Findou, hoje, a produção de prova num processo que corre termos num Julgado de Paz desse Portugalão.
O processo foi-me "confiado" numa ótica de favor, mais concretamente, a parte e a contra-parte são amigos comuns de um colega meu. Por não se querer envolver, o colega pediu-me para fazer o julgamento, cabendo-lhe fazer determinada peça processual, um articulado.
Foi o processo que, sem dúvida, me abalou mais, nem sendo nada de especial. Sem querer revelar os detalhes, aprendi:
1. Nunca aceitar processos de clientes que não te pertecem. Há excepções.
2. Nunca mostrar educação com as testemunhas da parte contrária. Passas por "calmo". Um advogado "calmo" é sinónimo de "corno manso".
3. Aumentar a dose de cinismo na vida diária. Desde que comecei a ser advogado que me vejo um cínico nojento. Para a profissão, é bom. Melhor mesmo só psicopata, no sentido mesmo médico do termo.
4. Nunca receber no fim. É que não sei quanto vou receber, nem quando. Fiz um favor.
5. Nunca faças favores incondicionais, no que à profissão diz respeito. Goes without saying.
Só tenho a dizer que, felizmente, não volto àquele lugar tão cedo.
Também tinha uma lista de desejos. Vou ficar-me pelas lições.
segunda-feira, março 09, 2015
sexta-feira, março 06, 2015
Avulsos
Percebi que a minha pança tem personalidade jurídica.
Merece ser individualizada, ter património, número de identificação fiscal e cartão do cidadão. Merece votar, usufruir do SNS e da Escola Pública.
A minha pança votaria à Direita. CDS-PP. Tirava o curso de Engenharia Agrónoma e só frequentava clínicas privadas, como a dos Lusíadas.
Quem me dera gostar mais de ginásio (e ter tempo...ter tempo...). Se gostasse, a minha pança poderia acasalar com uma pança fémea e terem pancinhas pequenas, que educariam sob forte influência católica. E poderia porque já não estaria em mim a dar-me relevos que bem dispensava.
Merece ser individualizada, ter património, número de identificação fiscal e cartão do cidadão. Merece votar, usufruir do SNS e da Escola Pública.
A minha pança votaria à Direita. CDS-PP. Tirava o curso de Engenharia Agrónoma e só frequentava clínicas privadas, como a dos Lusíadas.
Quem me dera gostar mais de ginásio (e ter tempo...ter tempo...). Se gostasse, a minha pança poderia acasalar com uma pança fémea e terem pancinhas pequenas, que educariam sob forte influência católica. E poderia porque já não estaria em mim a dar-me relevos que bem dispensava.
quarta-feira, março 04, 2015
Devaneios de meio de tarde com remate de convite a contratar.
Gostava de abrir escritório.
Não era sozinho. O ideal era 3/4 pessoas, para se conseguir dividir despesas. Cada um com seus clientes e respectivo pagamento.
Com 4 pessoas, dava € 200/mês a cada um.
Eu sei que ninguém quer, mas,
Quem quer?
Não era sozinho. O ideal era 3/4 pessoas, para se conseguir dividir despesas. Cada um com seus clientes e respectivo pagamento.
Com 4 pessoas, dava € 200/mês a cada um.
Eu sei que ninguém quer, mas,
Quem quer?
terça-feira, março 03, 2015
Souvenirs
(Penso que já terei escrito um post com o mesmo início. A vida é isto mesmo: um Alzheimer consciente)
Em certo filme de Manoel de Oliveira (meu ídolo pessoal), uma das personagens pergunta a outra como se diz "saudades" na língua desse imortal estadista que é Hollande (ela só pergunta mesmo como se diz "saudades"). Andam por ali até que alguém diz que será, talvez, Souvenirs.
Para mim, um Souvenir é um porta-chaves de uma zona balnear. Quiçá, um boneco das Caldas.
Contudo, e na senda do supra exposto, peço justiça.
Nada disso.
Lembrei-me do episódio de uma colega de escritório que daqui saiu no fim do estágio. Tinha arranjado um emprego numa espécie de Secretaria de Estado do Turismo, mas não estou a ser preciso. Seria algo desse género.
Lá foi ela contar ao Ilustre e Distinto Chefe Supremo Cateran que ia embora. De onde estava, ainda se ouviam aqueles sons de alegria contida, expelidos em resposta quando alguém nos diz que ganhou € 5 numa raspadinha, ou quando um notável urso passa com 50% num teste.
Lá regressou ao posto e perguntei-lhe como tinha sido.
Foi então que me contou que tinha dado a novidade, ele tinha-se rido, dito qualquer coisa como "muito bem" (lá está, "ganhaste uma coca-cola extra? boa!") e rematado:
- Olha, lá para onde fores, vê lá se chegas a horas.
Sempre que a vejo (vivemos perto um do outro), é inevitável lembrar-me da história.
Em certo filme de Manoel de Oliveira (meu ídolo pessoal), uma das personagens pergunta a outra como se diz "saudades" na língua desse imortal estadista que é Hollande (ela só pergunta mesmo como se diz "saudades"). Andam por ali até que alguém diz que será, talvez, Souvenirs.
Para mim, um Souvenir é um porta-chaves de uma zona balnear. Quiçá, um boneco das Caldas.
Contudo, e na senda do supra exposto, peço justiça.
Nada disso.
Lembrei-me do episódio de uma colega de escritório que daqui saiu no fim do estágio. Tinha arranjado um emprego numa espécie de Secretaria de Estado do Turismo, mas não estou a ser preciso. Seria algo desse género.
Lá foi ela contar ao Ilustre e Distinto Chefe Supremo Cateran que ia embora. De onde estava, ainda se ouviam aqueles sons de alegria contida, expelidos em resposta quando alguém nos diz que ganhou € 5 numa raspadinha, ou quando um notável urso passa com 50% num teste.
Lá regressou ao posto e perguntei-lhe como tinha sido.
Foi então que me contou que tinha dado a novidade, ele tinha-se rido, dito qualquer coisa como "muito bem" (lá está, "ganhaste uma coca-cola extra? boa!") e rematado:
- Olha, lá para onde fores, vê lá se chegas a horas.
Sempre que a vejo (vivemos perto um do outro), é inevitável lembrar-me da história.
quarta-feira, fevereiro 25, 2015
terça-feira, fevereiro 24, 2015
Terapia
Num sketch da Porta dos Fundos, o cenário é o Tribunal. O Advogado defende a sua constituinte alegando que só está acusada porque o mundo está cheio de invejosas. Às tantas, é citada uma vizinha, ao que se segue qualquer coisa como:
- Essa senhora tem falta de terapia.
- Terapia?
- Sim, terapia cheia de pratos para lavar.
Também eu tenho falta disso agora, pelo que escrevo.
Estava a atender um cliente no meu gabinete. Um cliente. No gabinete. Estávamos a falar de coisas jurídicas e da vida do desgraçado que está numa luta pela lavagem da honra quase perdida. Eis que sucede o impensável.
Um gordo. Um filho da puta de um gordo velho.
Sem avisar, entra no meu gabinete dirige-se ao meu cliente e pergunta-lhe se traz mais alguém. O cliente diz que não ao que o gordo, o filho da puta do gordo, responde: "Ah, é que deixou a porta aberta!", rematando com um olhar de censura e um encolher de ombros.
O filho da puta é advogado? Não. É jurista? Não. Tem alguma formação na área do secretariado? Não. Sabe alguma coisa da vida? Pelos vistos sabe tudo menos o essencial: se desse um tiro na cabeça fazia um favor à humanidade.
- Essa senhora tem falta de terapia.
- Terapia?
- Sim, terapia cheia de pratos para lavar.
Também eu tenho falta disso agora, pelo que escrevo.
Estava a atender um cliente no meu gabinete. Um cliente. No gabinete. Estávamos a falar de coisas jurídicas e da vida do desgraçado que está numa luta pela lavagem da honra quase perdida. Eis que sucede o impensável.
Um gordo. Um filho da puta de um gordo velho.
Sem avisar, entra no meu gabinete dirige-se ao meu cliente e pergunta-lhe se traz mais alguém. O cliente diz que não ao que o gordo, o filho da puta do gordo, responde: "Ah, é que deixou a porta aberta!", rematando com um olhar de censura e um encolher de ombros.
O filho da puta é advogado? Não. É jurista? Não. Tem alguma formação na área do secretariado? Não. Sabe alguma coisa da vida? Pelos vistos sabe tudo menos o essencial: se desse um tiro na cabeça fazia um favor à humanidade.
segunda-feira, fevereiro 23, 2015
Adenda ao Nepotismo
Num tom mais confessional, e com sono (o que me dá forte para a depressão), aqui vai um relato:
Já há muito que deixei, de facto, de trabalhar para uma sociedade. Agora, trabalho para uma família. Isto seria bom se a família fosse a Azevedo, Mello, Amorim e, na locura, Corleone. Mas não. Ser da margem sul, com tudo de bom que de lá advém, oferece, não raras vezes, uma purga olimpica, de maneiras que trabalho para os Silva.
Os Silva são pessoas de origem humilde. Ora, isso não é virtude nenhuma, refira-se. Ter uma origem humilde está no plano de a humanidade ter de respirar para viver ou ter nascido preto. Não se escolhe, é assim e pronto.
Adiante.
A verdadeira nobreza está nos actos praticados quando se deixa de ser humilde, a nível financeiro. Eis que chega a bifurcação: de um lado, ser um merdas mete-nojo que agita a nota como se exibisse a taça da liga dos campeões; por outro, continuar a ser um ser sóbrio, que faz a sua vida, sem que o poder recém-adquirido lhe suba à cabeça.
A família Silva é constituída por Silvas mais velhos e Silvas mais novos. Dos novos falei anteriormente. Hoje é dos velhos que me ocupo.
Conheço a matriarca. Não conheci o patriarca. Conheço filhos, noras, netos.
Estamos a falar de um clã em que perto de 100% dos elementos não vale um chavelho.
Para aquela agremiação familiar, estou em crer que tenho o mesmo valor de um caniche, isto é, um cão com bastante volume, ainda que pequeno, que merece uma taça de ração e água.
Um dos Silvas é meu patrão. Tudo bem, quase todos temos um. Não vem mal ao mundo. Ideal era sermos todos patrões.
Esse Silva tem um irmão Silva. E esse irmão Silva tem a dignidade que a Constituição lhe confere. É problemático, uma vez que também tem personalidade jurídica. Isto é simples: não pode ser atropelado voluntariamente, ter um acidente provocado por terceiros que o vitimize mortalmente ou magoe muito, nem lhe podemos imputar condutas de orientação duvidosa.
E é este o meu lamento.
Obrigado, bom dia.
(Estou a escrever este post de irritação porque o homem entrou no meu gabinete e tive de levar com um tratado sobre a temperatura certa do Ar Condicionado. Quase me proibiu de ter frio. Se calhar, proibiu mesmo.)
Já há muito que deixei, de facto, de trabalhar para uma sociedade. Agora, trabalho para uma família. Isto seria bom se a família fosse a Azevedo, Mello, Amorim e, na locura, Corleone. Mas não. Ser da margem sul, com tudo de bom que de lá advém, oferece, não raras vezes, uma purga olimpica, de maneiras que trabalho para os Silva.
Os Silva são pessoas de origem humilde. Ora, isso não é virtude nenhuma, refira-se. Ter uma origem humilde está no plano de a humanidade ter de respirar para viver ou ter nascido preto. Não se escolhe, é assim e pronto.
Adiante.
A verdadeira nobreza está nos actos praticados quando se deixa de ser humilde, a nível financeiro. Eis que chega a bifurcação: de um lado, ser um merdas mete-nojo que agita a nota como se exibisse a taça da liga dos campeões; por outro, continuar a ser um ser sóbrio, que faz a sua vida, sem que o poder recém-adquirido lhe suba à cabeça.
A família Silva é constituída por Silvas mais velhos e Silvas mais novos. Dos novos falei anteriormente. Hoje é dos velhos que me ocupo.
Conheço a matriarca. Não conheci o patriarca. Conheço filhos, noras, netos.
Estamos a falar de um clã em que perto de 100% dos elementos não vale um chavelho.
Para aquela agremiação familiar, estou em crer que tenho o mesmo valor de um caniche, isto é, um cão com bastante volume, ainda que pequeno, que merece uma taça de ração e água.
Um dos Silvas é meu patrão. Tudo bem, quase todos temos um. Não vem mal ao mundo. Ideal era sermos todos patrões.
Esse Silva tem um irmão Silva. E esse irmão Silva tem a dignidade que a Constituição lhe confere. É problemático, uma vez que também tem personalidade jurídica. Isto é simples: não pode ser atropelado voluntariamente, ter um acidente provocado por terceiros que o vitimize mortalmente ou magoe muito, nem lhe podemos imputar condutas de orientação duvidosa.
E é este o meu lamento.
Obrigado, bom dia.
(Estou a escrever este post de irritação porque o homem entrou no meu gabinete e tive de levar com um tratado sobre a temperatura certa do Ar Condicionado. Quase me proibiu de ter frio. Se calhar, proibiu mesmo.)
sexta-feira, fevereiro 20, 2015
Nepotismo
A filha do meu chefe está hoje a passar o dia no escritório onde eu e o respectivo pai exercem a sua profissão.
Já trabalho no referido espaço há mais de 5 anos. Conheço-a quase desde o início da minha estadia.
Cumpre dizer que está na mesma.
Agora, os pormenores. Dizer a alguém que está na mesma só é elogio para velhos. "Estar na mesma" em qualquer idade que não seja a terceira é profundamente merdoso. "Sempre foste um infantil e para sempre serás".
Ora, o espécime está na mesma desde que a conheço. É capaz de se pôr a cantar a altos berros (o que só ajuda numa actividade que precisa de silêncio) de repente, é capaz de não falar às pessoas e olhar de lado a mostrar quem manda (não sucedeu hoje) como é capaz de sabotar o trabalho administrativo.
Eu lembro-me quando tinha a idade dela. Não era assim.
Nunca fui assim.
Ao fim e ao cabo, o que esteve errado comigo só me prejudicava a mim. Era e sou gordo. Curioso, no meio disto tudo, ninguém diz àquela vitela que é mal educada. Já eu estou sempre a ouvir que sou gordo.
Sempre ouvi.
Já nunca ouvi ninguém repreender outrém pela falta de educação.
Deve ser por isso que estou condenado e ela terá virtude como futuro.
Não vivi noutros tempos, nem noutras sociedades, mas aqui e agora, fere mais a aparência física que a detestabilidade intrínseca.
Já trabalho no referido espaço há mais de 5 anos. Conheço-a quase desde o início da minha estadia.
Cumpre dizer que está na mesma.
Agora, os pormenores. Dizer a alguém que está na mesma só é elogio para velhos. "Estar na mesma" em qualquer idade que não seja a terceira é profundamente merdoso. "Sempre foste um infantil e para sempre serás".
Ora, o espécime está na mesma desde que a conheço. É capaz de se pôr a cantar a altos berros (o que só ajuda numa actividade que precisa de silêncio) de repente, é capaz de não falar às pessoas e olhar de lado a mostrar quem manda (não sucedeu hoje) como é capaz de sabotar o trabalho administrativo.
Eu lembro-me quando tinha a idade dela. Não era assim.
Nunca fui assim.
Ao fim e ao cabo, o que esteve errado comigo só me prejudicava a mim. Era e sou gordo. Curioso, no meio disto tudo, ninguém diz àquela vitela que é mal educada. Já eu estou sempre a ouvir que sou gordo.
Sempre ouvi.
Já nunca ouvi ninguém repreender outrém pela falta de educação.
Deve ser por isso que estou condenado e ela terá virtude como futuro.
Não vivi noutros tempos, nem noutras sociedades, mas aqui e agora, fere mais a aparência física que a detestabilidade intrínseca.
Óleo
- "Agora, na televisão, andam a dizer que o óleo faz mal".
- "Pois, parece que é".
- "Eu, quando faço o meu bifinho, nunca deixo de pôr óleo na frigideira. Diz que é melhor pôr azeite, mas eu odeio azeite, ca nojo".
- "Desculpe, pode dar-me um cigarro?".
Abaixo das Janelas Verdes (Green Windows, numa toada mais internacional).
Seguidamente, chegou quem esperava e fui realizar uma diligência judicial (nome pomposo para algo tão rotineiro).
Subi as escadas de um prédio decrépito e só encontrei uma afastada sósia de Anita Guerreiro.
Ali ficámos bem mais do que deviamos a ouvir a predilecção por Bocage e as dedicatórias que tinha feito ao recém-editado livro de um companheiro de tertúlia. Palavra que repetia: Vato.
Não sacando nada daquela freguesia, mas tendo "caçado" uma pista, fomos a uma loja do Chinês ali ao pé, loja que se situava no prédio onde estariam a viver os "objectos" da referida diligência.
De chinesa, a empregada tinha pouco. Perguntou se alguém ia preso. Comprei-lhe um espelho pequeno. Diziam-me que havia falta. Mentira.
Finalmente, fomos à Rua das Janelas Verdes. Tocámos à porta de um majestoso prédio e fomos atendidos por alguém que até conhecia quem procurávamos. Sucedia que já se havia mudado há meses.
Quando terminámos, batia o final de tarde e era dia 12 de Junho. O ar confundia-se com o cheiro de sardinha assada e até as estradas começavam a ficar intransitáveis. Já mal se continha a reprimida, ao longo do ano, vontade de celebrar o Santo António (na gíria, ir para os santos) e lá fomos embora.
Senti que não devia ter saído dali. Devia ter ficado e bebido uma imperial e comido uma bifana, apesar de serem só sete da tarde.
É que desde uma (quase) fatídica noite, não voltei a celebrar o Santo António. Naquele instante em que via esplanadas a serem decoradas com a bela toalha vermelha, cesto do pão e guardanapos de papel branquinho, percebi que a existência era outra.
Noutros tempos, teria ido a Lisboa de propósito para lá passar a noite, na melhor das companhias, ficando por lá, até que batesse o sol e o pequeno-almoço fosse tomado numa qualquer pastelaria da Av. do Brasil, com torradas queimadas.
Daquela vez, vim-me embora quando a festa começou.
- "Pois, parece que é".
- "Eu, quando faço o meu bifinho, nunca deixo de pôr óleo na frigideira. Diz que é melhor pôr azeite, mas eu odeio azeite, ca nojo".
- "Desculpe, pode dar-me um cigarro?".
Abaixo das Janelas Verdes (Green Windows, numa toada mais internacional).
Seguidamente, chegou quem esperava e fui realizar uma diligência judicial (nome pomposo para algo tão rotineiro).
Subi as escadas de um prédio decrépito e só encontrei uma afastada sósia de Anita Guerreiro.
Ali ficámos bem mais do que deviamos a ouvir a predilecção por Bocage e as dedicatórias que tinha feito ao recém-editado livro de um companheiro de tertúlia. Palavra que repetia: Vato.
Não sacando nada daquela freguesia, mas tendo "caçado" uma pista, fomos a uma loja do Chinês ali ao pé, loja que se situava no prédio onde estariam a viver os "objectos" da referida diligência.
De chinesa, a empregada tinha pouco. Perguntou se alguém ia preso. Comprei-lhe um espelho pequeno. Diziam-me que havia falta. Mentira.
Finalmente, fomos à Rua das Janelas Verdes. Tocámos à porta de um majestoso prédio e fomos atendidos por alguém que até conhecia quem procurávamos. Sucedia que já se havia mudado há meses.
Quando terminámos, batia o final de tarde e era dia 12 de Junho. O ar confundia-se com o cheiro de sardinha assada e até as estradas começavam a ficar intransitáveis. Já mal se continha a reprimida, ao longo do ano, vontade de celebrar o Santo António (na gíria, ir para os santos) e lá fomos embora.
Senti que não devia ter saído dali. Devia ter ficado e bebido uma imperial e comido uma bifana, apesar de serem só sete da tarde.
É que desde uma (quase) fatídica noite, não voltei a celebrar o Santo António. Naquele instante em que via esplanadas a serem decoradas com a bela toalha vermelha, cesto do pão e guardanapos de papel branquinho, percebi que a existência era outra.
Noutros tempos, teria ido a Lisboa de propósito para lá passar a noite, na melhor das companhias, ficando por lá, até que batesse o sol e o pequeno-almoço fosse tomado numa qualquer pastelaria da Av. do Brasil, com torradas queimadas.
Daquela vez, vim-me embora quando a festa começou.
sexta-feira, fevereiro 13, 2015
Licitudes e amoralidades
Será que é lícito dizer a alguém desrazoável que é, efectivamente, desrazoável?
É razoável presumir que não.
E ninguém mais do que eu dá valor às presunções. Muito raramente são ilididas.
(Um desabafo mais infantil): naturalmente por me faltar um bocado do cérebro, passo a vida a ouvir críticas. Seja no plano laboral (onde é tão bom malhar neste Jô Soares) seja no plano pessoal. E, como bom cristão, dou a outra face.
Já quando o exercício é levado a cabo por mim, tenho guerra.
Estou um bocado farto do mundo que rodeia.
O ideal era desaparecer durante anos.
Sim, anos.
Para longe.
Fazer o que faço, mas na Arrifana, Matosinhos ou Zambujeira.
Longe. Incontactável.
Sem ninguém.
Só eu.
Sonhos.
É razoável presumir que não.
E ninguém mais do que eu dá valor às presunções. Muito raramente são ilididas.
(Um desabafo mais infantil): naturalmente por me faltar um bocado do cérebro, passo a vida a ouvir críticas. Seja no plano laboral (onde é tão bom malhar neste Jô Soares) seja no plano pessoal. E, como bom cristão, dou a outra face.
Já quando o exercício é levado a cabo por mim, tenho guerra.
Estou um bocado farto do mundo que rodeia.
O ideal era desaparecer durante anos.
Sim, anos.
Para longe.
Fazer o que faço, mas na Arrifana, Matosinhos ou Zambujeira.
Longe. Incontactável.
Sem ninguém.
Só eu.
Sonhos.
quarta-feira, fevereiro 11, 2015
Pequeno momento privativo de Kumbaya ou um texto próprio de velho de Jardim, jogando sueca e tentando lembrar se tomou os comprimidos.
Diz que é de 1968.
Aqui há dias, numa conversa familiar, minha mãe, Professora de profissão, contava-me que falou da Teoria da Evolução na aula. A resposta terá sido algo como: "A Stora acha que viemos dos macacos"?.
A conversa aprofundou. Em suma, aquelas almas não sabiam quem era Herman José. Com muita dificuldade sabiam quem era Ricardo Araújo Pereira.
Não me tenho como culto, penso até que estou ao nível de um simio que aprendeu a colocar os cubos nas ranhuras, tipo Gervásio, mas fiquei melindrado.
Anos de promoção da escola pública, dinheiro gasto, esperanças investidas.
E foi isto.
"Nos tempos que correm, não sei distinguir o bem do mal, o mal do bem".
A propósito de cinema ou (um post que podia ter sido escrito por Carlos Costa. Não o Governador do BdP. O outro. Dos Ídolos)
Há semanas, vi um filme que, não sendo original, muito menos unânime, é, na minha mui modesta opinião, um dos grandes filmes do ano, senão mesmo o melhor.
Para isto ter piada, não vou falar em nomes.
Vale a pena uma sinopse, contudo. O filme, estreado recentemente (é a melhor pista de que me lembro), conta a história de um jovem músico que entra num prestigiado conservatório de música e é "marcado" por uma lenda viva que o recruta para a sua banda.
O que se passa depois é digno de muitas interpretações. A mais fácil (e talvez mais verdadeira) é esta: aquele jovem foi recrutado por nele ter sido visto algum talento, mas o elemento que o recrutou pede meças a Satã e vai fazer-lhe a vida negra sob o pretexto de dele extrair o melhor.
O filme é grande porque não é clara (ainda que o personagem o diga expressamente) a intenção do "mestre". Não é líquido que aquele ser queira extrair o melhor do seu pupilo. Sabemos que existe maldade. Desrespeito. Diminuição. Espezinhamento (isto existe?). Mas a que título? Com que razão.
Mas há um outro aspecto que faz com esta fita me marque para sempre. Sem a parte do talento e da área, aquela também é a minha vida. Mais: tem sido a nossa vida. (Atenção, que a parte do "sem talento" é para mim).
A coberto de algum valor, de algum objetivo, que nem se sabe se existe, somos, ouvimos e lemos o que não queremos. E quem nos dera poder ignorar.
Vale e valerá sempre o menos, o fracasso, a omissão. Foi assim que vi a vida até este ponto.
Pedir desculpa não tem dificuldade nenhuma.
Elogiar genuinamente é um unicórnio. Tanto, que às vezes pensamos que não valemos nada.
E o problema, a meu ver, nem é tanto se não valermos. O conceito de média existe por alguma razão.
É mesmo não saber.
Enfim, no filme, a chave disto tudo estava no jovem. E porquê? Porque grande é quem sabe. Grande é quem não precisa que lhe meçam a altura.
Tomara eu.
Para isto ter piada, não vou falar em nomes.
Vale a pena uma sinopse, contudo. O filme, estreado recentemente (é a melhor pista de que me lembro), conta a história de um jovem músico que entra num prestigiado conservatório de música e é "marcado" por uma lenda viva que o recruta para a sua banda.
O que se passa depois é digno de muitas interpretações. A mais fácil (e talvez mais verdadeira) é esta: aquele jovem foi recrutado por nele ter sido visto algum talento, mas o elemento que o recrutou pede meças a Satã e vai fazer-lhe a vida negra sob o pretexto de dele extrair o melhor.
O filme é grande porque não é clara (ainda que o personagem o diga expressamente) a intenção do "mestre". Não é líquido que aquele ser queira extrair o melhor do seu pupilo. Sabemos que existe maldade. Desrespeito. Diminuição. Espezinhamento (isto existe?). Mas a que título? Com que razão.
Mas há um outro aspecto que faz com esta fita me marque para sempre. Sem a parte do talento e da área, aquela também é a minha vida. Mais: tem sido a nossa vida. (Atenção, que a parte do "sem talento" é para mim).
A coberto de algum valor, de algum objetivo, que nem se sabe se existe, somos, ouvimos e lemos o que não queremos. E quem nos dera poder ignorar.
Vale e valerá sempre o menos, o fracasso, a omissão. Foi assim que vi a vida até este ponto.
Pedir desculpa não tem dificuldade nenhuma.
Elogiar genuinamente é um unicórnio. Tanto, que às vezes pensamos que não valemos nada.
E o problema, a meu ver, nem é tanto se não valermos. O conceito de média existe por alguma razão.
É mesmo não saber.
Enfim, no filme, a chave disto tudo estava no jovem. E porquê? Porque grande é quem sabe. Grande é quem não precisa que lhe meçam a altura.
Tomara eu.
sexta-feira, janeiro 23, 2015
Variações
Licenciei-me em 2009, depois de 5 (longos ou nem tanto, depende da perspectiva) anos.
Estudei, a princípio, o ordenamento jurídico pelo qual as pessoas se regem neste país. Do mais político ao mais prático.
Depois, ingressei na advocacia. Para quem não sabe, a advocacia, para mim, foi quase como a polícia para qualquer cidadão: "não sabes fazer nada? Vai para a polícia."
Então, tive a oportunidade de aplicar a lei. É um problema. Pode ser estimulante, consoante a área de prática ou o nervosismo do cliente. Contudo, um problema é sempre um problema.
Todos os dias morro um bocado devido à escolha que fiz. Para tantos, o curso de direito foi um suplício de um calvário de dificuldades, mercê da carga teórica e desinteresse que algumas matérias suscitam. Digamos que sofri um pouco naqueles cinco anos. Mas sofrer é bem diferente de uma morte, ainda que metafórica.
Hoje, quase 5 anos depois da conclusão do iter jurídico, chegado de um almoço catita, tenho na minha secretária uma sentença.
Sem revelar dados mais técnicos, dizia, em suma, que não tinha razão.
O direito é curioso: podemos não ter razão a vários níveis. Ganhar é ter razão em todos.
Estar a escrever este texto é, tão-somente, um exercício de contacto com a realidade.
Desde cedo que a vida me disse que a minha capacidade intelectual dava, quando muito, para qualquer coisa relacionada com a distribuição alimentar. Conduzir um camião de alfaces. Repor stock nas prateleiras de uma superficie de supermercado. Empilhar caixotes. Varrer corredores.
Diga-se, em abono da verdade, que não pretendo escarnecer de qualquer destas actividades. São dignas e executadas por alguém, sem qualquer dúvida, bem melhor que eu.
Só que devo colocar as coisas em perspectiva. Nenhuma das profissões citadas precisa de 5 anos de estudo e sucessivos seminários de aperfeiçoamento. Basta a boa vontade e força. E isso são coisas que não me faltaram.
Mas, hoje, perdi. Perdi em vários níveis e em vários campos. Mal comparando, é como se o Sporting tivesse perdido em casa contra o último classificado das distritais e os rivais tivessem ganho ao Real Madrid e Barcelona nos respectivos domínios.
E perdi porque li (não concordo, repito-o até à exaustão) mal a lei aplicável.
5 anos de curso.
Quase 5 anos de prática.
E li mal a lei. (Diz o Juiz.)
Princípio de Peter verificado.
Tenho que mudar as agulhas.
Estudei, a princípio, o ordenamento jurídico pelo qual as pessoas se regem neste país. Do mais político ao mais prático.
Depois, ingressei na advocacia. Para quem não sabe, a advocacia, para mim, foi quase como a polícia para qualquer cidadão: "não sabes fazer nada? Vai para a polícia."
Então, tive a oportunidade de aplicar a lei. É um problema. Pode ser estimulante, consoante a área de prática ou o nervosismo do cliente. Contudo, um problema é sempre um problema.
Todos os dias morro um bocado devido à escolha que fiz. Para tantos, o curso de direito foi um suplício de um calvário de dificuldades, mercê da carga teórica e desinteresse que algumas matérias suscitam. Digamos que sofri um pouco naqueles cinco anos. Mas sofrer é bem diferente de uma morte, ainda que metafórica.
Hoje, quase 5 anos depois da conclusão do iter jurídico, chegado de um almoço catita, tenho na minha secretária uma sentença.
Sem revelar dados mais técnicos, dizia, em suma, que não tinha razão.
O direito é curioso: podemos não ter razão a vários níveis. Ganhar é ter razão em todos.
Estar a escrever este texto é, tão-somente, um exercício de contacto com a realidade.
Desde cedo que a vida me disse que a minha capacidade intelectual dava, quando muito, para qualquer coisa relacionada com a distribuição alimentar. Conduzir um camião de alfaces. Repor stock nas prateleiras de uma superficie de supermercado. Empilhar caixotes. Varrer corredores.
Diga-se, em abono da verdade, que não pretendo escarnecer de qualquer destas actividades. São dignas e executadas por alguém, sem qualquer dúvida, bem melhor que eu.
Só que devo colocar as coisas em perspectiva. Nenhuma das profissões citadas precisa de 5 anos de estudo e sucessivos seminários de aperfeiçoamento. Basta a boa vontade e força. E isso são coisas que não me faltaram.
Mas, hoje, perdi. Perdi em vários níveis e em vários campos. Mal comparando, é como se o Sporting tivesse perdido em casa contra o último classificado das distritais e os rivais tivessem ganho ao Real Madrid e Barcelona nos respectivos domínios.
E perdi porque li (não concordo, repito-o até à exaustão) mal a lei aplicável.
5 anos de curso.
Quase 5 anos de prática.
E li mal a lei. (Diz o Juiz.)
Princípio de Peter verificado.
Tenho que mudar as agulhas.
segunda-feira, janeiro 19, 2015
Problema da 4.ª Classe
Tenho viatura automóvel própria. Devo dizer, em abono da verdade, que é uma ferramenta de trabalho e lazer como nunca tive.
Não tenho casa própria, mas vivo numa arrendada, em Almada. E já lá vivo vai para dois anos.
É natural, quando não obrigatório, deslocar-me naquela que é a tradicional rotina pequeno-burguesa "casa-trabalho-casa".
Mas vale a pena ser específico. Durante a semana, a rotina exacta é: casa-trabalho-casa-trabalho-casa. E porquê? Porque a refeição a que se convencionou chamar almoço é tomada, por mim, em casa.
Não vem ao caso toda a miríade de complexos sócio-económicos que brotam deste estilo de vida.
Abrevio: no dia de hoje, quando vim a casa almoçar, estacionei a viatura onde estaciono sempre. Quando voltei, tinha uma notificação, a primeira da minha vida: não era uma multa de trânsito, nem de estacionamento. Isso viria depois. Depois do quê? Depois de falhar a oportunidade que me foi dada para pagar uma taxa indevida de ocupação de um lugar de estacionamento pago.
Adiciono mais umas variáveis:
- Em Almada, há 3 tipos de lugares de estacionamento (grosso modo): livres, para residentes e pagos.
- Tenho livre acesso aos lugares "para residentes";
- Estacionei naquilo a que apelidei de "lugar pago".
- Procurei e não havia qualquer lugar disponível para residente.
Pergunta-se:
Tendo em conta que:
- Os lugares pagos o são desde as 9 horas até às 19 horas, durante os dias úteis e das 9 horas até às 14h aos sábados,
- Que entro ao serviço depois das 9 horas,
Como é que é a minha vida?
Não tenho casa própria, mas vivo numa arrendada, em Almada. E já lá vivo vai para dois anos.
É natural, quando não obrigatório, deslocar-me naquela que é a tradicional rotina pequeno-burguesa "casa-trabalho-casa".
Mas vale a pena ser específico. Durante a semana, a rotina exacta é: casa-trabalho-casa-trabalho-casa. E porquê? Porque a refeição a que se convencionou chamar almoço é tomada, por mim, em casa.
Não vem ao caso toda a miríade de complexos sócio-económicos que brotam deste estilo de vida.
Abrevio: no dia de hoje, quando vim a casa almoçar, estacionei a viatura onde estaciono sempre. Quando voltei, tinha uma notificação, a primeira da minha vida: não era uma multa de trânsito, nem de estacionamento. Isso viria depois. Depois do quê? Depois de falhar a oportunidade que me foi dada para pagar uma taxa indevida de ocupação de um lugar de estacionamento pago.
Adiciono mais umas variáveis:
- Em Almada, há 3 tipos de lugares de estacionamento (grosso modo): livres, para residentes e pagos.
- Tenho livre acesso aos lugares "para residentes";
- Estacionei naquilo a que apelidei de "lugar pago".
- Procurei e não havia qualquer lugar disponível para residente.
Pergunta-se:
Tendo em conta que:
- Os lugares pagos o são desde as 9 horas até às 19 horas, durante os dias úteis e das 9 horas até às 14h aos sábados,
- Que entro ao serviço depois das 9 horas,
Como é que é a minha vida?
segunda-feira, janeiro 12, 2015
Ainda não decidi
"Pensar é estar doente dos olhos" ou o autor deste post pensa
demais e, portanto, quer fazer um downsizing desse departamento por si próprio
apelidado "Departamento de meditação que cai, mais das vezes, em saco
roto".
Deixo de falar na terceira pessoa, agora.
Ainda não decidi se sou, ou não, Charlie.
Como quero diminuir o peso do supra citado "Departamento" limitei-me a ver os factos e a tirar conclusões, sempre no tom mais básico a que qualquer representante da humanidade pode aspirar.
Os ataques são de um nojo inominável. Soma-se tudo o que está errado: tirar a vida às pessoas, em nome de inexistências, por motivos reprováveis.
Atacou-se a vida, a liberdade de expressão, de imprensa e fez-se a apologia da violência e de um sector extremista de uma religião que até prega a paz.
Porventura, quando se ergue a bandeira de "Somos todos Charlie", queria estender-se a todos e a cada um a dor do ataque. Não com o preço da própria existência, mas num acto simbólico em que ficámos todos afectados com a diminuição, pela força, de liberdades essenciais. Será qualquer coisa do género: calar um é calar todos. Aconteceu a um como podia ter acontecido a todos.
Depois apareceu o Gustavo Santos.
Quem tem andado atento a vídeos e programas de TV sabe de quem se trata. Life Coach (e associar o termo ao futebol?) e apresentador. Ex-bailarino e atual lenha para queimar.
A única coisa que, até hoje, o Gustava Santos me deu foi uma valente gargalhada. E não estou as falar do comentário que fez no FB. Refiro-me aos vídeos motivacionais em que "o grande amor da vida do Gustavo é o Gustavo. Por isso é que se chama a vida do Gustava. A nossa mente chama-se mente porque nos mente todos os dias".
Depois de me lembrar do "Meu irmão", imortal êxito do quarteto 1111, ri-me.
Gustavo Santos foi linchado. Só faltou irem a casa dele com Ak-47 e darem-lhe um tiro.
Para além do Gustavo Santos, apareceu Rui Sinel de Cordes. João Quadros. José de Pina. Tudo nomes cujo trabalho aprecio, cada um à sua maneira. Chegaram comentadores. Chegaram anónimos.
Já ninguém queria ser Charlie. Uns porque "não é Charlie quem quer". Outros porque não gostam de rótulos e outros por ser Charlie não é nada daquilo que tem sido apregoado.
Nisto, sinto-me como o Paulo de Carvalho.
Fiquei sem saber quem era e o que fazia aqui.
Depois de tanta linha escrita, tanta tinta usada, só me apercebi que sou o autor deste post.
Sei lá se sou Charlie.
O "mote" usado para agregar as pessoas para uma causa (Je suis Charlie) foi, ele próprio, alvo de discussão, de separação, de ofensa e de contenda, ainda que a uma escala reduzida.
E era usado para o bem!
O dever de qualquer pessoa de bem, concorde ou não com os Cartoons, Cristão ou Muçulmano, jornalista ou "civil", preto ou branco, mais cómico ou menos cómico, mais ou menos susceptível, é só um e um só: condenar o acto que vitimou aquelas pessoas. Porque não há desculpa no mundo que salve quem as atacou.
Não há razão para pensar se houve excesso dos cartoonistas. Nem para pensar sobre os limites de humor. Não é essa a discussão.
Morreram pessoas. Morreram no exercício das suas funções. Morreram sem razão atendível.
Só se pode discutir os limites do humor quando há liberdade. Só se pode discutir o que é ou não ofensa quando existem e se aplicam os mecanismos próprios do Estado de Direito.
Quem mata porque está ofendido não sabe o que é a liberdade. Quem defende cegamente um ideal sem postura crítica não é livre.
Por isso, com o devido respeito, marimbo-me para quem é e para quem não é Charlie.
Deixo de falar na terceira pessoa, agora.
Ainda não decidi se sou, ou não, Charlie.
Como quero diminuir o peso do supra citado "Departamento" limitei-me a ver os factos e a tirar conclusões, sempre no tom mais básico a que qualquer representante da humanidade pode aspirar.
Os ataques são de um nojo inominável. Soma-se tudo o que está errado: tirar a vida às pessoas, em nome de inexistências, por motivos reprováveis.
Atacou-se a vida, a liberdade de expressão, de imprensa e fez-se a apologia da violência e de um sector extremista de uma religião que até prega a paz.
Porventura, quando se ergue a bandeira de "Somos todos Charlie", queria estender-se a todos e a cada um a dor do ataque. Não com o preço da própria existência, mas num acto simbólico em que ficámos todos afectados com a diminuição, pela força, de liberdades essenciais. Será qualquer coisa do género: calar um é calar todos. Aconteceu a um como podia ter acontecido a todos.
Depois apareceu o Gustavo Santos.
Quem tem andado atento a vídeos e programas de TV sabe de quem se trata. Life Coach (e associar o termo ao futebol?) e apresentador. Ex-bailarino e atual lenha para queimar.
A única coisa que, até hoje, o Gustava Santos me deu foi uma valente gargalhada. E não estou as falar do comentário que fez no FB. Refiro-me aos vídeos motivacionais em que "o grande amor da vida do Gustavo é o Gustavo. Por isso é que se chama a vida do Gustava. A nossa mente chama-se mente porque nos mente todos os dias".
Depois de me lembrar do "Meu irmão", imortal êxito do quarteto 1111, ri-me.
Gustavo Santos foi linchado. Só faltou irem a casa dele com Ak-47 e darem-lhe um tiro.
Para além do Gustavo Santos, apareceu Rui Sinel de Cordes. João Quadros. José de Pina. Tudo nomes cujo trabalho aprecio, cada um à sua maneira. Chegaram comentadores. Chegaram anónimos.
Já ninguém queria ser Charlie. Uns porque "não é Charlie quem quer". Outros porque não gostam de rótulos e outros por ser Charlie não é nada daquilo que tem sido apregoado.
Nisto, sinto-me como o Paulo de Carvalho.
Fiquei sem saber quem era e o que fazia aqui.
Depois de tanta linha escrita, tanta tinta usada, só me apercebi que sou o autor deste post.
Sei lá se sou Charlie.
O "mote" usado para agregar as pessoas para uma causa (Je suis Charlie) foi, ele próprio, alvo de discussão, de separação, de ofensa e de contenda, ainda que a uma escala reduzida.
E era usado para o bem!
O dever de qualquer pessoa de bem, concorde ou não com os Cartoons, Cristão ou Muçulmano, jornalista ou "civil", preto ou branco, mais cómico ou menos cómico, mais ou menos susceptível, é só um e um só: condenar o acto que vitimou aquelas pessoas. Porque não há desculpa no mundo que salve quem as atacou.
Não há razão para pensar se houve excesso dos cartoonistas. Nem para pensar sobre os limites de humor. Não é essa a discussão.
Morreram pessoas. Morreram no exercício das suas funções. Morreram sem razão atendível.
Só se pode discutir os limites do humor quando há liberdade. Só se pode discutir o que é ou não ofensa quando existem e se aplicam os mecanismos próprios do Estado de Direito.
Quem mata porque está ofendido não sabe o que é a liberdade. Quem defende cegamente um ideal sem postura crítica não é livre.
Por isso, com o devido respeito, marimbo-me para quem é e para quem não é Charlie.
segunda-feira, janeiro 05, 2015
Quantificação
Morfologicamente, pareço o Prof. Chanfrado, personagem interpretada por Eddie Murphy.
Desde dia 24 que os meus convívios passam por um farto repasto. Comer e beber. Conversar. Galhofar. Comer e beber. Conversar. Galhofar.
Tenho perdido tanta coisa ao longo da vida que já me custa quantificar. Pessoas, sobretudo. Depois há os bens, a honra, a dignidade e o amor próprio.
Em nenhum momento da minha (ainda) parca existência envidei esforço algum para me serem retiradas as realidades supra citadas.
Agora, estou redondo.
Como perco a roda de camião que habita no meu ventre?
Desde dia 24 que os meus convívios passam por um farto repasto. Comer e beber. Conversar. Galhofar. Comer e beber. Conversar. Galhofar.
Tenho perdido tanta coisa ao longo da vida que já me custa quantificar. Pessoas, sobretudo. Depois há os bens, a honra, a dignidade e o amor próprio.
Em nenhum momento da minha (ainda) parca existência envidei esforço algum para me serem retiradas as realidades supra citadas.
Agora, estou redondo.
Como perco a roda de camião que habita no meu ventre?
domingo, janeiro 04, 2015
terça-feira, dezembro 23, 2014
Impossibilidades
Por esta altura, ou talvez não, já teria neste espaço uma qualquer árvore de natal e uns votos de festas felizes.
Este ano estou a ser incapaz de postar seja o que for nesse sentido.
As razões são muitas.
A principal é que estou a sentir, mais que nunca, a perda. Sinto a falta. Das pessoas. Do espírito.
Os natais que vivi são irrepetíveis. Nunca havia alegria como aquela. Era como se o ano todo se andasse a preparar para dar as pessoas doses maciças de jubilo, alegria, felicidade.
E assim foram pelas pessoas que o compunham (ao natal) como pela ideia do mundo que tinha.
Nada daquilo se manteve. O que acaba por ser natural. As pessoas partem, tanto física como mentalmente, e as nossas concepções também.
Por isso, em vez dos habituais votos de boas festas, vou escrever, uma vez mais para memória futura, algumas lições que tiro deste ano.
A de hoje é:
- Não vale a pena fazer o bem, ajudar, assistir. É mais feliz quem não pratica semelhantes virtudes.
(Não estou a querer dizer que o contrário é aceitável.)
Este ano estou a ser incapaz de postar seja o que for nesse sentido.
As razões são muitas.
A principal é que estou a sentir, mais que nunca, a perda. Sinto a falta. Das pessoas. Do espírito.
Os natais que vivi são irrepetíveis. Nunca havia alegria como aquela. Era como se o ano todo se andasse a preparar para dar as pessoas doses maciças de jubilo, alegria, felicidade.
E assim foram pelas pessoas que o compunham (ao natal) como pela ideia do mundo que tinha.
Nada daquilo se manteve. O que acaba por ser natural. As pessoas partem, tanto física como mentalmente, e as nossas concepções também.
Por isso, em vez dos habituais votos de boas festas, vou escrever, uma vez mais para memória futura, algumas lições que tiro deste ano.
A de hoje é:
- Não vale a pena fazer o bem, ajudar, assistir. É mais feliz quem não pratica semelhantes virtudes.
(Não estou a querer dizer que o contrário é aceitável.)
segunda-feira, dezembro 22, 2014
Por ocasião do Natal
Descobri que me tornei um cínico.
É verdade.
Toda a gente fala dos grandes confrontos e guerras que existiram na história.
Raramente alguém se lembra de quem estava no meio. Na diplomacia, no controlo de danos, na promoção do entendimento.
A verdade é uma: não obstante a existência de meios pacíficos de resolução de litígios, sejam eles quais forem, uma contenda só acaba quando alguém a vence.
Alguém tem de perder para que haja, pelo menos, alguém contente, um vencedor.
Ninguém está disposto a transigir, a chegar a meio termo.
Na ótica dos terrestres, transigir é perder totalmente. E isso ninguém quer.
Vai daí, tornei-me cínico.
Estou no meio de tudo. Ou quase.
Estou constantemente a tentar apagar fogos, a pacificar a equilibrar.
E isso é tarefa de um cínico.
Também descobri recentemente, ou talvez não, que só conta, para toda a humanidade (escrevo duas vezes: TODA A HUMANIDADE) os actos tidos por errados.
Não sobra a lembrança, jamais, de atitudes nobres e corretas. A desconfiança nunca merece arguição. Uma coisa que parece errada aos olhos de um julgador, passa a não parecer, para ser, e uma vida normal é um atentado à decência.
Isto para dizer que, aos olhos dos que me rodeiam, sou uma desilusão.
E isso é mais trágico de aturar no Natal.
É verdade.
Toda a gente fala dos grandes confrontos e guerras que existiram na história.
Raramente alguém se lembra de quem estava no meio. Na diplomacia, no controlo de danos, na promoção do entendimento.
A verdade é uma: não obstante a existência de meios pacíficos de resolução de litígios, sejam eles quais forem, uma contenda só acaba quando alguém a vence.
Alguém tem de perder para que haja, pelo menos, alguém contente, um vencedor.
Ninguém está disposto a transigir, a chegar a meio termo.
Na ótica dos terrestres, transigir é perder totalmente. E isso ninguém quer.
Vai daí, tornei-me cínico.
Estou no meio de tudo. Ou quase.
Estou constantemente a tentar apagar fogos, a pacificar a equilibrar.
E isso é tarefa de um cínico.
Também descobri recentemente, ou talvez não, que só conta, para toda a humanidade (escrevo duas vezes: TODA A HUMANIDADE) os actos tidos por errados.
Não sobra a lembrança, jamais, de atitudes nobres e corretas. A desconfiança nunca merece arguição. Uma coisa que parece errada aos olhos de um julgador, passa a não parecer, para ser, e uma vida normal é um atentado à decência.
Isto para dizer que, aos olhos dos que me rodeiam, sou uma desilusão.
E isso é mais trágico de aturar no Natal.
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