frio de rachar e calor de assar.

Apesar de ter sido uma casa para esquecer, há de ficar sempre na minha memória. Porque, apesar de tudo, foi ali que começou a nova etapa da minha vida.

terça-feira, junho 02, 2015

Ser Sócrates, ser 44

No passado dia 31 de Maio de 2015, o Sporting Clube de Portugal ganhou a sua 16.º Taça de Portugal.

Para a massa adepta de um clube que tem andado arredado, quer das discussões, quer dos títulos, significa muito ter o que festejar, quando, e sobretudo, a vitória é de uma raça inigualável.

No dia seguinte ao triunfo, quando venho trabalhar, lembro-me que tenho um cachecol guardado no armário do arquivo. Trata-se, obviamente, de um cachecol à Sporting, com símbolo, cores, the whole nine yards. Orgulhosamente, exibo-o, ainda que não ostensivamente, por cima de uma cómoda que habita o meu gabinete.

Durante o dia, ao receber clientes, e para não ferir susceptibilidades, arrumava-o. Contudo, quando a chamada costa estava livre, lá aparecia ele.

Os meus colegas, Benfiquistas agudos, ao verem aquilo, riam amistosamente, cumprimentavam-me pelo sucesso da minha equipa do coração. O próprio chefe, viu, gargalhou sonoramente e jamais me fez um reparo por ter ali colocado o artefacto.

Hoje, ao chegar, dou de caras, no gabinete onde cumpro calvário, com o irmão do patrão, figura a que já fiz referência no passado.

"Duarte, fui eu que te tirei o cachecol dali. Se a gente não queremos ser provocados, não podemos provocar. Eu conheço o meu irmão e sei que ele não gosta destas coisas. Eu conheço o meu irmão"

Senti-me um preso em Évora.




quarta-feira, maio 27, 2015

Uma estreia

Hoje, fui ameaçado.

Não falo no sentido técnico-jurídico. Falo no plano "social".

É uma estreia.

Não foi uma ameaça de morte. Não foi contra a minha vida, ou integridade física.

Foi no âmbito profissional.

Sendo sempre correcto e justo com todos, fui ameaçado.


segunda-feira, maio 25, 2015

São 8 anos







A minha existência é, por alguma razão que me escapa, marcada por uma angústia constante. A verdade é que poucas vezes tive equilíbrios que me permitissem alguma paz. Contudo, foram muitas as vezes que fui feliz. Modo geral, sou-o.

Faz hoje 8 anos que a minha vida sofreu a primeira grande alteração: encontrei alguém que até estava disposto a aturar-me. Claro que a minha família nunca me faltou com nada, não me podendo queixar. Sucede que, há 8 anos, alguém começou a ver em mim algo que nem eu próprio vislumbro.

Depois de tantos episódios (tantos e bons!), acabei por me casar com a Tal. Aquela que, há 8 anos, me disse que sim.

Se hoje somos casados, também posso dizer que nunca deixámos de ser namorados.

segunda-feira, maio 18, 2015

A multiplicação dos aniversários

"Comemoro" (e mais aspas houvesse) 3 anos de agregação à Ordem dos Advogados.

Recordo-me do dia. Foi tão indiferente, que até comecei a fumar. Foi tão ligeiro, que nem consegui estar ao pé das examinadoras quando foi revelada a nota.

Em suma, um dia fácil, ou não dependessem quase três anos da mais pura submissão a um só momento.

3 anos depois, nesta Segunda-Feira, chego ao escritório e recebo uma mensagem no telemóvel.

"Já tive a má notícia, a juiza condenou-me a pagar tudo a eles".

*

Fui procurado por um colega. Disse-me que precisava da minha ajuda. Havia duas partes em contenda e ele, advogado, sendo amigo de ambas, não queria patrocinar aquela que lhe tinha solicitado patrocínio forense. Pediu-me, então, que avançasse, que representasse aquela que o tinha procurado. O trato era simples: ele fazia os articulados e eu o julgamento.

O caso era ruím. Em traços largos, duas amigas de infância, uma mais rica e outra menos, começaram a explorar um café, juntamente com o marido da rica. O negócio foi proveitoso e quiseram avançar para uma frutaria, na porta ao lado. A frutaria era para ser explorada pelas duas, tanto que ambas, formalmente, eram gerentes. A rica e o marido pediram um empréstimo ao banco e equiparam a casa. Contudo, o negócio correu mal. Não havia receitas, surgiram multas de várias entidades...um pavor. É então que a rica decide que quer fechar aquilo. A menos abonada diz que não, que mantém o barco. Celebra novo contrato de arrendamento e fica a laborar lá.

Alguns anos mais tarde, a rica e o marido dão entrada de uma acção a pedir uma avultada quantia pelos móveis que ficaram no estabelecimento, alegando a existência de um contrato de compra e venda. A "Demandada" procura o meu colega e o meu colega procura-me a mim.

Vim a saber várias coisas.

- Nunca foi celebrado contrato algum. Aliás, os "Demandantes" juntam na Petição Inicial uma minuta e para lá remetem quando querem provar a "existência do contrato";

- Por várias vezes, a minha constituinte insistiu para que os "Demandantes" fossem buscar os seus móveis, até lhe enviou cartas;

- A rica (so to speak) tinha a chave da loja, e sempre teve, para poder ir buscar os móveis e nunca foi;

- A rica deixou dívidas e a pobre pagou-as.

Faz-se julgamento. A minha primeira pergunta para todas as testemunhas, seja dos "Demandantes" como da "Demandada" foi: tem conhecimento se foi celebrado algum contrato entre as partes? A resposta, de todas!, foi uma só: "não". Se não há nada escrito e se ninguém pode confirmar a existência de contrato, está criada uma nova modalidade de prova: a prova por presunção de existência de contrato.

As testemunhas sabiam que tinha havido amizade, um negócio, que as coisas correram mal, mas nunca ninguém disse que tinha havido um contrato.

*

No aniversário dia em que me agreguei, perdi uma acção.

A meu ver, perdi-a sem razão (a sentença é anedótica ao ponto de dar como provados factos que TODAS as testemunhas negaram).

Perdi.


Perder quando o cliente pode suportar é uma coisa. Perder quando nem havia alternativa é uma coisa. Perder quando nada se logrou é uma coisa.

De forma vergonhosa, uma quadrilha foi a um Julgado de Paz pedir dinheiro e saiu de lá com uma sentença.

Sem provar nada. Sem mostrar nada.

E eu não pude evitar.

Perdi.

Se houver deus, não estarei mais 3 anos metido neste sistema.

Não haja equívocos: esta é a pior profissão do mundo.

E eu celebro o terceiro aniversário de "carreira". Sou um Tony.


quarta-feira, maio 06, 2015

Palavras

Há algo de reconfortante em saber que as angustias de que padeço já foram amplamente musicadas pelo Sérgio Godinho e Jorge Palma.

É que eles estão bem.

terça-feira, abril 28, 2015

Levantar hipóteses

Sou um bimbo camuflado.

Vale a pena ser mais concreto. Sou um bimbo sentimentalão. Não daqueles que são "azeite" (viva o princípio da aquisição linguística, se é que existe), ou da terrinha, ou mesmo rapioqueiros.

Gosto de ver o amor na forma real do termo (e por real refiro-me a pertença, como quem fala de direitos reais e da aquisição originária da posse).

Daí ser bimbo. Ouvir com gosto a Lana del Rey quando canta o "Nothing without you", esta dos Madredeus ou uma obra qualquer do Sérgio Godinho.

Acaba por ser um aspecto em mim que gostava de relegar. O problema, sempre o mesmo, são as associações que o subconsciente acaba por fazer.

Hoje, dia em que perco (e pode perder-se em tantos campos), lembro-me que o amparo está naqueles que aqui estão.

E eis o amor. Amor é amparo. Pelo menos na minha idade.



segunda-feira, abril 20, 2015

O loop na prática

Tenho ideia de já ter escrito o que escrevi atrás há um tempo.

É recorrente em mim repetir-me. É recorrente em mim repetir-me.

Seja lá como for, percebi esta cena quando vi o filme pela primeira vez.

Na madrugada a que me refiro abaixo, senti-a.


Um bocado

A Faculdade de Direito, não obstante o número de alunos que admite ao seu curso, não tem propriamente a fama de facilitar o seu caminho dentro de portas.

Ingressei, assim, em 2004 num curso que me daria uma profissão, pensava eu, diferente da que tenho hoje. O primeiro ano foi particularmente doloroso, com a adaptação e conhecimento de realidades que nunca pensei existirem.

Conheci lá um dos meus bons amigos. Por méritos próprios, transitámos para o segundo ano e, mercê do que referi supra, a nossa sub-turma teve de ser fundida com outra. Com efeito, de cerca de trinta e muitas pessoas que compunham a sub-turma de primeiro ano, menos de 50% resistiram, cenário que se generalizava. Como tal, somaram-se os alunos que ainda "respiravam" e juntaram-nos.

Não me vou esquecer dos olhos desse meu amigo quando olhou para uma das aquisições supervenientes. Uma jovem Eborense de cabelos escuros e boas notas (a fama precedia-a).

Naqueles momentos, deve ter havido uma constituição de sociedade cósmica. O Karma, aliou-se à sorte e fundou-se a "Vai, que dá, Lda.".  O objecto social seria a promoção de felicidade daqueles dois moços.

Ontem, fui ao Baptizado do filho deles.

Celebrando a receção do petiz (um braçado de criança), voltei a 2004. Voltei a paredes que, não raras vezes, me puseram à beira da loucura. Não obstante, foi um regresso quase físico. Podia ver, à minha frente, episódios que foram determinantes na pessoa que sou, naquilo em que me tornei. Mas também voltaram as imagens de uma solidariedade materializada.

Na madrugada de 25 de Maio de 2007, recebiam-me em casa e aturavam o meu, também, recém-constituído auge. Passaram o "Lost in Translation" e faziam voar as palavras. Ainda hoje gozam com a minha cara de felicidade.

Contudo, naquele apoio e verdadeira claque, que sempre foram, estavam duas almas que se confirmaram, mutuamente, até aos dias de hoje.

E, ontem, fui ao Baptizado do filho deles.


quinta-feira, abril 02, 2015

No dia da morte de Manoel de Oliveira

Aqui há dias, fui à Fnac numa ótica de prospeção de mercado. Tendo a considerar importante perceber o que há de novo, ainda que em mim exista a tentação do clássico.
Depois de alguns minutos de pesquisas (sim, meros minutos) dei por mim a ler, talvez, o livro que mais gozo me deu ler nos últimos anos: "O Estrangeiro", de Camus. Não estou a falar da obra original, mas da feliz adaptação para banda desenhada.
Em mim cresceu a óbvia e eterna esperança na humanidade, uma vez que ainda não conhecia a possibilidade (a mera possibilidade) de adaptar grandes clássicos à B.D.
Ali fiquei, pouco mais do que uma hora, a rejubilar. Boas ilustrações, a essência da obra apanhada. Enfim, estava conseguido um objectivo.
Naturalmente, voltou a mim uma história que conhecia. Lembro-me de a ler nos idos de 2005. Falhavam pormenores que foram colmatados.

"O Estrangeiro" tem, para mim, um problema: não sei se o interpreto como deve ser interpretado. A mim, lembra-me a vida como ela é. Depois de um acontecimento trágico, por meios que são insondáveis, a vida traz sempre uma série de acontecimentos inexplicáveis, ainda que pareçam corolário da mais elementar fluidez. Recordo alguns episódios da minha vida em que assim sucedeu. O povo (essa entidade superior, e olhem que não é ironia) chama a isto "estar na mó de baixo". Àquele desgraçado, morre a mãe, mete-se com quem não deve, comete um facto típico, ilícito, culposo e punível e vai preso. Não vou estragar o final a quem não leu. O importante disto é o "como", sem haver tanta necessidade de um "porquê". (Para a obra, o "porquê" e conclusões são importantes, ou não. Depende.)

E o "como" levou-me, inexoravelmente, a Manoel de Oliveira. Manoel de Oliveira disse, há meses, uma frase que é lapidar e resume a existência: "a vida é uma derrota".

A vida foi uma derrota para Mersault (Protagonista da obra a que me referi supra). A vida é uma derrota para Manoel de Oliveira. Para quantos mais não foi?

A falta de horizontes, sejam nossos, seja daqueles que nos rodeiam. A falta de compaixão. A falta de sucesso.

E tão relativo que é o sucesso.

Os Xutos (a banda), disseram o mesmo, no "Homem do Leme".

Não vi todos os filmes do chamado "Mestre". Não terei visto metade. Vi alguns. Sabia que estava ali uma alterantiva ao cinema-efeitos-especiais, ao blockbuster. Estava ali um sentido de estética que apreciava. Um ritmo que gostava de ver impresso. Uma forma de ver a arte. Havia diferença. Sobretudo, havia qualidade.

E tanta "porrada" levava Manoel de Oliveira. Das "secas" ao "desinteressante", passando pelo "velho" ao "visto".

Não haja dúvida: fez o que quis. Terá feito como quis? Sempre que quis?

Em resposta à sua arte sempre existiram os inevitáveis antagonistas. A condenação aconteceu.

Agora, morre. Deixando legando. Vivendo nos seus filmes. Fazendo ecoar o nome.

Mas morre.

Porque é inevitável. Dando sentido à vida, claro, mas não resistindo à inevitabilidade.

Acima de tudo, e é este o ponto, creio que o mundo não lhe foi indiferente. Creio, até, no contrário.

Só por isso, ganhou.


sexta-feira, março 27, 2015

Vamos jogar no Totobola

Um pequeno post sobre isto que se está a passar com José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa.

Estava no cinema, à espera de ver um filme que, penso, dispunha de bastantes predicados. Recebo uma mensagem (em rigor, duas) de meu pai:

- "Já viste a última?"

Respondi que não

- "Sócrates detido".

Foi como uma bomba.

Na verdade, quase sempre apoiei Sócrates. Ainda hoje acho que, caso se tem mantido à frente dos destinos do País, isto não tinha chegado à miséria a que chegou. Claro, admito estar enganado. Adiante.

Desde que Sócrates foi preso que tenho adivinhado tudo quanto se tem passado de relevante. Resumindo:

- Depois da detenção, acertei na medida de coação: Prisão Preventiva;

- Depois da medida de coação, adivinhei o desfecho: Perder todos os recursos e mais alguns que invente para alterar a dita medida de coação;

- O Advogado que Sócrates escolheu pode ser um bom Advogado. Não serve para este processo;

- Havia de se chegar à conclusão que o livro não fora escrito por ele.

Ora bem, para não parecer presumido, vou jogar no totobola e apostar nos próximos acontecimentos:

- Os prazos de prisão preventiva vão bater nos limites máximos: antes disso, Sócrates não sai da cadeia.

- A Acusação vai ser conhecida a meio de uma qualquer campanha eleitoral (Dica do meu progenitor), seja ela a das Legislativas ou Presidenciais;

- Os advogados vão abrir instrução: Sócrates vai ser pronunciado;

- Feito o julgamento, que se irá arrastar, Sócrates vai ser condenado por todos os crimes, mas, em cúmulo (que é o que a mula diz ao mulo) não passa dos 7 anos e meio;

- Vai haver recurso para tudo o que seja instância: Sócrates não ganha mais nada, senão umas férias pagas num E.P deste Portugalão.



Coisa diferente é perguntarem-me se acho que os crimes foram cometidos. A isso, respondo como a quase tudo o que mete vida jurídica: não conheço o processo, portanto não sei.

Fecho de Semana

Sem quaisquer leituras secundárias, posto este videoclip de uma música de Sia, chamada Elastic Heart.

Vale pela coreografia, onde se encena uma espécie de batalha, ainda que as leituras que da visualização advenham dêem pano para mangas.

A pensar na semana, em tudo o que ela deu, seria lógico expor duas almas numa jaula em que, no final, ela até consegue sair.




quinta-feira, março 26, 2015

Crises

Bernardo Pires de Lima foi ontem ao "Inferno", programa do Canal Q. Estava a apresentar o seu livro sobre a Síria. No mesmo, consta uma passagem que será qualquer coisa como: "É profundamente injusto dizer que a Síria está em crise". A leitura desta passagem devia ser a seguinte: crise tem a Europa. Na Síria será mais uma catástrofe humanitária.

Ontem foi dia 25 de Março. Dei por mim a pensar: de que raio me estarei a esquecer. Foi o dia inteiro numa busca aos arquivos da massa cinzenta, tentando perceber, afinal, do que me tinha esquecido.

No final do dia, lembrei-me.

O 25 de Março não era nada. O número 25 é tudo.

Durante muitos anos, o dia 25 foi uma instituição. Todos os meses, naquele dia, me lembrava da mudança da minha vida. Para melhor, claro.

Há um anos atrás, estaria num belo restaurante, com muito menos peso do que tenho agora, a olhar para uma delicada escultura humana, sempre recordando o dia em que me aceitou.

Não é que agora não faça o mesmo. Mudou a data, mercê de factos supervenientes.

Um homem casado tem a felicidade imensa de saber que alguém o aceitou como é.


quarta-feira, março 25, 2015

Sopa

Há palavras que nos castigam, que moem a paciência, que nos fazem desejar a surdez.

De entre as muitas que me provocam especial dificuldade, vinha hoje falar da palavra "sopa".

A magia da palavra "sopa" é muito pessoal. Há pessoas que a fazem soar de forma normalíssima, o que agradeço, penhoradamente. Depois, há as outras.

- As pessoas que medem 1,70 metros e pesam 30 kilos.

- As pessoas que estão no ginásio e conseguem sorrir enquanto correm na passadeira.

- As pessoas que dizem que vão almoçar uma "sopa".

- Nutricionistas em geral que falam dos "benefícios da sopa" (quase arranquei um ouvido ao escrever esta merda, fod@-#$)

Toda esta gente, profundamente necessitada de ser enjaulada, profere esta maldita palavra de 4 letras com um som capaz de me fazer desistir da vida. Falam dela como se fosse a solução, como se fosse algo de saboroso.

NÃO É!!!

Ora bem, e dito isto, valia a pena explicar-me. Terá de haver uma razão para estar a comunicar ao vasto auditório que me segue esta espécie de privação de uma relativa qualidade de vida.

E, como sempre, é o trauma. Tem de haver um trauma. Bem recalcado. Bem metido. Impossível de expulsar.

Quando somos mais jovens, entidades existem que "nos obrigam a comer a sopa". 

Está aqui um problema. "Obrigar" e "Sopa". Nunca existe um "obrigar" a fazer algo que valha a pena. Não. "Obrigar" traz dor, traz chatice, traz textos destes anos depois.

A partir de uma certa idade, é certo, podemos escolher. Mas na infância não.

Está aqui a primeira razão.

A segunda razão é a mais evidente: SE A SOPA (AIIIIIIIIIIIIIIII) FOSSE UM ALIMENTO SABOROSO (AIIIII, "SOPA" E "SABOROSO" NA MESMA FRASE!!!) ninguém era obeso. Havia menos diabéticos, menos pessoal com hipertensão e por aí fora.

Terceira razão: a sopa representa um estilo de vida. Um estilo de vida de freiras, de fascistas-higiénicos, de gente que nunca comeu mais nada senão coves em caldo. (Sem querer generalizar. Percebam, é duro escrever tantas vezes a palavrinha e lembrar-me da sua entoação na cabeça. Raios). É um estilo de vida que não me interessa. Até porque, quando morrer, há de estar alguém ao pé do meu casaco de pinho a dizer:

- Este rapaz estava gordo. Só comia pizzas e hamburguers. Nunca o vi a comer uma sopa.

(Estava capaz de jurar que voltava à vida só para esfolar o autor da frase)

Enfim. Ao contrário de tudo mais, eu até aguento bem quem diz "sopinha". É mais irritante, mas remete para o imaginário das coisas rápidas (como sejam um "minutinho" ou "instantinho"). Uma "sopinha" é um castigo que passará rápido.

Antes de terminar, queria fazer uma importante distinção. Caldo Verde não é sopa. Canja não é sopa. Sopa da Pedra não é Sopa. O nome é Caldo Verde, Canja e Sopa da Pedra.

Enfim. O saudável irrita-me. Por isso estou assim.

quarta-feira, março 18, 2015

Lamentos

Tenho lido pouco. Tenho visto pouco cinema europeu. A última vez que fui ao teatro foi há mais de um ano. À Opera nem se fala. Tenho comido coisas que me fazem mal, mas sabem bem. Tenho sido sedentário. Vai fazer em Maio 3 anos de tabaco, ainda que em doses reduzidas.

Que vida boa seria se lesse que nem um doido, conhecesse tudo quanto é ator e realizador da Picheleira até Minsk, escrevesse crítica de teatro para uma revista da especialidade e soubesse cada nota do Anel dos Nibelungos (A série toda). Que saudável seria se comesse verduras e condenasse ao fogo do inferno os hidratos e o açucar. Que grosso estaria se o ginásio fosse diário. O Tabaco dá estilo, poupem-me.

- Senhor Padre?

- Reza um Pai Nosso e um Avé Maria, para te dar força. Deus t'abençoe.





Devia ter amado mais
Ter chorado mais
Ter visto o sol nascer
Devia ter arriscado mais e até errado mais
Ter feito o que eu queria fazer
Queria ter aceitado as pessoas como elas são
Cada um sabe a alegria e a dor que traz no coração

O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar distraído
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar...

Devia ter complicado menos, trabalhado menos
Ter visto o sol se pôr
Devia ter me importado menos com problemas pequenos
Ter morrido de amor
Queria ter aceitado a vida como ela é
A cada um cabe alegrias e a tristeza que vier

O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar distraído
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar...

Devia ter complicado menos, trabalhado menos
Ter visto o sol se pôr.


Joe Cocker - With a little help from my friends

Sendo esta uma Quarta muito Segunda, dei por mim a fazer comparações.

Comparações normais. Com o antes e o agora. Com estes e com aqueles.

Tenho em mim um gene cabresto que me faz olhar para o passado e ver que estive sempre melhor do que estou.

Se o homem também é o que é e mais as circunstâncias, raio.


What would you think if I sang out of tune
Would you stand up and walk out on me?
Lend me your ears and I'll sing you a song
And I'll try not to sing out of key
Oh I get by with a little help from my friends
Mm I get high with a little help from my friends
Mm going to try with a little help from my friends

What do I do when my love is away?
(Does it worry you to be alone?)
How do I feel by the end of the day?
(Are you sad because you're on your own?)
No I get by with a little help from my friends
Mm I get high with a little help from my friends
Mm going to try with a little help from my friends

(Do you need anybody?)
I need somebody to love
(Could it be anybody?)
I want somebody to love

(Would you believe in a love at first sight?)
Yes I'm certain that it happens all the time
(What do you see when you turn out the light?)
I can't tell you, but I know it's mine
Oh I get by with a little help from my friends
Mm I get high with a little help from my friends
Oh I'm going to try with a little help from my friends

(Do you need anybody?)
I just need somebody to love
(Could it be anybody?)
I want somebody to love

Oh I get by with a little help from my friends
Mm going to try with a little help from my friends
Oh I get high with a little help from my friends
Yes I get by with a little help from my friends
With a little help from my friends


sexta-feira, março 13, 2015

Aggiornamento

Os últimos posts têm reflectido queixas atrás de queixas.

Não é legau (Brasileirismo latente).

Vamos mudar de toada.

Claro, há uma razão para o arrazoado de queixume. Há uma parábola que assiste: "Meu filho, quando coçares os tomates e notares que coçaste três, desengana-te: não tens uma terceira bola, estão é a ir-te ao cú".

Perdão pelo calão. Isto segue dentro de momentos.

quarta-feira, março 11, 2015

Mera prova indiciária

Fiz um teste para saber que tipo de pai seria.

Calhou Walter White.

Podia ter calhado o Phil Dunphy, Sonny Koufax, até mesmo Tony Soprano.

Walter White.

Do Breaking Bad.

segunda-feira, março 09, 2015

Lições

Findou, hoje, a produção de prova num processo que corre termos num Julgado de Paz desse Portugalão.

O processo foi-me "confiado" numa ótica de favor, mais concretamente, a parte e a contra-parte são amigos comuns de um colega meu. Por não se querer envolver, o colega pediu-me para fazer o julgamento, cabendo-lhe fazer determinada peça processual, um articulado.

Foi o processo que, sem dúvida, me abalou mais, nem sendo nada de especial. Sem querer revelar os detalhes, aprendi:

1. Nunca aceitar processos de clientes que não te pertecem. Há excepções.

2. Nunca mostrar educação com as testemunhas da parte contrária. Passas por "calmo". Um advogado "calmo" é sinónimo de "corno manso".

3. Aumentar a dose de cinismo na vida diária. Desde que comecei a ser advogado que me vejo um cínico nojento. Para a profissão, é bom. Melhor mesmo só psicopata, no sentido mesmo médico do termo.

4. Nunca receber no fim. É que não sei quanto vou receber, nem quando. Fiz um favor.

5. Nunca faças favores incondicionais, no que à profissão diz respeito. Goes without saying.

Só tenho a dizer que, felizmente, não volto àquele lugar tão cedo.

Também tinha uma lista de desejos. Vou ficar-me pelas lições.

sexta-feira, março 06, 2015

Avulsos

Percebi que a minha pança tem personalidade jurídica.

Merece ser individualizada, ter património, número de identificação fiscal e cartão do cidadão. Merece votar, usufruir do SNS e da Escola Pública.

A minha pança votaria à Direita. CDS-PP. Tirava o curso de Engenharia Agrónoma e só frequentava clínicas privadas, como a dos Lusíadas.

Quem me dera gostar mais de ginásio (e ter tempo...ter tempo...). Se gostasse, a minha pança poderia acasalar com uma pança fémea e terem pancinhas pequenas, que educariam sob forte influência católica. E poderia porque já não estaria em mim a dar-me relevos que bem dispensava.

quarta-feira, março 04, 2015

Devaneios de meio de tarde com remate de convite a contratar.

Gostava de abrir escritório.

Não era sozinho. O ideal era 3/4 pessoas, para se conseguir dividir despesas. Cada um com seus clientes e respectivo pagamento.

Com 4 pessoas, dava € 200/mês a cada um.

Eu sei que ninguém quer, mas,

Quem quer?

terça-feira, março 03, 2015

Souvenirs

(Penso que já terei escrito um post com o mesmo início. A vida é isto mesmo: um Alzheimer consciente)

Em certo filme de Manoel de Oliveira (meu ídolo pessoal), uma das personagens pergunta a outra como se diz "saudades" na língua desse imortal estadista que é Hollande (ela só pergunta mesmo como se diz "saudades"). Andam por ali até que alguém diz que será, talvez, Souvenirs.

Para mim, um Souvenir é um porta-chaves de uma zona balnear. Quiçá, um boneco das Caldas.

Contudo, e na senda do supra exposto, peço justiça.

Nada disso.

Lembrei-me do episódio de uma colega de escritório que daqui saiu no fim do estágio. Tinha arranjado um emprego numa espécie de Secretaria de Estado do Turismo, mas não estou a ser preciso. Seria algo desse género.

Lá foi ela contar ao Ilustre e Distinto Chefe Supremo Cateran que ia embora. De onde estava, ainda se ouviam aqueles sons de alegria contida, expelidos em resposta quando alguém nos diz que ganhou € 5 numa raspadinha, ou quando um notável urso passa com 50% num teste.

Lá regressou ao posto e perguntei-lhe como tinha sido.

Foi então que me contou que tinha dado a novidade, ele tinha-se rido, dito qualquer coisa como "muito bem" (lá está, "ganhaste uma coca-cola extra? boa!") e rematado:

 - Olha, lá para onde fores, vê lá se chegas a horas.

Sempre que a vejo (vivemos perto um do outro), é inevitável lembrar-me da história.

quarta-feira, fevereiro 25, 2015

Um dia gostava de ser um bom advogado.

(Nota para efeitos profissionais: não perdi nenhuma acção hoje. O que me incomoda mesmo é não saber se a vou ganhar e a vitória era a única forma de justiça no caso concreto).

Um bom advogado sabe.

terça-feira, fevereiro 24, 2015

Terapia

Num sketch da Porta dos Fundos, o cenário é o Tribunal. O Advogado defende a sua constituinte alegando que só está acusada porque o mundo está cheio de invejosas. Às tantas, é citada uma vizinha, ao que se segue qualquer coisa como:

- Essa senhora tem falta de terapia.
- Terapia?
- Sim, terapia cheia de pratos para lavar.

Também eu tenho falta disso agora, pelo que escrevo.

Estava a atender um cliente no meu gabinete. Um cliente. No gabinete. Estávamos a falar de coisas jurídicas e da vida do desgraçado que está numa luta pela lavagem da honra quase perdida. Eis que sucede o impensável.

Um gordo. Um filho da puta de um gordo velho.

Sem avisar, entra no meu gabinete dirige-se ao meu cliente e pergunta-lhe se traz mais alguém. O cliente diz que não ao que o gordo, o filho da puta do gordo, responde: "Ah, é que deixou a porta aberta!", rematando com um olhar de censura e um encolher de ombros.

O filho da puta é advogado? Não. É jurista? Não. Tem alguma formação na área do secretariado? Não. Sabe alguma coisa da vida? Pelos vistos sabe tudo menos o essencial: se desse um tiro na cabeça fazia um favor à humanidade.

segunda-feira, fevereiro 23, 2015

Adenda ao Nepotismo

Num tom mais confessional, e com sono (o que me dá forte para a depressão), aqui vai um relato:

Já há muito que deixei, de facto, de trabalhar para uma sociedade. Agora, trabalho para uma família. Isto seria bom se a família fosse a Azevedo, Mello, Amorim e, na locura, Corleone. Mas não. Ser da margem sul, com tudo de bom que de lá advém, oferece, não raras vezes, uma purga olimpica, de maneiras que trabalho para os Silva.

Os Silva são pessoas de origem humilde. Ora, isso não é virtude nenhuma, refira-se. Ter uma origem humilde está no plano de a humanidade ter de respirar para viver ou ter nascido preto. Não se escolhe, é assim e pronto.

Adiante.

A verdadeira nobreza está nos actos praticados quando se deixa de ser humilde, a nível financeiro. Eis que chega a bifurcação: de um lado, ser um merdas mete-nojo que agita a nota como se exibisse a taça da liga dos campeões; por outro, continuar a ser um ser sóbrio, que faz a sua vida, sem que o poder recém-adquirido lhe suba à cabeça.

A família Silva é constituída por Silvas mais velhos e Silvas mais novos. Dos novos falei anteriormente. Hoje é dos velhos que me ocupo.

Conheço a matriarca. Não conheci o patriarca. Conheço filhos, noras, netos.

Estamos a falar de um clã em que perto de 100% dos elementos não vale um chavelho.

Para aquela agremiação familiar, estou em crer que tenho o mesmo valor de um caniche, isto é, um cão com bastante volume, ainda que pequeno, que merece uma taça de ração e água.

Um dos Silvas é meu patrão. Tudo bem, quase todos temos um. Não vem mal ao mundo. Ideal era sermos todos patrões.

Esse Silva tem um irmão Silva. E esse irmão Silva tem a dignidade que a Constituição lhe confere. É problemático, uma vez que também tem personalidade jurídica. Isto é simples: não pode ser atropelado voluntariamente, ter um acidente provocado por terceiros que o vitimize mortalmente ou magoe muito, nem lhe podemos imputar condutas de orientação duvidosa.

E é este o meu lamento.

Obrigado, bom dia.

(Estou a escrever este post de irritação porque o homem entrou no meu gabinete e tive de levar com um tratado sobre a temperatura certa do Ar Condicionado. Quase me proibiu de ter frio. Se calhar, proibiu mesmo.)

sexta-feira, fevereiro 20, 2015

Nepotismo

A filha do meu chefe está hoje a passar o dia no escritório onde eu e o respectivo pai exercem a sua profissão.

Já trabalho no referido espaço há mais de 5 anos. Conheço-a quase desde o início da minha estadia.

Cumpre dizer que está na mesma.

Agora, os pormenores. Dizer a alguém que está na mesma só é elogio para velhos. "Estar na mesma" em qualquer idade que não seja a terceira é profundamente merdoso. "Sempre foste um infantil e para sempre serás".

Ora, o espécime está na mesma desde que a conheço. É capaz de se pôr a cantar a altos berros (o que só ajuda numa actividade que precisa de silêncio) de repente, é capaz de não falar às pessoas e olhar de lado a mostrar quem manda (não sucedeu hoje) como é capaz de sabotar o trabalho administrativo.

Eu lembro-me quando tinha a idade dela. Não era assim.

Nunca fui assim.

Ao fim e ao cabo, o que esteve errado comigo só me prejudicava a mim. Era e sou gordo. Curioso, no meio disto tudo, ninguém diz àquela vitela que é mal educada. Já eu estou sempre a ouvir que sou gordo.

Sempre ouvi.

Já nunca ouvi ninguém repreender outrém  pela falta de educação.

Deve ser por isso que estou condenado e ela terá virtude como futuro.

Não vivi noutros tempos, nem noutras sociedades, mas aqui e agora, fere mais a aparência física que a detestabilidade intrínseca.

Óleo

- "Agora, na televisão, andam a dizer que o óleo faz mal".
- "Pois, parece que é".
- "Eu, quando faço o meu bifinho, nunca deixo de pôr óleo na frigideira. Diz que é melhor pôr azeite, mas eu odeio azeite, ca nojo".

- "Desculpe, pode dar-me um cigarro?".

Abaixo das Janelas Verdes (Green Windows, numa toada mais internacional).

Seguidamente, chegou quem esperava e fui realizar uma diligência judicial (nome pomposo para algo tão rotineiro).

Subi as escadas de um prédio decrépito e só encontrei uma afastada sósia de Anita Guerreiro.

Ali ficámos bem mais do que deviamos a ouvir a predilecção por Bocage e as dedicatórias que tinha feito ao recém-editado livro de um companheiro de tertúlia. Palavra que repetia: Vato.

Não sacando nada daquela freguesia, mas tendo "caçado" uma pista, fomos a uma loja do Chinês ali ao pé, loja que se situava no prédio onde estariam a viver os "objectos" da referida diligência.

De chinesa, a empregada tinha pouco. Perguntou se alguém ia preso. Comprei-lhe um espelho pequeno. Diziam-me que havia falta. Mentira.

Finalmente, fomos à Rua das Janelas Verdes. Tocámos à porta de um majestoso prédio e fomos atendidos por alguém que até conhecia quem procurávamos. Sucedia que já se havia mudado há meses.

Quando terminámos, batia o final de tarde e era dia 12 de Junho. O ar confundia-se com o cheiro de sardinha assada e até as estradas começavam a ficar intransitáveis. Já mal se continha a reprimida, ao longo do ano, vontade de celebrar o Santo António (na gíria, ir para os santos) e lá fomos embora.

Senti que não devia ter saído dali. Devia ter ficado e bebido uma imperial e comido uma bifana, apesar de serem só sete da tarde.

É que desde uma (quase) fatídica noite, não voltei a celebrar o Santo António. Naquele instante em que via esplanadas a serem decoradas com a bela toalha vermelha, cesto do pão e guardanapos de papel branquinho, percebi que a existência era outra.

Noutros tempos, teria ido a Lisboa de propósito para lá passar a noite, na melhor das companhias, ficando por lá, até que batesse o sol e o pequeno-almoço fosse tomado numa qualquer pastelaria da Av. do Brasil, com torradas queimadas.

Daquela vez, vim-me embora quando a festa começou.

sexta-feira, fevereiro 13, 2015

Licitudes e amoralidades

Será que é lícito dizer a alguém desrazoável que é, efectivamente, desrazoável?

É razoável presumir que não.

E ninguém mais do que eu dá valor às presunções. Muito raramente são ilididas.

(Um desabafo mais infantil): naturalmente por me faltar um bocado do cérebro, passo a vida a ouvir críticas. Seja no plano laboral (onde é tão bom malhar neste Jô Soares) seja no plano pessoal. E, como bom cristão, dou a outra face.

Já quando o exercício é levado a cabo por mim, tenho guerra.

Estou um bocado farto do mundo que rodeia.

O ideal era desaparecer durante anos.

Sim, anos.

Para longe.

Fazer o que faço, mas na Arrifana, Matosinhos ou Zambujeira.

Longe. Incontactável.

Sem ninguém.

Só eu.

Sonhos.


quarta-feira, fevereiro 11, 2015

Pequeno momento privativo de Kumbaya ou um texto próprio de velho de Jardim, jogando sueca e tentando lembrar se tomou os comprimidos.




Diz que é de 1968.

Aqui há dias, numa conversa familiar, minha mãe, Professora de profissão, contava-me que falou da Teoria da Evolução na aula. A resposta terá sido algo como: "A Stora acha que viemos dos macacos"?.

A conversa aprofundou. Em suma, aquelas almas não sabiam quem era Herman José. Com muita dificuldade sabiam quem era Ricardo Araújo Pereira.

Não me tenho como culto, penso até que estou ao nível de um simio que aprendeu a colocar os cubos nas ranhuras, tipo Gervásio, mas fiquei melindrado.

Anos de promoção da escola pública, dinheiro gasto, esperanças investidas.

E foi isto.

"Nos tempos que correm, não sei distinguir o bem do mal, o mal do bem".

A propósito de cinema ou (um post que podia ter sido escrito por Carlos Costa. Não o Governador do BdP. O outro. Dos Ídolos)

Há semanas, vi um filme que, não sendo original, muito menos unânime, é, na minha mui modesta opinião, um dos grandes filmes do ano, senão mesmo o melhor.

Para isto ter piada, não vou falar em nomes.

Vale a pena uma sinopse, contudo. O filme, estreado recentemente (é a melhor pista de que me lembro), conta a história de um jovem músico que entra num prestigiado conservatório de música e é "marcado" por uma lenda viva que o recruta para a sua banda.

O que se passa depois é digno de muitas interpretações. A mais fácil (e talvez mais verdadeira) é esta: aquele jovem foi recrutado por nele ter sido visto algum talento, mas o elemento que o recrutou pede meças a Satã e vai fazer-lhe a vida negra sob o pretexto de dele extrair o melhor.

O filme é grande porque não é clara (ainda que o personagem o diga expressamente) a intenção do "mestre". Não é líquido que aquele ser queira extrair o melhor do seu pupilo. Sabemos que existe maldade. Desrespeito. Diminuição. Espezinhamento (isto existe?). Mas a que título? Com que razão.

Mas há um outro aspecto que faz com esta fita me marque para sempre. Sem a parte do talento e da área, aquela também é a minha vida. Mais: tem sido a nossa vida. (Atenção, que a parte do "sem talento" é para mim).

A coberto de algum valor, de algum objetivo, que nem se sabe se existe, somos, ouvimos e lemos o que não queremos. E quem nos dera poder ignorar.

Vale e valerá sempre o menos, o fracasso, a omissão. Foi assim que vi a vida até este ponto.

Pedir desculpa não tem dificuldade nenhuma.

Elogiar genuinamente é um unicórnio. Tanto, que às vezes pensamos que não valemos nada.

E o problema, a meu ver, nem é tanto se não valermos. O conceito de média existe por alguma razão.

É mesmo não saber.

Enfim, no filme, a chave disto tudo estava no jovem. E porquê? Porque grande é quem sabe. Grande é quem não precisa que lhe meçam a altura.

Tomara eu.

sexta-feira, janeiro 23, 2015

Variações

Licenciei-me em 2009, depois de 5 (longos ou nem tanto, depende da perspectiva) anos.
Estudei, a princípio, o ordenamento jurídico pelo qual as pessoas se regem neste país. Do mais político ao mais prático.
Depois, ingressei na advocacia. Para quem não sabe, a advocacia, para mim, foi quase como a polícia para qualquer cidadão: "não sabes fazer nada? Vai para a polícia."
Então, tive a oportunidade de aplicar a lei. É um problema. Pode ser estimulante, consoante a área de prática ou o nervosismo do cliente. Contudo, um problema é sempre um problema.
Todos os dias morro um bocado devido à escolha que fiz. Para tantos, o curso de direito foi um suplício de um calvário de dificuldades, mercê da carga teórica e desinteresse que algumas matérias suscitam. Digamos que sofri um pouco naqueles cinco anos. Mas sofrer é bem diferente de uma morte, ainda que metafórica.

Hoje, quase 5 anos depois da conclusão do iter jurídico, chegado de um almoço catita, tenho na minha secretária uma sentença.

Sem revelar dados mais técnicos, dizia, em suma, que não tinha razão.

O direito é curioso: podemos não ter razão a vários níveis. Ganhar é ter razão em todos.

Estar a escrever este texto é, tão-somente, um exercício de contacto com a realidade.

Desde cedo que a vida me disse que a minha capacidade intelectual dava, quando muito, para qualquer coisa relacionada com a distribuição alimentar. Conduzir um camião de alfaces. Repor stock nas prateleiras de uma superficie de supermercado. Empilhar caixotes. Varrer corredores.

Diga-se, em abono da verdade, que não pretendo escarnecer de qualquer destas actividades. São dignas e executadas por alguém, sem qualquer dúvida, bem melhor que eu.

Só que devo colocar as coisas em perspectiva. Nenhuma das profissões citadas precisa de 5 anos de estudo e sucessivos seminários de aperfeiçoamento. Basta a boa vontade e força. E isso são coisas que não me faltaram.

Mas, hoje, perdi. Perdi em vários níveis e em vários campos. Mal comparando, é como se o Sporting tivesse perdido em casa contra o último classificado das distritais e os rivais tivessem ganho ao Real Madrid e Barcelona nos respectivos domínios.

E perdi porque li (não concordo, repito-o até à exaustão) mal a lei aplicável.

5 anos de curso.

Quase 5 anos de prática.

E li mal a lei. (Diz o Juiz.)

Princípio de Peter verificado.

Tenho que mudar as agulhas.










segunda-feira, janeiro 19, 2015

Problema da 4.ª Classe

Tenho viatura automóvel própria. Devo dizer, em abono da verdade, que é uma ferramenta de trabalho e lazer como nunca tive.

Não tenho casa própria, mas vivo numa arrendada, em Almada. E já lá vivo vai para dois anos.

É natural, quando não obrigatório, deslocar-me naquela que é a tradicional rotina pequeno-burguesa "casa-trabalho-casa".

Mas vale a pena ser específico. Durante a semana, a rotina exacta é: casa-trabalho-casa-trabalho-casa. E porquê? Porque a refeição a que se convencionou chamar almoço é tomada, por mim, em casa.

Não vem ao caso toda a miríade de complexos sócio-económicos que brotam deste estilo de vida.

Abrevio: no dia de hoje, quando vim a casa almoçar, estacionei a viatura onde estaciono sempre. Quando voltei, tinha uma notificação, a primeira da minha vida: não era uma multa de trânsito, nem de estacionamento. Isso viria depois. Depois do quê? Depois de falhar a oportunidade que me foi dada para pagar uma taxa indevida de ocupação de um lugar de estacionamento pago.

Adiciono mais umas variáveis:

- Em Almada, há 3 tipos de lugares de estacionamento (grosso modo): livres, para residentes e pagos.

- Tenho livre acesso aos lugares "para residentes";

- Estacionei naquilo a que apelidei de "lugar pago".

- Procurei e não havia qualquer lugar disponível para residente.

 Pergunta-se:

Tendo em conta que:

- Os lugares pagos o são desde as 9 horas até às 19 horas, durante os dias úteis e das 9 horas até às 14h aos sábados,

 - Que entro ao serviço depois das 9 horas,

Como é que é a minha vida?

segunda-feira, janeiro 12, 2015

Ainda não decidi

"Pensar é estar doente dos olhos" ou o autor deste post pensa demais e, portanto, quer fazer um downsizing desse departamento por si próprio apelidado "Departamento de meditação que cai, mais das vezes, em saco roto".

Deixo de falar na terceira pessoa, agora.

Ainda não decidi se sou, ou não, Charlie.

Como quero diminuir o peso do supra citado "Departamento" limitei-me a ver os factos e a tirar conclusões, sempre no tom mais básico a que qualquer representante da humanidade pode aspirar.

Os ataques são de um nojo inominável. Soma-se tudo o que está errado: tirar a vida às pessoas, em nome de inexistências, por motivos reprováveis.

Atacou-se a vida, a liberdade de expressão, de imprensa e fez-se a apologia da violência e de um sector extremista de uma religião que até prega a paz.

Porventura, quando se ergue a bandeira de "Somos todos Charlie", queria estender-se a todos e a cada um a dor do ataque. Não com o preço da própria existência, mas num acto simbólico em que ficámos todos afectados com a diminuição, pela força, de liberdades essenciais. Será qualquer coisa do género: calar um é calar todos. Aconteceu a um como podia ter acontecido a todos.

Depois apareceu o Gustavo Santos.

Quem tem andado atento a vídeos e programas de TV sabe de quem se trata. Life Coach (e associar o termo ao futebol?) e apresentador. Ex-bailarino e atual lenha para queimar.

A única coisa que, até hoje, o Gustava Santos me deu foi uma valente gargalhada. E não estou as falar do comentário que fez no FB. Refiro-me aos vídeos motivacionais em que "o grande amor da vida do Gustavo é o Gustavo. Por isso é que se chama a vida do Gustava. A nossa mente chama-se mente porque nos mente todos os dias".

Depois de me lembrar do "Meu irmão", imortal êxito do quarteto 1111, ri-me.

Gustavo Santos foi linchado. Só faltou irem a casa dele com Ak-47 e darem-lhe um tiro.

Para além do Gustavo Santos, apareceu Rui Sinel de Cordes. João Quadros. José de Pina. Tudo nomes cujo trabalho aprecio, cada um à sua maneira. Chegaram comentadores. Chegaram anónimos.

Já ninguém queria ser Charlie. Uns porque "não é Charlie quem quer". Outros porque não gostam de rótulos e outros por ser Charlie não é nada daquilo que tem sido apregoado.

Nisto, sinto-me como o Paulo de Carvalho.

Fiquei sem saber quem era e o que fazia aqui.

Depois de tanta linha escrita, tanta tinta usada, só me apercebi que sou o autor deste post.


Sei lá se sou Charlie.

O "mote" usado para agregar as pessoas para uma causa (Je suis Charlie) foi, ele próprio, alvo de discussão, de separação, de ofensa e de contenda, ainda que a uma escala reduzida.

E era usado para o bem!

O dever de qualquer pessoa de bem, concorde ou não com os Cartoons, Cristão ou Muçulmano, jornalista ou "civil", preto ou branco, mais cómico ou menos cómico, mais ou menos susceptível, é só um e um só: condenar o acto que vitimou aquelas pessoas. Porque não há desculpa no mundo que salve quem as atacou.

Não há razão para pensar se houve excesso dos cartoonistas. Nem para pensar sobre os limites de humor. Não é essa a discussão.

Morreram pessoas. Morreram no exercício das suas funções. Morreram sem razão atendível.

Só se pode discutir os limites do humor quando há liberdade. Só se pode discutir o que é ou não ofensa quando existem e se aplicam os mecanismos próprios do Estado de Direito.

Quem mata porque está ofendido não sabe o que é a liberdade. Quem defende cegamente um ideal sem postura crítica não é livre.

Por isso, com o devido respeito, marimbo-me para quem é e para quem não é Charlie.


segunda-feira, janeiro 05, 2015

Quantificação

Morfologicamente, pareço o Prof. Chanfrado, personagem interpretada por Eddie Murphy.

Desde dia 24 que os meus convívios passam por um farto repasto. Comer e beber. Conversar. Galhofar. Comer e beber. Conversar. Galhofar.

Tenho perdido tanta coisa ao longo da vida que já me custa quantificar. Pessoas, sobretudo. Depois há os bens, a honra, a dignidade e o amor próprio.

Em nenhum momento da minha (ainda) parca existência envidei esforço algum para me serem retiradas as realidades supra citadas.

Agora, estou redondo.

Como perco a roda de camião que habita no meu ventre?

domingo, janeiro 04, 2015

Estou velho.

Era só  isto.

terça-feira, dezembro 23, 2014

De maneiras que, e mais uma vez ao contrário dos outros anos, não vou enviar mensagens nem telefonar a quem quer que seja a desejar feliz natal, ou próspero ano novo.

Impossibilidades

Por esta altura, ou talvez não, já teria neste espaço uma qualquer árvore de natal e uns votos de festas felizes.

Este ano estou a ser incapaz de postar seja o que for nesse sentido.

As razões são muitas.

A principal é que estou a sentir, mais que nunca, a perda. Sinto a falta. Das pessoas. Do espírito.

Os natais que vivi são irrepetíveis. Nunca havia alegria como aquela. Era como se o ano todo se andasse a preparar para dar as pessoas doses maciças de jubilo, alegria, felicidade.

E assim foram pelas pessoas que o compunham (ao natal) como pela ideia do mundo que tinha.

Nada daquilo se manteve. O que acaba por ser natural. As pessoas partem, tanto física como mentalmente, e as nossas concepções também.

Por isso, em vez dos habituais votos de boas festas, vou escrever, uma vez mais para memória futura, algumas lições que tiro deste ano.

A de hoje é:

- Não vale a pena fazer o bem, ajudar, assistir. É mais feliz quem não pratica semelhantes virtudes.

(Não estou a querer dizer que o contrário é aceitável.)

segunda-feira, dezembro 22, 2014

Por ocasião do Natal

Descobri que me tornei um cínico.

É verdade.

Toda a gente fala dos grandes confrontos e guerras que existiram na história.

Raramente alguém se lembra de quem estava no meio. Na diplomacia, no controlo de danos, na promoção do entendimento.

A verdade é uma: não obstante a existência de meios pacíficos de resolução de litígios, sejam eles quais forem, uma contenda só acaba quando alguém a vence.

Alguém tem de perder para que haja, pelo menos, alguém contente, um vencedor.

Ninguém está disposto a transigir, a chegar a meio termo.

Na ótica dos terrestres, transigir é perder totalmente. E isso ninguém quer.

Vai daí, tornei-me cínico.

Estou no meio de tudo. Ou quase.

Estou constantemente a tentar apagar fogos, a pacificar a equilibrar.

E isso é tarefa de um cínico.

Também descobri recentemente, ou talvez não, que só conta, para toda a humanidade (escrevo duas vezes: TODA A HUMANIDADE) os actos tidos por errados.

Não sobra a lembrança, jamais, de atitudes nobres e corretas. A desconfiança nunca merece arguição. Uma coisa que parece errada aos olhos de um julgador, passa a não parecer, para ser, e uma vida normal é um atentado à decência.

Isto para dizer que, aos olhos dos que me rodeiam, sou uma desilusão.

E isso é mais trágico de aturar no Natal.

quinta-feira, dezembro 18, 2014

Relato

Tenho um chefe.

O chefe chefia, portanto manda.

O chefe mandou, ainda que de forma abstrata, fazer determinado requerimento.

Foi feito.

Começava assim: "A Exequente, tendo tomado da Oposição apresentada (...)".

Como é óbvio, faltava lá uma palavra: "conhecimento".

Fui chamado.

Foi-me dito que o meu Português é imperceptível, que sou distraído, tudo num tom parecido àquele que é usado para escorraçar um cão vadio que tenta raspar o nosso caixote do lixo.

Num fundo, a realidade, sendo brutal, fala comigo por enigmas.

Esqueci-me de escrever "conhecimento". Só pode ser porque tenho falta dele.

O meu Português é imperceptível, daí ter concluído as disciplinas que o ensinam sempre com muita dificuldade.

O tom que é usado comigo é o próprio. Afinal, que sou eu senão um cão vadio à cata de lixo?

Isto só não acabou comigo porque estas crises são cíclicas e não contínuas.

Numa linguagem pueril, o chefe esquece-se que me odeia, durante certos períodos de tempo. Depois lembra-se.

Quando se lembra, a pena por me ter esquecido do "conhecimento" é ser tratado como aquilo que sou e mereço.

Se quero pagar renda, comer, tomar banho e fazer outras coisas que custem dinheiro, tenho que aceitar a minha condição.

De cão.

Que sou.

segunda-feira, dezembro 15, 2014

A importância da física e da química nos dias que correm.

• 500 gr de farinha
• 3 ovos
• Raspa de laranja
• 50 gr de açúcar
• 50 gr de manteiga
• 50 gr de aguardente
• Água e sal q.b.

Misturar bem o açúcar com a manteiga. Adicionar os ovos, a aguardente, a farinha e o sal e amassar muito bem. Adicionar água se necessário e amassar até obter uma massa lisa e elástica. Deixar repousar durante, pelo menos, uma hora.
Tender rectângulos com o auxílio do rolo, numa espessura de 2 milímetros. Fazer três cortes no meio. Fritar em óleo e passar por açúcar e canela.

Espírito Santo

Numa rábula mágica do Herman Enciclopédia, imagina-se o que seria uma recriação do "Juiz Decide" em que os "litigantes" são o Menino Jesus e o Pai Natal.

No final, o Pai Natal perde, uma vez que não existe. Em termos técnicos isto chama-se excepção dilatória por falta de personalidade jurídica e, portanto, judiciária. Efeito: absolvição da instância.

Adiante.

Apesar do desfecho desfavorável, os atores processuais cumprimentam-se e o Menino convida o Pai Natal para ir lá jantar a casa, por conta do Espírito Santo. O Pai Natal pergunta se também não existem negócios com o Jardim Gonçalves.

Quando olho para Ricardo Salgado, sempre presumindo a sua inocência e verdade no que alega, lembro-me dos milhões de trocadilhos que se podem fazer com as palavras "Espírito Santo". Aqui há dias, não vi trocadilhos, lembrei-me de algo. Percebi, se assim se quiser.

Esta altura do ano fez entrar uma frase na minha cabeça: "se tivesse tempo e dinheiro, andava sempre e gastava tudo nos médicos".

Tristemente, este tem sido o meu mantra. Especialmente desde o começo do fim-de-semana.

Para mim, nada seria mais reconfortante do que fazer todos os exames possíveis e imaginarios às mais ínfimas partes do corpo.

Mas, melhor mesmo, seria passar uma hora por semana (quiçá duas) num gabinete psiquiátrico a falar da vida.

Só falar, despejar. Tudo a ser ouvido por uma parte imparcial que tomava notas, dava dicas e receitava comprimidos, os quais cuja toma iria negligenciar.

O meu ideal de dia seria acordar, ir para um ginásio privativo durante uma hora, já depois de ter tomado o pequeno almoço e lido as gordas dos jornais. Depois do ginásio, as consultas e exames. Análises ao sangue, urina, fezes e auscultação. Semana sim, semana não, análise ao escarro. Raio-x, TAC.

O almoço era elaborado por alguém que eu nunca iria conhecer e que faria algo supreendente, estando vedada a confecção de peixe cozido.

Depois de almoço, iria litigar. Dar pareceres. Essas coisas.

Depois, ao fim da tarde, psiquiatria para cima. Uma hora de palranço do mais chato e infeliz.

Jantar nos mesmos moldes do almoço.

Cinema.

Cama.

Desviei-me um bocado da rota.

Natal, não era? No que o Ricardo Salgado me levou a pensar.

Enfim, está aí a época.

Não há muitos anos começava a sonhar com o reencontro da minha família. Muitos deles são velhotes desde que me lembro. Mas ainda assim. Nunca fui avesso a pessoas idosas, pelo contrário. Sobretudo àqueles que passavam o Natal comigo devo quase tudo o que sou.

Hoje parece que cresci. A 10 dias do Dia de Natal só me consigo lembrar do que me falta.

Faltam pessoas centrais. Falta, curiosamente, alguma paz.

Vou voltar ao Herman, uma vez que comecei com ele. Lembrei, já neste blog, uma entrevista que ele deu a um programa chamado "Baseado num histórica verídica", em que dizia que a vida dos pobres é uma seca, que não seria, sequer, parecida à do Ricardo Salgado (sempre ele), onde se falaria de cavalos, affairs com chauffers e por aí fora.

Não vou concluir.


quinta-feira, dezembro 11, 2014

Tempo

Estou doente. Não sei se é grave. Não sei se é normal.

Nesta altura do ano, acontece ciclicamente. Constipações múltiplas. Pingo de ranho no nariz, espirros.

Contudo, ao contrário dos outros anos, tratei dos sintomas supra expostos, mas sobrou um: a tosse.

Quem me conhece sabe que tenho medo de duas coisas: do escuro e da tosse.

Tenho uma tosse semi-produtiva há, precisamente, 6 dias. Pior, é mais frequente no início e no fim do dia.

São vários traumas a congregar a desgraça. Neste momento, queria estar em quarentena, a levar com todos os antibióticos possíveis e imaginários.

Mas não.

É neste momento que quero falar do tempo. Não do tempo enquanto fenómeno meteorológico, mas enquanto divisão do dia em horas, minutos e segundos.

E queria lançar um lamento. Tão típico, tão eu.

Lamento não ter tempo de me ir meter no primeiro médico que vir. Lamento não ir a correr para as urgências para me fazerem todos os testes e mais alguns.

Isto é triste, não é?

Odeio estar assim.

sexta-feira, dezembro 05, 2014

sexta-feira, novembro 21, 2014

Sabotagem

Ainda ontem, no gabinete onde exerço cerca de 98% da minha actividade profissional, uma cliente relatava-me como lhe tinha sido "roubado" um contrato de serviços de transporte que havia celebrado com um importante cliente espanhol.

Explicitando, a senhora era uma empresária de sucesso, com faturação anual de mais de € 500.000,00. De um dia para o outro, os empregados, ainda que contratualmente obrigados a absterem-se de semelhantes condutas, constituiram uma empresa e conseguiram que o cliente da dita senhora cessasse o contrato e lhes adjudicasse os serviços.

Esta conduta é reprovável a todos os níveis. Tenho mesmo a sensação que nem o Camilo Lourenço instigaria a tanto, o que não é dizer pouco.

A cliente procurava uma definição para isto. Falou em sabotagem. O primeiro dicionário on-line que a pesquisa do google fornece define sabotagem como: Sabotagem significa toda a ação que visa prejudidar o trabalho de alguém. Sua origem vem da França, onde a palavra ¨sabot¨quer dizer tamanco e antigamente, os operários trabalhavam usando tamancos. Nos protestos contra o patrão , jogavam os tamancos sobre as máquinas para danificá-las, daí o têrmo ficou conhecido com o seu significado atual.

Tenho defendido que coisas más devem acontecer a más pessoas. Tenho, inclusivamente, desejado com algumas das mais profundas forças do meu ser que aconteçam coisas más a más pessoas.

Apesar disto, uma coisa parece certa: nada vai acontecer, a menos que seja provocado. Daí relembrar o episódio da supra citada senhora. Os empregados, (inserir adjectivo), levaram a cabo o seu plano e trabalharam a seu favor. É bem verdade que sabotaram as relações profissionais da senhora, mas eu também já referi que a acção é tudo menos digna.

A lição que tiro disto é que, até em acções profundamente condenáveis estão exemplos. Digo isto a observar uma esfera humana com neve no seu topo. Uma esfera que grunhe, que se move qual lesma, a arrastar-se.

quinta-feira, novembro 13, 2014

Notas

Como sempre, voltou a chover.

A chuva traz consigo um certo estado de alma.

Até esta linha, só escrevi lugares comuns.

O pior da chuva é quando age em comparticipação. Ou quando tem cumplices. Nesse caso, o corpo humano é uma diligência a percorrer uma qualquer paisagem árida do "far-west" prontinha para ser assaltada pelo bando mais temido das paragens: a chuva, o vento, o frio e o sono.

Na diligência que vos escreve, o sono será sempre o cabecilha.

Fui assaltado.

(Metaforicamente, certo?)

sexta-feira, outubro 31, 2014

Em memória

Deixai que a Vida sobre Vós Repouse  


Deixai que a vida sobre vós repouse
qual como só de vós é consentida
enquanto em vós o que não sois não ouse

erguê-la ao nada a que regressa a vida.
Que única seja, e uma vez mais aquela
que nunca veio e nunca foi perdida.

Deixai-a ser a que se não revela
senão no ardor de não supor iguais
seus olhos de pensá-la outra mais bela.

Deixai-a ser a que não volta mais,
a ansiosa, inadiável, insegura,
a que se esquece dos sinais fatais,

a que é do tempo a ideada formosura,
a que se encontra se se não procura.

Jorge de Sena, in 'As Evidências'

sexta-feira, outubro 17, 2014

Para quem gosta

No próximo dia 24 de Outubro, vou estar em Leiria a enfadar os locais.

Trata-se do VI Congresso Internacional de Ciências Jurídico-Empresariais, a realizar no Instituto Politécnico de Leiria.

Fica o programa:

9h 30m Sessão de Abertura
Nuno Mangas
Presidente do IPLeiria

10h Os limites da autonomia privada nos planos de recuperação
Paulo de Tarso Domingues, Faculdade de Direito da Universidade do Porto

10h 30m A declaração de insolvência por atraso nas contas das sociedades comerciais
Paulo Vasconcelos, ISCAP/IPP

10h 50m O processo de insolvência enquanto realidade fiscal
Paula Martins Cunha, Advogada

11h 10m A responsabilidade tributária do administrador judicial
António Peixoto Araújo, Solicitador
Maria João Pimentel Felgueiras Machado, ESTGF/IPP

11h 30m Ejecucion de la hipoteca sobre el buque en situaciones concursales: aspectos generales
Francisco Torres, Universidade de Vigo, Espanha

11h 50m Debate

12h 10m Pausa para almoço

14h Tema a designar
Luís Martins, Advogado

14h 30m Os créditos laborais no processo especial de revitalização
Ana Ribeiro Costa, UCP-Escola de Direito do Porto, Advogada

14h 50m Recuperação de empresas: efeitos sobre os negócios e ações em curso
Ana Cláudia Redecker, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Brasil

15h 10m Pedido de declaração de insolvência por outro legitimado: exercício do direito de ação ou abuso de direito de ação?
Lurdes Dias Alves, Universidade Autónoma de Lisboa

15h 30m As opções em aberto no CIRE: reestruturar, revitalizar, recuperar ou liquidar?
António Raposo Subtil, Advogado

16h Debate

16h 20m Coffee Break

16h 40m A pessoa insolvencial no processo de insolvência – um contributo para o enquadramento dogmático do plano de insolvência
Pedro Barrambana Santos, Advogado estagiário

17h A não homologação do plano de pagamentos na insolvência singular: um caso
Duarte Cadete, Advogado

17h 20m A recuperação judicial na lei 11.101/2005: pode-se falar em (in)eficácia do instituto?
Lais Lucas, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Brasil, consultora empresarial

17h 50m Análise sócio-jurídica da exoneração do passivo restante
Catarina Frade, Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra

18h 20m Debate

18h 40m Sessão de Encerramento
Nuno Rodrigues, Subdiretor da ESTG


Não é gratis, mas é dinheiro bem empregue uma vez que, tirando este vosso amigo, há temas e convidados bem interessantes. 
 
 
Link:  http://cicje.ipleiria.pt/home/

Da igualdade enquanto valor universal a preservar

(Não se entenda, por um minuto que seja, que o texto abaixo se destina a rebaixar quem quer que seja ou que se pretende minorar uma luta pelos direitos cívicos das pessoas portadoras de deficiência. Serei sempre o primeiro a apoiá-las, contudo, deixai-me gozar um pouco o prato).

Onde trabalho, há lugar para todos.

Velhos,

Novos,

Experientes,

Novatos.

Na senda da boa vontade e paz entre os Homens que uma chefia esquerdalha (ou só pretensamente) sempre apadrinha, foi contratado para exercer funções de "coiso" o irmão do empregador.

Cumpre, para poupar tempo, desmistificar os traços essenciais do indivíduo.

É parvo. Profundamente. Muito. Quase inexplicavelmente. Dá quase para perguntar quem é que pode ser assim.

Ora, o irmão do empregador, a quem vamos tratar por "Coise" (sim, com "e" no fim, dito à moda de Alfama) padece de uma enfermidade patológica.

Se calhar sabe, se calhar não sabe.

Mas é visível, é palpável.

E torna-se complicado trabalhar com alguém assim.

O "Coise" tem, como uma das funções, para as quais é altamente qualificado, inscrever num programa informático as horas debitadas aos clientes por realização de tarefas jurídicas.

Dou um exemplo:

Se fiz uma peça processual que durou 1 hora, inscrevo o nome da peça, o tempo despendido e o nome do cliente numa folha-razão e entrego-lha.

Hoje, para não variar, veio ter comigo e perguntou-me o que tinha escrito. Respondi-lhe.

"Contrato. Entre os parenteses está escrito minuta".

Resposta:

"Epá, mas tá entre os parenteses porquê? Não escreveste minuta de contrato porquê? Fogo!"

Foi até ao seu covil, onde faz penar uma jovem estagiária, a repetir isto. Chegou lá e ainda se queixou à jovem, espantado pelo facto de se ter escrito "Minuta" entre parenteses.

Foi nestes episódios que descobri o ateísmo.

É que se houvesse Deus, havia um raio que fulmimava tamanho pleonasmo andante.

Se existisse Divindade, aquela sumula de tudo o que está mal na humanidade tinha um qualquer destino que não o mesmo local de trabalho que o meu.

Também o ora escritor deveria usar o seu tempo para ser útil, mas prefere queixar-se de trolhas promovidos a diretores de recursos humanos.

Mas também eu sou um bocado um erro com pernas.

segunda-feira, outubro 13, 2014

Proliferação de proliferações ao nivel da proliferia

A última palavra do título é por mim inventada.

Depois de gozadas as férias/lua-de-mel, regresso ao meu trabalho. Claro que, nos dias que correm, é já uma grande sorte ter emprego e ser remunerado pelo trabalho que se desenvolve.

Não obstante, se me perguntarem se queria estar noutro lado, a resposta será "sim".

Neste momento, motiva-me um facto para escrever este post.

Um colaborador da sociedade ouve, a altos berros, o "Vermelho", popularizado pela Fafá de Belém. Contudo, não é essa versão que toca, mas uma outra.

Ora, há coisas piores que estar a ouvir o "Vermelho" a "altos berros".

Contudo, após a versão menos conhecida, toca a versão conhecida. E depois disso, a Adele (never mind i find um chouriçooooo).

Que classe.
Entretanto, casei-me.

segunda-feira, setembro 15, 2014

Virtutibus Maiorum ut sit omnibus documento

Do arco da Rua Augusta consta a inscrição que serve de título a este post.

Não sendo este o espaço que vai informar o que significa aquele latido, acabo por me lembrar daquela frase como se fosse um pequeno consolo.

Cada um encerra características (normalmente chamadas de "feitio") que fazem pensar, ainda que só por breves instantes, que nada aconteceu antes deles e que a história é mais estória que outra coisa.

Tão só quero lembrar-me, avidamente, que a decorrência da miséria física e moral em que me encontro tem pouco de importante ou exclusivo. É bastante comum esquecer-me de qual era a minha postura quando consegui estar em fases melhores da minha vida.

Não havia "e se?".

Não havia "vamos lá ver se".

Havia o "vamos". Que é a primeira pessoa do plural do presente do indicativo do verbo ir.

Pois bem, apesar de ser mau, triste, ser paradigmático dos aspectos negativos que a vida tem dado a provar, há que lembrar que não será o primeiro, nem o último casório feito à chuva.

Vamos lá.