sexta-feira, fevereiro 20, 2015

Óleo

- "Agora, na televisão, andam a dizer que o óleo faz mal".
- "Pois, parece que é".
- "Eu, quando faço o meu bifinho, nunca deixo de pôr óleo na frigideira. Diz que é melhor pôr azeite, mas eu odeio azeite, ca nojo".

- "Desculpe, pode dar-me um cigarro?".

Abaixo das Janelas Verdes (Green Windows, numa toada mais internacional).

Seguidamente, chegou quem esperava e fui realizar uma diligência judicial (nome pomposo para algo tão rotineiro).

Subi as escadas de um prédio decrépito e só encontrei uma afastada sósia de Anita Guerreiro.

Ali ficámos bem mais do que deviamos a ouvir a predilecção por Bocage e as dedicatórias que tinha feito ao recém-editado livro de um companheiro de tertúlia. Palavra que repetia: Vato.

Não sacando nada daquela freguesia, mas tendo "caçado" uma pista, fomos a uma loja do Chinês ali ao pé, loja que se situava no prédio onde estariam a viver os "objectos" da referida diligência.

De chinesa, a empregada tinha pouco. Perguntou se alguém ia preso. Comprei-lhe um espelho pequeno. Diziam-me que havia falta. Mentira.

Finalmente, fomos à Rua das Janelas Verdes. Tocámos à porta de um majestoso prédio e fomos atendidos por alguém que até conhecia quem procurávamos. Sucedia que já se havia mudado há meses.

Quando terminámos, batia o final de tarde e era dia 12 de Junho. O ar confundia-se com o cheiro de sardinha assada e até as estradas começavam a ficar intransitáveis. Já mal se continha a reprimida, ao longo do ano, vontade de celebrar o Santo António (na gíria, ir para os santos) e lá fomos embora.

Senti que não devia ter saído dali. Devia ter ficado e bebido uma imperial e comido uma bifana, apesar de serem só sete da tarde.

É que desde uma (quase) fatídica noite, não voltei a celebrar o Santo António. Naquele instante em que via esplanadas a serem decoradas com a bela toalha vermelha, cesto do pão e guardanapos de papel branquinho, percebi que a existência era outra.

Noutros tempos, teria ido a Lisboa de propósito para lá passar a noite, na melhor das companhias, ficando por lá, até que batesse o sol e o pequeno-almoço fosse tomado numa qualquer pastelaria da Av. do Brasil, com torradas queimadas.

Daquela vez, vim-me embora quando a festa começou.

sexta-feira, fevereiro 13, 2015

Licitudes e amoralidades

Será que é lícito dizer a alguém desrazoável que é, efectivamente, desrazoável?

É razoável presumir que não.

E ninguém mais do que eu dá valor às presunções. Muito raramente são ilididas.

(Um desabafo mais infantil): naturalmente por me faltar um bocado do cérebro, passo a vida a ouvir críticas. Seja no plano laboral (onde é tão bom malhar neste Jô Soares) seja no plano pessoal. E, como bom cristão, dou a outra face.

Já quando o exercício é levado a cabo por mim, tenho guerra.

Estou um bocado farto do mundo que rodeia.

O ideal era desaparecer durante anos.

Sim, anos.

Para longe.

Fazer o que faço, mas na Arrifana, Matosinhos ou Zambujeira.

Longe. Incontactável.

Sem ninguém.

Só eu.

Sonhos.


quarta-feira, fevereiro 11, 2015

Pequeno momento privativo de Kumbaya ou um texto próprio de velho de Jardim, jogando sueca e tentando lembrar se tomou os comprimidos.




Diz que é de 1968.

Aqui há dias, numa conversa familiar, minha mãe, Professora de profissão, contava-me que falou da Teoria da Evolução na aula. A resposta terá sido algo como: "A Stora acha que viemos dos macacos"?.

A conversa aprofundou. Em suma, aquelas almas não sabiam quem era Herman José. Com muita dificuldade sabiam quem era Ricardo Araújo Pereira.

Não me tenho como culto, penso até que estou ao nível de um simio que aprendeu a colocar os cubos nas ranhuras, tipo Gervásio, mas fiquei melindrado.

Anos de promoção da escola pública, dinheiro gasto, esperanças investidas.

E foi isto.

"Nos tempos que correm, não sei distinguir o bem do mal, o mal do bem".

A propósito de cinema ou (um post que podia ter sido escrito por Carlos Costa. Não o Governador do BdP. O outro. Dos Ídolos)

Há semanas, vi um filme que, não sendo original, muito menos unânime, é, na minha mui modesta opinião, um dos grandes filmes do ano, senão mesmo o melhor.

Para isto ter piada, não vou falar em nomes.

Vale a pena uma sinopse, contudo. O filme, estreado recentemente (é a melhor pista de que me lembro), conta a história de um jovem músico que entra num prestigiado conservatório de música e é "marcado" por uma lenda viva que o recruta para a sua banda.

O que se passa depois é digno de muitas interpretações. A mais fácil (e talvez mais verdadeira) é esta: aquele jovem foi recrutado por nele ter sido visto algum talento, mas o elemento que o recrutou pede meças a Satã e vai fazer-lhe a vida negra sob o pretexto de dele extrair o melhor.

O filme é grande porque não é clara (ainda que o personagem o diga expressamente) a intenção do "mestre". Não é líquido que aquele ser queira extrair o melhor do seu pupilo. Sabemos que existe maldade. Desrespeito. Diminuição. Espezinhamento (isto existe?). Mas a que título? Com que razão.

Mas há um outro aspecto que faz com esta fita me marque para sempre. Sem a parte do talento e da área, aquela também é a minha vida. Mais: tem sido a nossa vida. (Atenção, que a parte do "sem talento" é para mim).

A coberto de algum valor, de algum objetivo, que nem se sabe se existe, somos, ouvimos e lemos o que não queremos. E quem nos dera poder ignorar.

Vale e valerá sempre o menos, o fracasso, a omissão. Foi assim que vi a vida até este ponto.

Pedir desculpa não tem dificuldade nenhuma.

Elogiar genuinamente é um unicórnio. Tanto, que às vezes pensamos que não valemos nada.

E o problema, a meu ver, nem é tanto se não valermos. O conceito de média existe por alguma razão.

É mesmo não saber.

Enfim, no filme, a chave disto tudo estava no jovem. E porquê? Porque grande é quem sabe. Grande é quem não precisa que lhe meçam a altura.

Tomara eu.

sexta-feira, janeiro 23, 2015

Variações

Licenciei-me em 2009, depois de 5 (longos ou nem tanto, depende da perspectiva) anos.
Estudei, a princípio, o ordenamento jurídico pelo qual as pessoas se regem neste país. Do mais político ao mais prático.
Depois, ingressei na advocacia. Para quem não sabe, a advocacia, para mim, foi quase como a polícia para qualquer cidadão: "não sabes fazer nada? Vai para a polícia."
Então, tive a oportunidade de aplicar a lei. É um problema. Pode ser estimulante, consoante a área de prática ou o nervosismo do cliente. Contudo, um problema é sempre um problema.
Todos os dias morro um bocado devido à escolha que fiz. Para tantos, o curso de direito foi um suplício de um calvário de dificuldades, mercê da carga teórica e desinteresse que algumas matérias suscitam. Digamos que sofri um pouco naqueles cinco anos. Mas sofrer é bem diferente de uma morte, ainda que metafórica.

Hoje, quase 5 anos depois da conclusão do iter jurídico, chegado de um almoço catita, tenho na minha secretária uma sentença.

Sem revelar dados mais técnicos, dizia, em suma, que não tinha razão.

O direito é curioso: podemos não ter razão a vários níveis. Ganhar é ter razão em todos.

Estar a escrever este texto é, tão-somente, um exercício de contacto com a realidade.

Desde cedo que a vida me disse que a minha capacidade intelectual dava, quando muito, para qualquer coisa relacionada com a distribuição alimentar. Conduzir um camião de alfaces. Repor stock nas prateleiras de uma superficie de supermercado. Empilhar caixotes. Varrer corredores.

Diga-se, em abono da verdade, que não pretendo escarnecer de qualquer destas actividades. São dignas e executadas por alguém, sem qualquer dúvida, bem melhor que eu.

Só que devo colocar as coisas em perspectiva. Nenhuma das profissões citadas precisa de 5 anos de estudo e sucessivos seminários de aperfeiçoamento. Basta a boa vontade e força. E isso são coisas que não me faltaram.

Mas, hoje, perdi. Perdi em vários níveis e em vários campos. Mal comparando, é como se o Sporting tivesse perdido em casa contra o último classificado das distritais e os rivais tivessem ganho ao Real Madrid e Barcelona nos respectivos domínios.

E perdi porque li (não concordo, repito-o até à exaustão) mal a lei aplicável.

5 anos de curso.

Quase 5 anos de prática.

E li mal a lei. (Diz o Juiz.)

Princípio de Peter verificado.

Tenho que mudar as agulhas.










segunda-feira, janeiro 19, 2015

Problema da 4.ª Classe

Tenho viatura automóvel própria. Devo dizer, em abono da verdade, que é uma ferramenta de trabalho e lazer como nunca tive.

Não tenho casa própria, mas vivo numa arrendada, em Almada. E já lá vivo vai para dois anos.

É natural, quando não obrigatório, deslocar-me naquela que é a tradicional rotina pequeno-burguesa "casa-trabalho-casa".

Mas vale a pena ser específico. Durante a semana, a rotina exacta é: casa-trabalho-casa-trabalho-casa. E porquê? Porque a refeição a que se convencionou chamar almoço é tomada, por mim, em casa.

Não vem ao caso toda a miríade de complexos sócio-económicos que brotam deste estilo de vida.

Abrevio: no dia de hoje, quando vim a casa almoçar, estacionei a viatura onde estaciono sempre. Quando voltei, tinha uma notificação, a primeira da minha vida: não era uma multa de trânsito, nem de estacionamento. Isso viria depois. Depois do quê? Depois de falhar a oportunidade que me foi dada para pagar uma taxa indevida de ocupação de um lugar de estacionamento pago.

Adiciono mais umas variáveis:

- Em Almada, há 3 tipos de lugares de estacionamento (grosso modo): livres, para residentes e pagos.

- Tenho livre acesso aos lugares "para residentes";

- Estacionei naquilo a que apelidei de "lugar pago".

- Procurei e não havia qualquer lugar disponível para residente.

 Pergunta-se:

Tendo em conta que:

- Os lugares pagos o são desde as 9 horas até às 19 horas, durante os dias úteis e das 9 horas até às 14h aos sábados,

 - Que entro ao serviço depois das 9 horas,

Como é que é a minha vida?

segunda-feira, janeiro 12, 2015

Ainda não decidi

"Pensar é estar doente dos olhos" ou o autor deste post pensa demais e, portanto, quer fazer um downsizing desse departamento por si próprio apelidado "Departamento de meditação que cai, mais das vezes, em saco roto".

Deixo de falar na terceira pessoa, agora.

Ainda não decidi se sou, ou não, Charlie.

Como quero diminuir o peso do supra citado "Departamento" limitei-me a ver os factos e a tirar conclusões, sempre no tom mais básico a que qualquer representante da humanidade pode aspirar.

Os ataques são de um nojo inominável. Soma-se tudo o que está errado: tirar a vida às pessoas, em nome de inexistências, por motivos reprováveis.

Atacou-se a vida, a liberdade de expressão, de imprensa e fez-se a apologia da violência e de um sector extremista de uma religião que até prega a paz.

Porventura, quando se ergue a bandeira de "Somos todos Charlie", queria estender-se a todos e a cada um a dor do ataque. Não com o preço da própria existência, mas num acto simbólico em que ficámos todos afectados com a diminuição, pela força, de liberdades essenciais. Será qualquer coisa do género: calar um é calar todos. Aconteceu a um como podia ter acontecido a todos.

Depois apareceu o Gustavo Santos.

Quem tem andado atento a vídeos e programas de TV sabe de quem se trata. Life Coach (e associar o termo ao futebol?) e apresentador. Ex-bailarino e atual lenha para queimar.

A única coisa que, até hoje, o Gustava Santos me deu foi uma valente gargalhada. E não estou as falar do comentário que fez no FB. Refiro-me aos vídeos motivacionais em que "o grande amor da vida do Gustavo é o Gustavo. Por isso é que se chama a vida do Gustava. A nossa mente chama-se mente porque nos mente todos os dias".

Depois de me lembrar do "Meu irmão", imortal êxito do quarteto 1111, ri-me.

Gustavo Santos foi linchado. Só faltou irem a casa dele com Ak-47 e darem-lhe um tiro.

Para além do Gustavo Santos, apareceu Rui Sinel de Cordes. João Quadros. José de Pina. Tudo nomes cujo trabalho aprecio, cada um à sua maneira. Chegaram comentadores. Chegaram anónimos.

Já ninguém queria ser Charlie. Uns porque "não é Charlie quem quer". Outros porque não gostam de rótulos e outros por ser Charlie não é nada daquilo que tem sido apregoado.

Nisto, sinto-me como o Paulo de Carvalho.

Fiquei sem saber quem era e o que fazia aqui.

Depois de tanta linha escrita, tanta tinta usada, só me apercebi que sou o autor deste post.


Sei lá se sou Charlie.

O "mote" usado para agregar as pessoas para uma causa (Je suis Charlie) foi, ele próprio, alvo de discussão, de separação, de ofensa e de contenda, ainda que a uma escala reduzida.

E era usado para o bem!

O dever de qualquer pessoa de bem, concorde ou não com os Cartoons, Cristão ou Muçulmano, jornalista ou "civil", preto ou branco, mais cómico ou menos cómico, mais ou menos susceptível, é só um e um só: condenar o acto que vitimou aquelas pessoas. Porque não há desculpa no mundo que salve quem as atacou.

Não há razão para pensar se houve excesso dos cartoonistas. Nem para pensar sobre os limites de humor. Não é essa a discussão.

Morreram pessoas. Morreram no exercício das suas funções. Morreram sem razão atendível.

Só se pode discutir os limites do humor quando há liberdade. Só se pode discutir o que é ou não ofensa quando existem e se aplicam os mecanismos próprios do Estado de Direito.

Quem mata porque está ofendido não sabe o que é a liberdade. Quem defende cegamente um ideal sem postura crítica não é livre.

Por isso, com o devido respeito, marimbo-me para quem é e para quem não é Charlie.


segunda-feira, janeiro 05, 2015

Quantificação

Morfologicamente, pareço o Prof. Chanfrado, personagem interpretada por Eddie Murphy.

Desde dia 24 que os meus convívios passam por um farto repasto. Comer e beber. Conversar. Galhofar. Comer e beber. Conversar. Galhofar.

Tenho perdido tanta coisa ao longo da vida que já me custa quantificar. Pessoas, sobretudo. Depois há os bens, a honra, a dignidade e o amor próprio.

Em nenhum momento da minha (ainda) parca existência envidei esforço algum para me serem retiradas as realidades supra citadas.

Agora, estou redondo.

Como perco a roda de camião que habita no meu ventre?

domingo, janeiro 04, 2015

Estou velho.

Era só  isto.

terça-feira, dezembro 23, 2014

De maneiras que, e mais uma vez ao contrário dos outros anos, não vou enviar mensagens nem telefonar a quem quer que seja a desejar feliz natal, ou próspero ano novo.

Impossibilidades

Por esta altura, ou talvez não, já teria neste espaço uma qualquer árvore de natal e uns votos de festas felizes.

Este ano estou a ser incapaz de postar seja o que for nesse sentido.

As razões são muitas.

A principal é que estou a sentir, mais que nunca, a perda. Sinto a falta. Das pessoas. Do espírito.

Os natais que vivi são irrepetíveis. Nunca havia alegria como aquela. Era como se o ano todo se andasse a preparar para dar as pessoas doses maciças de jubilo, alegria, felicidade.

E assim foram pelas pessoas que o compunham (ao natal) como pela ideia do mundo que tinha.

Nada daquilo se manteve. O que acaba por ser natural. As pessoas partem, tanto física como mentalmente, e as nossas concepções também.

Por isso, em vez dos habituais votos de boas festas, vou escrever, uma vez mais para memória futura, algumas lições que tiro deste ano.

A de hoje é:

- Não vale a pena fazer o bem, ajudar, assistir. É mais feliz quem não pratica semelhantes virtudes.

(Não estou a querer dizer que o contrário é aceitável.)

segunda-feira, dezembro 22, 2014

Por ocasião do Natal

Descobri que me tornei um cínico.

É verdade.

Toda a gente fala dos grandes confrontos e guerras que existiram na história.

Raramente alguém se lembra de quem estava no meio. Na diplomacia, no controlo de danos, na promoção do entendimento.

A verdade é uma: não obstante a existência de meios pacíficos de resolução de litígios, sejam eles quais forem, uma contenda só acaba quando alguém a vence.

Alguém tem de perder para que haja, pelo menos, alguém contente, um vencedor.

Ninguém está disposto a transigir, a chegar a meio termo.

Na ótica dos terrestres, transigir é perder totalmente. E isso ninguém quer.

Vai daí, tornei-me cínico.

Estou no meio de tudo. Ou quase.

Estou constantemente a tentar apagar fogos, a pacificar a equilibrar.

E isso é tarefa de um cínico.

Também descobri recentemente, ou talvez não, que só conta, para toda a humanidade (escrevo duas vezes: TODA A HUMANIDADE) os actos tidos por errados.

Não sobra a lembrança, jamais, de atitudes nobres e corretas. A desconfiança nunca merece arguição. Uma coisa que parece errada aos olhos de um julgador, passa a não parecer, para ser, e uma vida normal é um atentado à decência.

Isto para dizer que, aos olhos dos que me rodeiam, sou uma desilusão.

E isso é mais trágico de aturar no Natal.

quinta-feira, dezembro 18, 2014

Relato

Tenho um chefe.

O chefe chefia, portanto manda.

O chefe mandou, ainda que de forma abstrata, fazer determinado requerimento.

Foi feito.

Começava assim: "A Exequente, tendo tomado da Oposição apresentada (...)".

Como é óbvio, faltava lá uma palavra: "conhecimento".

Fui chamado.

Foi-me dito que o meu Português é imperceptível, que sou distraído, tudo num tom parecido àquele que é usado para escorraçar um cão vadio que tenta raspar o nosso caixote do lixo.

Num fundo, a realidade, sendo brutal, fala comigo por enigmas.

Esqueci-me de escrever "conhecimento". Só pode ser porque tenho falta dele.

O meu Português é imperceptível, daí ter concluído as disciplinas que o ensinam sempre com muita dificuldade.

O tom que é usado comigo é o próprio. Afinal, que sou eu senão um cão vadio à cata de lixo?

Isto só não acabou comigo porque estas crises são cíclicas e não contínuas.

Numa linguagem pueril, o chefe esquece-se que me odeia, durante certos períodos de tempo. Depois lembra-se.

Quando se lembra, a pena por me ter esquecido do "conhecimento" é ser tratado como aquilo que sou e mereço.

Se quero pagar renda, comer, tomar banho e fazer outras coisas que custem dinheiro, tenho que aceitar a minha condição.

De cão.

Que sou.

segunda-feira, dezembro 15, 2014

A importância da física e da química nos dias que correm.

• 500 gr de farinha
• 3 ovos
• Raspa de laranja
• 50 gr de açúcar
• 50 gr de manteiga
• 50 gr de aguardente
• Água e sal q.b.

Misturar bem o açúcar com a manteiga. Adicionar os ovos, a aguardente, a farinha e o sal e amassar muito bem. Adicionar água se necessário e amassar até obter uma massa lisa e elástica. Deixar repousar durante, pelo menos, uma hora.
Tender rectângulos com o auxílio do rolo, numa espessura de 2 milímetros. Fazer três cortes no meio. Fritar em óleo e passar por açúcar e canela.

Espírito Santo

Numa rábula mágica do Herman Enciclopédia, imagina-se o que seria uma recriação do "Juiz Decide" em que os "litigantes" são o Menino Jesus e o Pai Natal.

No final, o Pai Natal perde, uma vez que não existe. Em termos técnicos isto chama-se excepção dilatória por falta de personalidade jurídica e, portanto, judiciária. Efeito: absolvição da instância.

Adiante.

Apesar do desfecho desfavorável, os atores processuais cumprimentam-se e o Menino convida o Pai Natal para ir lá jantar a casa, por conta do Espírito Santo. O Pai Natal pergunta se também não existem negócios com o Jardim Gonçalves.

Quando olho para Ricardo Salgado, sempre presumindo a sua inocência e verdade no que alega, lembro-me dos milhões de trocadilhos que se podem fazer com as palavras "Espírito Santo". Aqui há dias, não vi trocadilhos, lembrei-me de algo. Percebi, se assim se quiser.

Esta altura do ano fez entrar uma frase na minha cabeça: "se tivesse tempo e dinheiro, andava sempre e gastava tudo nos médicos".

Tristemente, este tem sido o meu mantra. Especialmente desde o começo do fim-de-semana.

Para mim, nada seria mais reconfortante do que fazer todos os exames possíveis e imaginarios às mais ínfimas partes do corpo.

Mas, melhor mesmo, seria passar uma hora por semana (quiçá duas) num gabinete psiquiátrico a falar da vida.

Só falar, despejar. Tudo a ser ouvido por uma parte imparcial que tomava notas, dava dicas e receitava comprimidos, os quais cuja toma iria negligenciar.

O meu ideal de dia seria acordar, ir para um ginásio privativo durante uma hora, já depois de ter tomado o pequeno almoço e lido as gordas dos jornais. Depois do ginásio, as consultas e exames. Análises ao sangue, urina, fezes e auscultação. Semana sim, semana não, análise ao escarro. Raio-x, TAC.

O almoço era elaborado por alguém que eu nunca iria conhecer e que faria algo supreendente, estando vedada a confecção de peixe cozido.

Depois de almoço, iria litigar. Dar pareceres. Essas coisas.

Depois, ao fim da tarde, psiquiatria para cima. Uma hora de palranço do mais chato e infeliz.

Jantar nos mesmos moldes do almoço.

Cinema.

Cama.

Desviei-me um bocado da rota.

Natal, não era? No que o Ricardo Salgado me levou a pensar.

Enfim, está aí a época.

Não há muitos anos começava a sonhar com o reencontro da minha família. Muitos deles são velhotes desde que me lembro. Mas ainda assim. Nunca fui avesso a pessoas idosas, pelo contrário. Sobretudo àqueles que passavam o Natal comigo devo quase tudo o que sou.

Hoje parece que cresci. A 10 dias do Dia de Natal só me consigo lembrar do que me falta.

Faltam pessoas centrais. Falta, curiosamente, alguma paz.

Vou voltar ao Herman, uma vez que comecei com ele. Lembrei, já neste blog, uma entrevista que ele deu a um programa chamado "Baseado num histórica verídica", em que dizia que a vida dos pobres é uma seca, que não seria, sequer, parecida à do Ricardo Salgado (sempre ele), onde se falaria de cavalos, affairs com chauffers e por aí fora.

Não vou concluir.


quinta-feira, dezembro 11, 2014

Tempo

Estou doente. Não sei se é grave. Não sei se é normal.

Nesta altura do ano, acontece ciclicamente. Constipações múltiplas. Pingo de ranho no nariz, espirros.

Contudo, ao contrário dos outros anos, tratei dos sintomas supra expostos, mas sobrou um: a tosse.

Quem me conhece sabe que tenho medo de duas coisas: do escuro e da tosse.

Tenho uma tosse semi-produtiva há, precisamente, 6 dias. Pior, é mais frequente no início e no fim do dia.

São vários traumas a congregar a desgraça. Neste momento, queria estar em quarentena, a levar com todos os antibióticos possíveis e imaginários.

Mas não.

É neste momento que quero falar do tempo. Não do tempo enquanto fenómeno meteorológico, mas enquanto divisão do dia em horas, minutos e segundos.

E queria lançar um lamento. Tão típico, tão eu.

Lamento não ter tempo de me ir meter no primeiro médico que vir. Lamento não ir a correr para as urgências para me fazerem todos os testes e mais alguns.

Isto é triste, não é?

Odeio estar assim.

sexta-feira, dezembro 05, 2014

sexta-feira, novembro 21, 2014

Sabotagem

Ainda ontem, no gabinete onde exerço cerca de 98% da minha actividade profissional, uma cliente relatava-me como lhe tinha sido "roubado" um contrato de serviços de transporte que havia celebrado com um importante cliente espanhol.

Explicitando, a senhora era uma empresária de sucesso, com faturação anual de mais de € 500.000,00. De um dia para o outro, os empregados, ainda que contratualmente obrigados a absterem-se de semelhantes condutas, constituiram uma empresa e conseguiram que o cliente da dita senhora cessasse o contrato e lhes adjudicasse os serviços.

Esta conduta é reprovável a todos os níveis. Tenho mesmo a sensação que nem o Camilo Lourenço instigaria a tanto, o que não é dizer pouco.

A cliente procurava uma definição para isto. Falou em sabotagem. O primeiro dicionário on-line que a pesquisa do google fornece define sabotagem como: Sabotagem significa toda a ação que visa prejudidar o trabalho de alguém. Sua origem vem da França, onde a palavra ¨sabot¨quer dizer tamanco e antigamente, os operários trabalhavam usando tamancos. Nos protestos contra o patrão , jogavam os tamancos sobre as máquinas para danificá-las, daí o têrmo ficou conhecido com o seu significado atual.

Tenho defendido que coisas más devem acontecer a más pessoas. Tenho, inclusivamente, desejado com algumas das mais profundas forças do meu ser que aconteçam coisas más a más pessoas.

Apesar disto, uma coisa parece certa: nada vai acontecer, a menos que seja provocado. Daí relembrar o episódio da supra citada senhora. Os empregados, (inserir adjectivo), levaram a cabo o seu plano e trabalharam a seu favor. É bem verdade que sabotaram as relações profissionais da senhora, mas eu também já referi que a acção é tudo menos digna.

A lição que tiro disto é que, até em acções profundamente condenáveis estão exemplos. Digo isto a observar uma esfera humana com neve no seu topo. Uma esfera que grunhe, que se move qual lesma, a arrastar-se.

quinta-feira, novembro 13, 2014

Notas

Como sempre, voltou a chover.

A chuva traz consigo um certo estado de alma.

Até esta linha, só escrevi lugares comuns.

O pior da chuva é quando age em comparticipação. Ou quando tem cumplices. Nesse caso, o corpo humano é uma diligência a percorrer uma qualquer paisagem árida do "far-west" prontinha para ser assaltada pelo bando mais temido das paragens: a chuva, o vento, o frio e o sono.

Na diligência que vos escreve, o sono será sempre o cabecilha.

Fui assaltado.

(Metaforicamente, certo?)

sexta-feira, outubro 31, 2014

Em memória

Deixai que a Vida sobre Vós Repouse  


Deixai que a vida sobre vós repouse
qual como só de vós é consentida
enquanto em vós o que não sois não ouse

erguê-la ao nada a que regressa a vida.
Que única seja, e uma vez mais aquela
que nunca veio e nunca foi perdida.

Deixai-a ser a que se não revela
senão no ardor de não supor iguais
seus olhos de pensá-la outra mais bela.

Deixai-a ser a que não volta mais,
a ansiosa, inadiável, insegura,
a que se esquece dos sinais fatais,

a que é do tempo a ideada formosura,
a que se encontra se se não procura.

Jorge de Sena, in 'As Evidências'