terça-feira, setembro 22, 2015

Banda Sonora para as Eleições

Hoje, mais um fado. Este remota à I República (assim me disseram), contudo, vou aproveitá-lo para enquadrar duas temáticas ou, por outra, dois traços que marcam uma campanha eleitoral em Portugal: as arruadas e as famílias que deixam de se falar porque "a prima Laura é uma comuna de merda" e o "Zé é um facho do caralho".

Desata tudo ao biscoito.




Coisas que parecem promissoras quando escutado o seu nome, mas que, na verdade, não são - Continuação I

Dobrada

Pork. Pig

Ontem escrevia-se que, a certa altura, Cameron, British P.M, enfiou o seu pénis na boca de um porco morto. Chama-se ao caso Pig Gate.

Hoje, li que o Pedro Boucherie Mendes não acha assim tão importante ter opinião sobre tudo e que, por vezes, até finge ter opinião sobre determinado tópico, finalizando com o exemplo do caso dos Mirós.

Há bocado, li um bocado do Beccaria, na parte em que dizia que o juiz deve construir um silogismo perfeito para decidir e apresentar a sua decisão.

Agora, temo bem que o mundo esteja sobrecarregado de coisas que não interessam ao menino Jesus.

Coisas que parecem promissoras quando escutado o seu nome, mas que, na verdade, não são - Introdução

Cassata

sexta-feira, setembro 18, 2015

Respeito

Tinha mais ou menos um metro e sessenta. Aparência cuidada, e bons modos, não deve muito à beleza.

Vinha contar-me o que ali a trazia. Violência doméstica. Um agarrar de pescoço. Uma discussão. Anos de bailado e natação, como na música. Um namoro de quase 20 anos, com filhos, com momentos.

Descobri traições constantes e serôdias.

Descobri desprezo pela família.

Ainda não percebi porquê.

Porquê só hoje.

Não me venham com histórias: é maior a capacidade de sofrer do que a capacidade de amar.

quinta-feira, setembro 17, 2015

Ensaio (pois, sim. Mini-escrito e já gozas) sobre uma hipotética banda sonora para as eleições

Pode ser só de mim, mas acho que todos os momentos da vida individual e colectiva devem ser acompanhados de música. O amor, o fel, o desprezo, o sucesso. Há som adequado a tudo.

Hoje, vamos perceber (vamos, isto é, eu) que existe "sonido" para as próximas eleições.

Para a indiferença. Para os candidatos, políticas e propostas. Para a realidade. Para a miséria.

Vou tentar colocar uma por semana.

Hoje, o povo que talha com o seu machado as tábuas do meu caixão.




terça-feira, setembro 15, 2015

O Mundo

Vi, há momentos, uma publicidade a uma série em que o protagonista é um fulano super inteligente, capaz e munido de recursos infindáveis.

Este modelo de personagem não é novo. Basta pensar: Dr. House, Shark, Forever e por aí fora.

Quando não estamos a fazer vénias ao génio, há a outra face das séries: os homicídios. Nem faço ideia à quantidade de gente morta nas 20 temporadas de Lei e Ordem ou nas 15 de CSI. Em contas breves, numa estimativa rápida, se cada série tem 22 episódios e em cada episódio morre uma pessoa, em Lei e Ordem já morreram 440 pessoas e no CSI morreram 330, ou seja, somado dá 770.

Isto é o grosso das séries.

Fora o génio e homicídio, há, também, mas não só, o híbrido e o original. Como híbrido temos o exemplo do policial. Aí, há um génio que investiga o homicídio. Mantenho a autonomia dogmática do híbrido porquanto, ainda que em séries como o Lei e Ordem não haja génios, há policias esforçados, no True Detective há génios puros...a investigar homicídios... O híbrido também comporta séries de médicos, ou advogados: E.R, Good wife ou Grey. Mistura-se drama com algo especializado. Também sucede com a comédia, quando se junta a dita ao direito e temos o Boston Legal, só a título de exemplo.

Resta o original ou "despadronizado", mas não só, ou seja, qualquer coisa que não está massificada como os géneros supra descritos. As sit-com foram originais. Deixaram de ser e agora estão no mainstream, juntamente com todo o resto da comédia. Eis outro género. As séries de ficção científica também estão à parte e ainda servem um nicho.

Então o que é original? Guerra dos tronos? Parece-me que se encaixa nas séries de época/históricas, à semelhança das adaptações de grandes livros ou livros bem vendidos, como os Pilares da Terra.

No catálogo de "original", há quatro exemplos, na minha modesta opinião: O Shameless (Inglês ou Americano), o Nip/Tuck, Wayward Pines ou American Horror Story. Há mais coisas, mas estes são de salientar.

E porquê esta dissertação?

Para expressar, fundamentalmente, um lamento. Não há ninguém que pegue na personagem de um gajo que "não dava para a escola", vai de trabalho em trabalho, porque trabalhar também não é a cena dele, e passa os tempos que tem livres numa taberna/tasca/casa de pasto. Não há ninguém que retrate uma vida média, não especialmente brilhante.

Eu teria um guião para esta série. O título era básico, como o personagem: seria o seu nome, ou apelido. "Esteves".

"Esteves" seria a história de um fulano à porta dos 40 anos que já tinha sido repositor de stock, assistente de vendas, escriturário de 3.ª e, agora, estava tentar ganhar a vida como auxiliar de padeiro. O rendimento é de € 500,00, já depois dos descontos, e vive em Vila Franca de Xira num t1 mobilado pelo senhorio. De família, só sobra a Esteves a mãe, já velhota, e um tio que veio maluco do Ultramar. Tem uma namorada, Sheila, com está um tudo-nada acima do peso, mas com quem não vive. Sheila tem o seu negócio de mercearia e consegue viver melhor que o Esteves. Como auxiliar de padeiro, o Esteves passa as manhãs a dormir, a tarde, ora com Sagres ou com Super Bock e, à noite, trabalha. Está com a Sheila quando não há dinheiro para as minis.

As férias de Esteves são passadas na Costa, para onde se desloca num Citroen Saxo Cup. Politicamente, Esteves chegou a militar no P.C, mas agora nem vota. Quanto a vícios, poucos. 4 a 6 cigarros Águia por dia; as minis, claro, e reality-shows, onde já se tentou inscrever.

E pronto, a série seria observar este dia-a-dia, com Esteves a fazer conversa no café/taberna/casa de pasto, a discutir com Sheila, ou a fazer o doce amor com ela e a aprender a arte de bem fazer pão. Tudo isto no cenário de Vila Franca.

Eu seria fã.

terça-feira, setembro 08, 2015

Trazido para o jazigo. Fui à praia e trouxe um búzio, cheguei a casa e na estante puzio

Fui feliz nas férias.

Um texto que estampasse a felicidade bastava-se com a afirmação supra escrita. Claro, o pretério perfeito indica que o estado de felicidade se extinguiu, mas que, de todo o modo, existiu. Não sendo a felicidade, por impossibilidade objectiva, eterna, chegava.

Durante o sossego, pensei que tudo ia mudar. Se não tudo, algo. Que não ia sentir qualquer espécie de contrariedade ao ir para o trabalho. Que ia gostar do que faço, independentemente de fazer o que gostasse.

Não.

Este blogue transformou-se num mausoléu de desabafos sobre a minha vida profissional. A certa altura, e lendo o que por aqui escrevo, dá a sensação que nada mais se passa.

E tanto se passa além disto.

Há a vida familiar e "amigalhar". Há Portugal.

Mas nada aqui é lembrado. Percebo. Há que ventilar.

Uma vez que a família, salvo uma triste excepção, está bem, deixo uma nota sobre Portugal.

Vai haver eleições.

Vou votar.

Contrariado e em uso do "voto útil".

Não encontro nenhum partido que me represente. Desta vez, vou votar contra alguém, em vez de apoiar um projecto, como fiz em todas as eleições legislativas em que exerci o meu dever cívico.

A conclusão que tiro é a seguinte: na noite de 4 de Outubro, perco sempre.


sexta-feira, julho 31, 2015

Voltando ao texto, o que é recorrente

O irmão do meu patrão trabalha na sociedade de advogados em que exerço funções.

O que faz ele? Para além do que lhe apetece, faz coisas. Por coisas entenda-se qualquer coisa parecida com serviço administrativo.

Quase a chegar aos 30 anos, muito meditei antes de escrever aquilo que escrevi. Pensei em pessoas, feitios, episódios, até mesmo filosofias.

Cheguei a uma conclusão. Há três pessoas que podiam sair da minha vida, ainda que de forma pensada e ordenada, mercê das condicionantes socio-económicas. Eis as 3 piores pessoas que habitam na minha vida:

O irmão do meu patrão. É a pior pessoa que conheço. Não se aproveita nada. Não lhe conheci uma virtude, algo por que se possa puxar. Até o bem que faz é mau.

Logo a seguir, está o patrão, como é óbvio e razoável.

A finalizar o Top 3, sempre lembrando que o critério é terem alguma relação de proximidade e convívio comigo, está o irmão do meu patrão.

Não é engano.

(Adiantadas desculpas pelo texto à pita)

segunda-feira, julho 27, 2015

Dia 27

Há alturas em que, mesmo que nunca nos tenhamos esquecido, voltamos a lembrar por que razão existem uniões.
A "meia bola", a "melhor metade", digna desse nome, tem a capacidade de trazer à nossa vida aspectos e coisas que já tínhamos esquecido.

Voltei a ouvir isto. Fazia falta.



quinta-feira, julho 23, 2015

A propósito da revisitação a Nip/Tuck

Nunca granjeou grande popularidade a série a que me refiro acima.

Haverá vários motivos, mas o principal será, talvez, o grau de whatthefuckness que abunda em cada episódio e personagem. Muito triângulo, muita carne, muito daquilo que não é aberto.

Emitida, actualmente, pela SIC Radical, recomecei, assim como a minha melhor metade, a ver a série do seu início.

Num episódio recente, uma das personagens principais, Sean McNamara, escrevia o seu epitáfio. Não porque tivesse morrido ou estivesse para isso. Inquirido pelo seu filho sobre as razões de tal acto, respondeu-lhe que era um exercício de motivação.

Há, na minha opinião, uma grande música dos Titãs, precisamente chamada de "Epitáfio". Uma lista de lamentos e de "coulda-shoulda-woulda". Apesar de ser excelente, como disse, não achei correcto que lhe dessem um nome que não corresponde àquilo que é. A letra da música, o poema, para usar uma palavra que devia ter um significado mais restrito, é um rol "do que devia ter sido". O epitáfio tem de conter aquilo que efectivamente foi/aconteceu.


Na pior das hipóteses, o epitáfio é um testamento, um legado de factos e conquistas do de cujus.

Abomino a ideia de ser eu a escrevê-lo. Ainda pensei fazê-lo. Contudo, é demasiado tétrico. Demasiado mórbido.  Faltar-me-ia a objectividade. Faltar-me-ia tudo.

Será estranho pedir a um amigo para fazê-lo? Será mais justo solicitá-lo a um inimigo?

Pus-me a pensar. Não há ninguém que o pudesse fazer por mim. A minha família e até amigos, inexplicavelmente, gostam de mim. Seria doce. Os restantes seres assumem perante mim uma postura de indiferença ou desdém que também não permitiria a execução com qualidade.

Ao fim e ao cabo, o que somos é subjectivo. Claro que há factos e actos. Mas os factos e os actos não são nada sem interpretação.

quarta-feira, julho 08, 2015

À beira

Estou quase com 30 anos.

A este respeito, lembrei-me de uma questão que me é colocada há décadas (sim, há décadas): "por que razão não gostas de fazer/celebrar o teu aniversário?"

Já o disse dezenas de vezes. Agora, fica escrito e, so help me god, vou colocar uma "etiqueta" (tag) no fim. Para me lembrar. Para servir de remissão.

Que sentido tem festejar a mediocridade? Tenho quase 30 anos e sou um trabalhador de segunda, desprezado, ignorado, tantas vezes vilipendiado, desonrado.

Que sentido tem festejar a data? Tenho quase 30 anos e, lembrando os factos supra expostos, nem por isso ganho melhor, sequer bem, não tenho o dinheiro para viver o que queria nem para fazer coisas por quem gostava.

Que sentido tem ouvir a canção dos parabéns? Quando morrer, serei uma vírgula na história, um nada, um ninguém, uma alma inominada que serviu e mal.

Porquê pensar diferente? Tirei um curso massificado, não estou com idade nem vida para mudar, não ingressei na carreira que queria, trabalho, há quase 6 anos, num sitio onde filho meu nunca porá os pés.

Mas e então não é engraçado celebrar o meu nascimento? Acredito que sim, para as poucas pessoas que gostam de mim. Isso não me inclui a mim. Trocava a minha pela vida de qualquer pessoa. Odeio o que faço. Odeio ainda mais com quem faço.

Ao fim e ao cabo, percebo que o meu problema é a situação profissional. Que me mata.

Mas, claro, a culpa é toda minha. Não estou disposto a abdicar do que tenho em troca de paz. Porque se abdicar, tão cedo não arranjo ocupação. Porque se abdicar, desisti.

Mas, à beira dos meus 30 anos, é isto.

Estudei para ter uma carreira melhor do que a que tenho. A minha carreira não existe.

Deixei de sair à noite para poder descansar para um exame no dia seguinte. Se fosse hoje, até fortemente alcoolizado teria ido fazer o exame.

Deixei de fazer uma tese de mestrado porque estava a trabalhar e, quando vi que não chegava para as encomendas, até porque também tinha a agregação à O.A metida ao barulho, escolhi o trabalho. Devia ter saído daqui e começava de novo.

Mas não.

Tenho 30 anos e nem o respeito próprio alcancei.

Se tudo correr bem, esse dia fatídico será passado longe desta corja com quem coexisto 10 horas por dia.


quinta-feira, julho 02, 2015

Agora, um desvio na rota, mas não no espírito.

Francisco José Viegas, que chegou a ser Secretário de Estado para a Cultura, tinha um belo blog no qual, de vez em quando, escrevia sobre futebol. A "rubrica", se assim quisermos chamar, dava pelo nome de "Cantinho do Hooligan". Hoje, apetece-me falar do Sporting.

O Sporting Clube de Portugal, fundado em 1906, é um imenso clube. Tem e inspira uma filosofia diferente das restantes agremiações desportivas. Enquanto Benfica e Porto têm uma matriz e base de apoio mais popular, o Sporting diferencia-se e aposta num entendimento do Desporto numa vertente mais plural. O Sporting é um clube de modalidades (para além do futebol). O Sporting tem um nome ouvido em todo o mundo. Em todos os meetings de atletismo, campeonatos de tudo e mais um par de botas, lá ouvimos o constante "(...) atleta do Sporting". Claro, os outros clubes também os têm. Sucede que os bons, verdadeiramente bons, são nossos. No disrespect.

Dito isto, o futebol é aquilo que preocupa 98% dos adeptos do clube.

E, no que a futebol diz respeito, isto não anda bem. Vamos a factos:

1. Há pouco dinheiro para grandes contratações;
2. A gestão desportiva é débil e inconsequente, senão vejamos;
2.1 Foi despedido o treinador que melhor pôs a equipa a jogar nos últimos anos e que ganhou, de facto, alguma coisa;
2.2 Nenhuma contratação trouxe algo de melhor à equipa, desde a tomada de posse de BdC;
3. A gestão (latu sensu) do clube corre o risco de ruir brevemente, ora;
3.1 No mesmo espaço físico estarão BdC, Jorge Jesus, Octávio Machado, Inácio, M. Fernandes
3.2 Deste lote, não há uma alma com bom feitio e espírito de negociação, é vai-ou-racha, sendo que vários destes elementos dão-se como cão e gato ou já deram;
3.3 Se não há vitórias no início do campeonato, rebenta a bomba.

Uma vez que não sou nenhum Rui Santos, deixo uma preocupação: que o edifício caia. Que ninguém se entenda. Que sejamos gozados pela incompetência e falta de visão.

A contratação do Octávio é errada. Não quero personalizar, mas acho que teve um tempo e que o tempo passou. Mesmo o tempo que teve foi um tempo mal passado.

Tenho pena do estilo do BdC. Aquilo não é o Sporting.

Acho que não vamos ganhar nada este ano. É mesmo triste, mas acho. Para além de um treinador que é, na minha opinião, acima de excelente e triplamente doutorado, não em futebol, mas em "bola", não há mais nada. Não há factores de acrescento, só factores de debilidade.

E pronto. Resta apoiar.

Obrigado e boa tarde.

terça-feira, junho 30, 2015

Por alguma razão

Quando o sol se põe, começo a lembrar-me dele, por alguma razão.

O auge da sua falta foi, sem qualquer dúvida, no dia do meu casamento. Senti-me culpado. Por tantas coisas. A primeira foi por não o ter ali. Viu-me sair de casa. Ainda soube da minha mudança para outra casa. Não me viu casar.

Falava bastante com ele. Tinha posição sobre tudo, concordasse-se ou não com ela. Tinha perspectiva, observava. Seria excelente saber o que pensa e o que ele pensava sempre me interessou. Não era mau a julgar caracteres e já tinha visto umas coisas. E ainda há a questão do sentido de humor. Forte.

Nunca o conheci com os defeitos que, ao longo do meu crescimento, lhe foram apontando. Certamente que os teria, o meu ponto é que não os via. Comigo sempre foi acima de excelente.

Deixou mágoa. A partida mudou, de forma objectiva e necessariamente definitiva, a vida. A minha e outras.

E lembro-me dele, sobretudo, quando uma vez, sozinhos, depois de ouvir uma das minhas ladainhas sobre a inutilidade da existência, me disse, de forma avisada e sincera, que devia arranjar ajuda.

Bom, essa ajuda veio, de várias formas. Mais ninguém me teria dito "vai-te tratar" com a seriedade e amizade dele. Costumo odiar sinceridade, mas ali soube-me bem. Talvez por se ter dado um dos raros casos em que a verdade/sinceridade se adequava e mal não faria.

Recordo-o sorridente.

E isso é tudo.

quarta-feira, junho 17, 2015

3 anos

Completam-se 3 anos, neste dia, desde que saí da casa dos meus pais e fui viver com "a tal", a que é hoje minha mulher.

Vou começar pelo inevitável chavão: passou a voar. Ainda me lembro como se tivesse sido há bocado. Saímos, ambos, das nossas origens e fomos ocupar a casa à tarde.

A casa era modesta, bastante humilde, mas serviu o seu propósito, o de albergar um jovem casal, durante pouco mais de um ano. As deficiências do imóvel eram algumas. As do lar nem tanto. Tive sérias infiltrações, rastejantes, frio de rachar e calor de assar.

Apesar de ter sido uma casa para esquecer, há de ficar sempre na minha memória. Porque, apesar de tudo, foi ali que começou a nova etapa da minha vida.

terça-feira, junho 02, 2015

Ser Sócrates, ser 44

No passado dia 31 de Maio de 2015, o Sporting Clube de Portugal ganhou a sua 16.º Taça de Portugal.

Para a massa adepta de um clube que tem andado arredado, quer das discussões, quer dos títulos, significa muito ter o que festejar, quando, e sobretudo, a vitória é de uma raça inigualável.

No dia seguinte ao triunfo, quando venho trabalhar, lembro-me que tenho um cachecol guardado no armário do arquivo. Trata-se, obviamente, de um cachecol à Sporting, com símbolo, cores, the whole nine yards. Orgulhosamente, exibo-o, ainda que não ostensivamente, por cima de uma cómoda que habita o meu gabinete.

Durante o dia, ao receber clientes, e para não ferir susceptibilidades, arrumava-o. Contudo, quando a chamada costa estava livre, lá aparecia ele.

Os meus colegas, Benfiquistas agudos, ao verem aquilo, riam amistosamente, cumprimentavam-me pelo sucesso da minha equipa do coração. O próprio chefe, viu, gargalhou sonoramente e jamais me fez um reparo por ter ali colocado o artefacto.

Hoje, ao chegar, dou de caras, no gabinete onde cumpro calvário, com o irmão do patrão, figura a que já fiz referência no passado.

"Duarte, fui eu que te tirei o cachecol dali. Se a gente não queremos ser provocados, não podemos provocar. Eu conheço o meu irmão e sei que ele não gosta destas coisas. Eu conheço o meu irmão"

Senti-me um preso em Évora.




quarta-feira, maio 27, 2015

Uma estreia

Hoje, fui ameaçado.

Não falo no sentido técnico-jurídico. Falo no plano "social".

É uma estreia.

Não foi uma ameaça de morte. Não foi contra a minha vida, ou integridade física.

Foi no âmbito profissional.

Sendo sempre correcto e justo com todos, fui ameaçado.


segunda-feira, maio 25, 2015

São 8 anos







A minha existência é, por alguma razão que me escapa, marcada por uma angústia constante. A verdade é que poucas vezes tive equilíbrios que me permitissem alguma paz. Contudo, foram muitas as vezes que fui feliz. Modo geral, sou-o.

Faz hoje 8 anos que a minha vida sofreu a primeira grande alteração: encontrei alguém que até estava disposto a aturar-me. Claro que a minha família nunca me faltou com nada, não me podendo queixar. Sucede que, há 8 anos, alguém começou a ver em mim algo que nem eu próprio vislumbro.

Depois de tantos episódios (tantos e bons!), acabei por me casar com a Tal. Aquela que, há 8 anos, me disse que sim.

Se hoje somos casados, também posso dizer que nunca deixámos de ser namorados.

segunda-feira, maio 18, 2015

A multiplicação dos aniversários

"Comemoro" (e mais aspas houvesse) 3 anos de agregação à Ordem dos Advogados.

Recordo-me do dia. Foi tão indiferente, que até comecei a fumar. Foi tão ligeiro, que nem consegui estar ao pé das examinadoras quando foi revelada a nota.

Em suma, um dia fácil, ou não dependessem quase três anos da mais pura submissão a um só momento.

3 anos depois, nesta Segunda-Feira, chego ao escritório e recebo uma mensagem no telemóvel.

"Já tive a má notícia, a juiza condenou-me a pagar tudo a eles".

*

Fui procurado por um colega. Disse-me que precisava da minha ajuda. Havia duas partes em contenda e ele, advogado, sendo amigo de ambas, não queria patrocinar aquela que lhe tinha solicitado patrocínio forense. Pediu-me, então, que avançasse, que representasse aquela que o tinha procurado. O trato era simples: ele fazia os articulados e eu o julgamento.

O caso era ruím. Em traços largos, duas amigas de infância, uma mais rica e outra menos, começaram a explorar um café, juntamente com o marido da rica. O negócio foi proveitoso e quiseram avançar para uma frutaria, na porta ao lado. A frutaria era para ser explorada pelas duas, tanto que ambas, formalmente, eram gerentes. A rica e o marido pediram um empréstimo ao banco e equiparam a casa. Contudo, o negócio correu mal. Não havia receitas, surgiram multas de várias entidades...um pavor. É então que a rica decide que quer fechar aquilo. A menos abonada diz que não, que mantém o barco. Celebra novo contrato de arrendamento e fica a laborar lá.

Alguns anos mais tarde, a rica e o marido dão entrada de uma acção a pedir uma avultada quantia pelos móveis que ficaram no estabelecimento, alegando a existência de um contrato de compra e venda. A "Demandada" procura o meu colega e o meu colega procura-me a mim.

Vim a saber várias coisas.

- Nunca foi celebrado contrato algum. Aliás, os "Demandantes" juntam na Petição Inicial uma minuta e para lá remetem quando querem provar a "existência do contrato";

- Por várias vezes, a minha constituinte insistiu para que os "Demandantes" fossem buscar os seus móveis, até lhe enviou cartas;

- A rica (so to speak) tinha a chave da loja, e sempre teve, para poder ir buscar os móveis e nunca foi;

- A rica deixou dívidas e a pobre pagou-as.

Faz-se julgamento. A minha primeira pergunta para todas as testemunhas, seja dos "Demandantes" como da "Demandada" foi: tem conhecimento se foi celebrado algum contrato entre as partes? A resposta, de todas!, foi uma só: "não". Se não há nada escrito e se ninguém pode confirmar a existência de contrato, está criada uma nova modalidade de prova: a prova por presunção de existência de contrato.

As testemunhas sabiam que tinha havido amizade, um negócio, que as coisas correram mal, mas nunca ninguém disse que tinha havido um contrato.

*

No aniversário dia em que me agreguei, perdi uma acção.

A meu ver, perdi-a sem razão (a sentença é anedótica ao ponto de dar como provados factos que TODAS as testemunhas negaram).

Perdi.


Perder quando o cliente pode suportar é uma coisa. Perder quando nem havia alternativa é uma coisa. Perder quando nada se logrou é uma coisa.

De forma vergonhosa, uma quadrilha foi a um Julgado de Paz pedir dinheiro e saiu de lá com uma sentença.

Sem provar nada. Sem mostrar nada.

E eu não pude evitar.

Perdi.

Se houver deus, não estarei mais 3 anos metido neste sistema.

Não haja equívocos: esta é a pior profissão do mundo.

E eu celebro o terceiro aniversário de "carreira". Sou um Tony.


quarta-feira, maio 06, 2015

Palavras

Há algo de reconfortante em saber que as angustias de que padeço já foram amplamente musicadas pelo Sérgio Godinho e Jorge Palma.

É que eles estão bem.