segunda-feira, maio 20, 2013

A intimidade

Para uma definição: cá está ela.

Enquanto qualidade daquilo que é íntimo, a intimidade é, na minha modesta opinião, uma última barreira.

Do grande princípio da confiança que norteia toda e qualquer relação, seja pessoal ou jurídica (mesmo!), que não convém violar, deriva a defesa da intimidade.

Essa defesa faz-se das mais diversas formas.

Por um lado, não propagandeando o que nela existe, e por outro, decisivo, fazendo dela um círculo privilegiado de conversa, debate, avanço.

Num plano algo diferente deste, temos a conversa da treta.

A conversa da treta surge como uma das mais fantásticas criações da natureza. Qualquer ser-humano tem capacidade da produzir, de a fazer alastrar, até de a defender.

Certo dia, a conversa da treta e a intimidade encontraram-se.

Digamos, para jogar uma bisca lambida.

Como não são pessoas, não falaram uma com a outra.

Nem jogaram às cartas.

Porém, a mera hipótese metafórica de um encontro entre um substantivo e uma expressão faz logo antever que está na própria rerum natura a total antitese.

A moral da história não é o gelado ser de morango.

Quando se misturam realidades incomunicáveis é estúpido.

E o que é estúpido é só estúpido ou poderá resultar, ainda, na moagem mental.

E a mente não é materia prima para fazer pão.

segunda-feira, maio 06, 2013

Dicionário

Patrão

s. m.

1. Chefe de uma empresa industrial ou comercial.

2. Qualquer pessoa em relação aos que a servem.
3. Amo.
4. Comandante de barco. = ARRAIS, MESTRE
5. Patrono.
6. [Antigo]  Padrão.
7. Pessoa a quem não se pode mandar para o caralho que a foda.

segunda-feira, abril 29, 2013

Labores del Hogar

Trata-se de uma revista cuja resistência ao tempo é teste que não sei se passou.

A trabalhar num determinado tipo de peça processual, dou comigo a somar os despojos do dia.

E ainda são só cinco da tarde.

Neste momento, tenho dois patrões.

Agora, estou sujeito aos registos temporais.

Por enquanto, só tenho dúvidas na minha cabeça.

Por que raio havia de estar a viver num momento de crise?

Quanto tempo demora uma peça processual?

Quanto tempo?

Por que razão estou confinado a isto?

Odeio fazer perguntas.

Não gosto do que faço.

Não faço o que gosto.

Pior: pareço uma pita maluca com poesia de casa de banho.

É isso.

Uma pita maluca.

quarta-feira, abril 24, 2013

Ao serviço do mal

Ando a ler, aqui e ali, (mais ali do que aqui) um livro interessante chamado a Nova Teoria do Mal, de Miguel Real.

A complexidade das linhas é clara: começa por uma análise ao funcionamento do cérebro, vai desenvolvendo, até concluir (e nisto estou a ser parcimonioso) que a face do mal são os economistas.

Ainda agora, dei comigo a ouvir o Animal dos R.E.M.

Claro que todas estas referências de pequeno-burguês não significariam nada, não fosse o trabalho que, neste exacto momento, estou a desempenhar.

E que trabalho é esse?

Tentar safar um cliente (também pequeno) que denunciou um contrato a termo que, digamos, não cumpria com os requisitos legais.

A trabalhadora veio impugnar aquilo tudo.

Há que contestar.

Calhou-me.

Nada de más interpretações: gosto muito deste tipo de serviço.

Por outro lado, foi precisamente por isto que não quis ser advogado.

quarta-feira, abril 17, 2013

Um certo de tipo de calor

Cheira a trovoada.

Quando a dita cuja está para rebentar, o dia que a antecede é sempre especial.

Há um certo tipo de calor a pairar. Alguma poeira, até. O céu configura-se como se estivesse para parir qualquer espécie de matéria que, dali a umas horas, sabemos qual é.

Por norma, são dias tranquilos. Passa-se pouco, ou nada.

Na verdade, até as conversas são feitas na base da previsão do estado do tempo.

- "Hmmmm, cheira a trovoada."
- "Ahnnnn, pois é, pois é".

Depois de um prazeroso espetáculo a que tive o privilégio de assistir, regressei à chamada "residência habitual".

Como faço (sempre), liguei a televisão. Na RTP2 passava um filme que sempre me agradou, pelos mais diversos motivos: O Frenético.

Quis o acaso que a acção estivesse na cena em que os personagens protagonistas estão num clube privado. Eis que toca Strange, interpretado por Grace Jones (em português, Graça Jonas).

Há dança.

Por alguma razão que alguma ciência algum dia explicará, cheirou-me a trovoada.

Ali, naquela cena específica, está uma metáfora. Mais do que uma metáfora, naquele filme, a cena acaba por ser premonitória de um final semi-trágico.

Ou seja, uma espécie de santíssima trindade que não o é: trovoada, metáfora e tragédia (e aqui é que falha o entendimento: a trovoada é, em si mesmo, uma metáfora para a tragédia. Ora, a trovoada é metáfora para tragédia. Em fim e ao cabo, nem santíssima trindade, nem abençoado duo: é tudo a mesma coisa).

Fica aqui parte importante da banda sonora.

terça-feira, abril 02, 2013

Gostos e Desgostos

Desta vez, qualquer coisa mais pessoal.

Ainda no dia de hoje, o Sporting Clube de Portugal derrotou o Sporting Clube de Braga por 2-3 no estádio municipal de Braga.

É uma dia feliz, tendo em conta que as vitórias e o el contado têm escasseado por Alvalade.

Neste mesmo dia, uma das multiplas vergonhas do meu clube, Dias Ferreira, abandonou o espaço de comentário televisivo, o Dia Seguinte.

Saiu a dizer: "Não gosto de si", respondendo ao moderador que lhe dizia que não gostava de ver o de costas para a mesa.

Pela segunda (penso eu) vez na história televisiva, aquele homem sai de um programa televisivo aos berros.

Concluindo: não há dias perfeitos na história do SCP, porém, abundam os dias ferreiras.

segunda-feira, março 25, 2013

Decadência

Ou erosão.

O título podia ser uma outra palavra.

Vamos, então, para a decadência.

A convivência entre os semelhantes é feita de diversos componentes. Em primeiro lugar, a meu ver, a mera coexistência e partilha do mesmo espaço depende da tolêrancia que temos para com as diferenças do próximo.

Da mesma forma, nasce amizade quando muito mais é aquilo que une do que aquilo que nos separa, uma vez mais, do próximo.

As amizades, aquelas dignas desse nome, resistem bem ao tempo e, independentemente do tempo que passe entre a última vez que se viu um amigo e aquela vez em que se dá o reencontro, tudo está na mesma, com a mesma confiança e conforto que houve desde sempre.

Então, poder-se-á dar o caso de haver uma decadência de tão forte companheirismo?

Claro.

Lamentavelmente, constato que o tempo e respectivo decurso, devidamente acompanhado de episódios menos felizes, produz um fenómeno de afastamento progressivo e decadência naquilo que era algo bastante decente.

Isto é um dado meramente empírico ao qual os líricos responderão qualquer coisa como: "Pá, se forem mesmo grandes amigos, o tempo não significa nada".

Mas significa.

Thats a bitch.

terça-feira, março 12, 2013

O sustentável peso da inexistência

Por várias vezes a ficção literária, televisiva e cinematográfica (que são as que conheço) tentou criar o cenário perfeito da antítese.

Isto é, tentou pôr o mundo do avesso, apresentar o caos, a discórdia, a incerteza, insegurança, a vida depois da morte e a morte como início da vida.

A vida real, como sempre, como dantes, já cantava o Camané, mete a ficção no chinelo.

O mundo, a certas horas do dia, em certos dias do mês, em certas épocas do ano, vira.

Vira sem aviso, vira de repente.

E depois volta ao normal, àquilo que antes era. Uma vezes tão depressa como virou e outras vezes com variações ritmadas a interromper o processo de retoma, de regresso.

A teoria geral disto que digo está na própria concepção de natureza, de biologia.

Está "escarrapachada" nas burlas aos velhotes, quando eles, enciclopédias vivas, já deviam saber mais a dormir que um batalhão de burlões acordado.

Está patente no declínio de civilizações milenares, fortes, cultas e preparadas: gregos, romanos, incas, por exemplo.

Está na morte de um filho, quando os pais estão no seu velório.

Em todos estes casos, o mundo virou.

Como virou o meu, ainda que por minutos, ainda hoje.


sexta-feira, março 08, 2013

Confluência

O canal Q está na Zon.

Eu sou subscritor da Zon.

Posso ver o Canal Q.

Foi o que fiz.

Ontem, volta da meia noite, meia-noite menos dez, no eterno zapping que efectivamente exerço, parei no supra citado Canal Q.

No ar, o programa "Baseado num história verídica". O Convidado era o Herman José.

Herman José é inevitavelmente inteligente. Chegou onde quis, fez o que lhe apeteceu e, como toda a gente, teve um azar, o de ser "metido" no saco Casa Pia, sem que nada o relacionasse com o processo.

Adiante.

Às tantas, o tema vira-se para a alta sociedade. O entrevistador pergunta-lhe qual o fascínio por ela.

Sai qualquer coisa como isto: "Tu já viste a vida dos pobres? O pobre tem de escolher se vai para a cama, ou se fica a ver televisão; se vai comer ou vai cagar; se vai passear ou fica em casa. Imagina a casa do Ricardo Salgado, aquilo deve ser um glamour. Ele com os filhos, milhões de assuntos. Agora, põe, nisso, um escândalo, uns cornos, a chiquérrima a apaixonar-se pelo Jardineiro. É totalmente diferente" (As palavras podem não ter sido exactamente estas).

Naquela altura, estava a ver televisão, não tinha fome e estava escuro para passear.

segunda-feira, março 04, 2013

Momento meramente académico

Estava a pensar (seriamente, diga-se) encetar uma obra: A Teoria Geral do Limite.

Seria, como o próprio nome indica, um livro com múltiplos tomos e volumes. Teria de abranger várias áreas e inter-ligar ciências e crenças.

O objectivo final seria perceber quando se traça o limite.

Hoje, desisti dessa ideia.

Traçar o limite é a coisa mais fácil deste mundo e do outro.

Problema, aqui, são as consequências. Se cada um está preparado, ou não, para lidar com o que vem a seguir da violação do limite.

E como lida?

E o que vem a seguir?

São incógnitas a mais.

Resta, como sempre, a vontade. Essa é certa como a morte: violado o limite, o fim mais simpático para quem o violou seria a incineração.

Mas a vontade não passa dela própria.

Sob pena de cadeia.

Sob pena de fome.

A terminar, lembrei-me de uma "passagem" interessante de um belo filme que vi, há dias: "Caro Freddie, quando souberes como hás de viver sem depender de um senhor, avisa-nos" (Era qualquer coisa parecida com isto).


quinta-feira, fevereiro 28, 2013

I had the time of my life

É uma música pertencente à banda sonora do filme Dirty Dancing, com Patrick Swayze, entretanto falecido.

Isto a propósito do Silver Linings Playbook.

Modo geral, sou adepto de comédias. Um pouco menos de comédias românticas, como é o caso, mas adepto, ainda assim.

Como em tudo, tanto na vida, como nos filmes, há pequenos factos que distinguem, traçam o destino e formam personalidades e características. Aquela hora certa em que se estava no lugar certo. Aquela compra que valeu o triplo do preço. A pessoa que connosco se cruzou.

No cinema, é menos visível, mas está lá.

A derradeira prova, na minha modesta opinião, pois claro, de que o filme, no género, é superior aos pares reside, precisamente, na cena de dança, em que aquilo não corre conforme ensaio.

Pelo contrário, no Dirty Dancing, o cavalheiro Swayze levanta a parceira com uma limpeza exemplar.

Gostei de ambos os filmes, por razões absolutamente diferentes.

Mas o banal era acontecer tudo certinho, porque o "bem triunfa sempre".

Felizmente, aconteceu um precalço.

Porque só com eles (precalços, bem entendido) se pode dar valor ao finalmente.

segunda-feira, fevereiro 25, 2013

O Bode Respiratório

Parece-me que é uma expressão oriunda dos meios futebolísticos.

Adiante.

Como gosto de cinema, não me incomoda nada, pelo contrário, ver distinguido o cinema de qualidade. Vai daí, há as entregas de prémios.

Realizou-se, nesta madrugada, a entrega dos prémios da academia, os Oscares.

Ao contrário da população geral, até gostei do enquadramento.

Por outro lado, no que aos galardoados diz respeito, nem vou pôr em causa o mérito, que com certeza devem ter.

Irritou-me, bastante, a previsibilidade. Os comentadores da cerimónia, que estiveram bem, raramente falharam num nome, lançando, antes do anúncio oficial, quem era o favorito.

Meu dito, meu feito.

Irrita-me toda a tendência que não seja jurídica. Agrada-me o precedente, a consideração que se tem pela jurisprudência e pelos acordãos uniformizadores de jurisprudência.

No que toca a prémios, e especialmente quando é suposto haver surpresa, prefiro não saber.

Quanto a opiniões pessoais, não vi a Vida de Pi nem o Argo. Porém, tendo adorado o Django, preferia que o boneco fosse para o Tommy Lee Jones e que a Jennifer Lawrence esperasse um bocado mais pela vitória. Uns anos.

Mas, repito, não deixa de ser justo.

quinta-feira, fevereiro 21, 2013

O Hino



Dedicada aos sujeitos activos da subordinação jurídica.

(Juridiquês macarrónico).

terça-feira, fevereiro 19, 2013

Arrentela vs Brasil

Peguei no calhamaço das fotocópias, meti-o dentro da mala e lá fomos.

Isto foi antes de tudo.

4 horas e meia, quiçá 5 e cerca de 500 mil metros depois, lá chegámos ao destino. Aquela casa, aquele lar "lá para cima".

A proposta de estadia era mista. Gozar e estudar.

Como eu disse, foi antes de tudo.

Infelizmente, nunca tive qualquer problema em exercer o belo ócio. É uma questão central na minha vida. A modesta arte do vegetanço corre-me nas veias. Mas isto é feio de se escrever.

Exercido o ócio, nas suas mais diversas modalidades, cabia enquadrar aritméticamente o estudo.

Sentei-me na cozinha. Abri o calhamaço. Não estive sentado duas horas.

O céu, que se via, estava cinzento. Não chovia. Ouviam-se todos os barulhos. A lareira estava o mais parecido possível com um angelical inferno pessoal.

Fartei-me daquilo. O regime jurídico (termo que só vim a aprofundar mais tarde, a bem da sanidade académica) parecia-me acessível.

Dias depois, por escrito, era pedido que resolvesse uma miriade de questões relacionadas com uma promessa de arrendamento a um casal que, hellas, entretanto se havia divorciado.

A conclusão destas linhas, em forma de memória, é uma: o presente vale tanto como um saco de batatas. Menos, talvez.


Patrão Fora...



Benedicta influenza.

segunda-feira, fevereiro 18, 2013

Provincia

Hoje fui, pela primeira vez, em serviço, ao Campus de Justiça.

Hoje.

sexta-feira, fevereiro 15, 2013

Da anormalidade

Estava à conversa com o capataz da plantação onde exerço a minha profissão de colector de cana de açucar.

A conversa veio parar ao cinema.

Por alguma razão, e confesso toda a minha estupidez em ter, sequer, começado a trocar verbos com a autoridade, disse-lhe que já não tinha paciência para ir a determinado Centro Comercial ao cinema. Muitos putos, muita berraria, pouco civismo.

É então que o cavalheiro pergunta, profundamente indignado: "Epá, mas que filmes é que vais ver?"

E esperou que eu enumerasse.

Não sei porquê.

É que, com ele, nunca tinha acontecido.


quinta-feira, fevereiro 14, 2013

Dia dos Namorados

Há que ser sempre um bocado profano.

Acordei a pensar em "dicas" ou "frases de engate", algo diferente do piroto do trolha.

Só me lembrei de 3.

"O meu nome é Lindo, porque o Ar já tu mo tiraste".

"Usas cuecas TMN? É que tens um cú que é um mimo" (Muito velha, esta.)

"Caíste? Do céu até cá abaixo deve ser uma bruta queda..."

quarta-feira, fevereiro 13, 2013

Da tendência de suscitar

É da data. Cresce a tendência para suscitar. Desta feita, suscito a lamechice. Amanhã é dia dos namorados. Como todas as datas comerciais, gosto dela.

sexta-feira, fevereiro 08, 2013

A propósito de uma "pintura" do Bansky, ou da reconstrução do pensamento desprovido de contexto.

Acordar com a seguinte pergunta: Pode um sonho prescrever?

A prescrição é um termo técnico, jurídico.

Paz, quando a mesma se aplicou sobre um crime.

Sorte, quando se fala dela associada a uma dívida.

Os sonhos prescrevem.

Contratamos com a vida a sua concretização. Não depende dela a melhor execução, muito menos o cumprimento. Depende de cada um.

Nunca será a vida a reclamar judicialmente o cumprimento desse sonho.

Porém, será a primeira a invocar a prescrição, quando bater na consciência individual o falhanço e a ela formos pedir contas.

Para tudo há um tempo.

Até para realização de sonhos.