"Pause" no modo "pause" que este blogue vinha
tendo.
Ou seja, "press play", ou como dois negativos dão positivo, penso
eu.
Falando um bocado "a latere" de cinema, (e "a latere"
porque não me apetece abordar a essência da arte, mas tão-somente aspectos
circundantes), terá encerrado o ano cinematográfico, isto é, até para o ano
sucessivas estreias de filmes decentes, uma vez que já tiveram lugar os prémios
Oscar.
Como sempre, vou achando justiça na designação dos vencedores. O método é
eleitoral, parecendo até que há autênticas campanhas, pelo que, ganhando os
mais votados e tendo em conta que os gostos são subjectivos, a coisa acaba por
compor-se, confessando que vezes há em que preferia não ouvir falar daquele que
arrecada a estatueta.
Jurista de formação, e deformado jurista, faço um bocado como Leite de
Campos aconselha nas suas "Lições de Direito da Família e Sucessões".
O ilustre aconselha qualquer coisa como ver Direito em tudo e Direito da Família
especialmente na novela das oito. Há de tudo: divórcio, regulação das
responsabilidades parentais, alienação parental, heranças sangrentas e por aí
fora.
Eu procuro o lado jurídico no cinema. Gosto especialmente de um filme que
"dependa" de principios universais e intemporais de Direito.
Este ano cinematográfico foi especialmente conseguido, sobretudo nos filmes
que concorreram a sério pelos prémios.
O mais evidente é "12 anos escravo". Claro que uma pessoa que
tenha tido a bênção de não estudar Direito vai apreciar a película com uma
sensibilidade diferente. Vai, designadamente, sentir-se prisioneiro na tela.
Vai ter pena, sentir compaixão e acompanhar a luta de um inocente. No meu caso,
além dessa dor toda, não deixei de pensar nas características da ordem
jurídica. Não deixei de pensar em punição (até mesmo coercividade), valores e
dignidade da pessoa humana, direitos fundamentais. Para ser perfeito, e não
querendo estragar nada, o filme acaba com a informação acerca do processo que
Northup moveu contra os seus raptores. Por um pormenor processual, não logrou
qualquer reparação dos danos sofridos. Dá que pensar, sobretudo quando passamos
anos (muitos, se me perguntarem) a ouvir doutrina jus-naturalista que apregoa
os benefícios do direito natural.
Para além do supra referido, a juridicidade caminha nas restantes telas.
"Golpada Americana", "O Lobo de Wall Street", ou mesmo em
"Her" (até neste!) não há isenção de debate. Aspectos penais, civis,
protecção de dados. Está lá tudo.
Torna-se absolutamente relaxante quando o filme cujo visionamento se prepara
é uma "chachada". O pior filme que terei visto nos últimos tempos foi
"Freddy vs Jason". O filme é simples: há o Freddy Krueger e o Jason
do Sexta-Feira Treze. E é isto. Nem divagações acerca da vulnerabilidade da
condição humana. Nem violações abruptas de contratos. Só matança e
chachada.
Naturalmente, o espectador não sai do cinema contente com a obra a que
assistiu, mas pelo menos não teve que relembrar que uma presunção pode ser
ilidível ou inilidível e que existem coisas como o bloco de legalidade do qual
faz parte, entre outros diplomas, a CRP.